Cadastre-se Grátis

Receba nossos conteúdos e eventos por e-mail.

Ensaios sobre a loucura… econômica (ou Saudades do carioca Stanislaw Ponte Preta)

Mais Lidos

Helio Silveira
Helio Silveira
Helio Pires da Silveira - Nascido em 1952 (mesmo ano da criação do BNDES)-Economista aposentado do BNDES: de 1977 a 2012, dos quais nos últimos 6 anos participou da Diretoria da AFBNDES: de 2006 a 2010 como Vice-presidente e 2010 a 2012 como Diretor Institucional e de Comunicação.

Por Hélio Silveira

“Foi em Diamantina, onde nasceu JK, que a princesa Leopoldina arresolveu se casá…” – Samba do Crioulo Doido, de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta

Atual conjuntura I

Na introdução do “Samba do Crioulo Doido”, o jornalista Sérgio Porto, o genial Stanislaw Ponte Preta, conta que um compositor de samba-enredo, homem de poucas letras, após anos seguindo o regulamento, quebrando a cabeça para compor sobre temas históricos brasileiros, tais como Abolição, Inconfidência, Proclamação e Monarquia, surtou de vez quando o tema do ano foi a Atual Conjuntura.

Dono de humor político cáustico, Sérgio, falecido precocemente em 1968, foi um grande criador de frases, tais como: “A prosperidade de certos homens públicos no Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso de nosso subdesenvolvimento”. Exaltador da beleza feminina, criou a famosa lista anual “As certinhas do Lalau”, para contrapor a lista das “10 mais” (socialites) do colunista social Jacinto de Thormes (o Maneco Muller). Com relação à beleza da carioca, disse uma vez, satiricamente, que “se peito de moça fosse buzina, ninguém conseguiria dormir nesta cidade”.

Por fim, Sérgio Porto foi o criador do “FEBEAPÁ – o Festival de Besteiras que Assola o País”. Na obra compilava frases, recortes de jornais, atitudes e resoluções oficiais que de acordo com sua narrativa resultava em situações ridículas, em pleno regime de exceção. Seguramente, se vivo estives-se, Sérgio estaria na enésima edição do que agora poderia ser chamado FEBEAMUN – O Festival de Besteiras que Assola o Mundo.

Atual conjuntura II
Mundial

Inspirados por Sérgio Porto, podemos, então, tentar entender (ou não) o que acontece num mundo louco. Na Série BNDES, publicada no site da Associação, temos relatado os sucessivos acontecimentos pós-setembro de 2008, quando, em resumo, vemos operadores financeiros, bastante líquidos e refeitos do susto recente, especulando em ativos e commodities  totalmente dissociados de um mundo real sofrido e ainda lutando para sair de um forte desaquecimento que teima em perdurar. A propósito, o documentário vitorioso no Oscar de 2011, “Inside Job”, retrata didaticamente o que foi este escândalo.

Não bastassem as desastradas ações humanas, acrescenta-se infelizmente uma tragédia natural da proporção do terremoto do Japão, com lamentáveis perdas humanas e ameaça de acidente nuclear.

No atual estágio da financeirização, vemos, de novo no mundo, situação semelhante aos meses que antecederam o setembro de 2008, ou seja, petróleo, minerais e alimentos atingindo cotações elevadas, mas agora, diferentemente daquele período, diante de um quadro de desemprego e insatisfações sociais que se alastra pelo globo. Com tantos vetores contraditórios, podemos, como resultante, estar diante de um possível quadro de estagflação, inflação de commodities e baixa atividade econômica no mundo real, prenúncio de um quadro abertamente recessivo.

Estamos, então, em um momento pré-Ponzi (metaforicamente, uma grande bolha especulativa)? Infelizmente, mesmo diante do conhecimento atual, em que o domínio da política econômica – com suas principais subdivisões (a monetária e a fiscal) – pode acabar com a recessão, lideranças mundiais teimam em deixar o mundo líquido, por um lado, e, ao mesmo tempo, em desaquecimento diante de atuações restritivas na esfera fiscal. Lideranças mundiais teimam em não adotar políticas coordenadas, acreditando que a aleatoriedade dos mercados encontrará o caminho da saída. Não veem que políticas monetárias frouxas e fiscais restritivas são lenha na fogueira da recessão e razão dos conflitos sociais que se alastram?

Desejamos que o bom senso predomine no último minuto antes do caos, e políticas de coordenação prevaleçam tal como a sugerida por Keynes em 1944 (leia “BNDES –TESOURO e a Alienação Geral (PDF); e “A financeirização da fome“, de Luiz Gonzaga Beluzzo.

Então, o que prevalecerá, nessa atual conjuntura, a impessoalidade do mercado ou uma forte atuação humana de forma coordenada?

Brasil

Após um crescimento de 7,5% em 2010, parece que tudo se fará para voltarmos à paz dos cemitérios. Ao invés de metas de crescimento de 7% a.a., menor que as taxas históricas de mais de duas décadas do I e do C dos BRIC’s, perseguiremos metas de inflação de 4,5% a.a. (até 2012) e crescimento de 3,5% a.a.

Diante de uma conjuntura em que os países tentam de todas as formas manter suas moedas depreciadas, a nossa taxa de câmbio, já extremamente apreciada, é mais uma vez fortalecida, haja vista que em duas rodadas o COPOM manteve nossa taxa de juros na posição de maior do mundo – para a alegria dos rentistas daqui e do exterior.

Se confirmado o momento Ponzi, não poderemos presenciar o mesmo quadro acontecido em 2008, em que diante da eclosão da crise demoramos a reduzir a taxa de juros? Não poderemos presenciar uma nova depreciação cambial explosiva e a fuga dos capitais velocistas? Estamos diante de uma situação preocupante? Que medidas tomar?

Planejar é preciso

Por outro lado, vivemos uma situação paradoxal, uma conjuntura mundial difícil, mas um calendário de eventos esportivos até 2016, além da exploração do Pré-Sal! E a partir dessa constatação, surgem várias interrogações: Conseguiremos superar o curto prazo e partirmos para planejar os próximos anos favoráveis?

Não será necessário retomar as práticas do planejamento estratégico para atacarmos nossas dívidas sociais e recuperarmos nossas estruturas urbanas, municipais e regionais? Não temos de buscar o pleno emprego e desenvolver nossas potencialidades dentro dos princípios da preservação ambiental e da sustentabilidade?

Não temos que planejar o desenvolvimento de nossa matriz energética limpa e logística, e através dela agregarmos valor ao nosso setor industrial, atualmente debilitado pelo câmbio e pelas elevadas taxas de juros?

Não temos que planejar e desenvolver a exploração do petróleo do Pré-Sal de forma a só exportar o excedente com maior valor agregado? Não temos que levantar o real dimensionamento das reservas para servir de lastro para as necessidades cambiais que financiarão a aquisição dos bens de capital iniciais necessários à recuperação do parque de equipamentos nacional para a exploração petrolífera? O excedente também não poderá financiar um novo processo de industrialização autônomo?

Não temos que ficar alertas diante das nações amigas que oferecem seus excessos de liquidez e suas instalações e equipamentos ociosos para financiar nossas necessidades presentes em troca do comprometimento de cotas futuras de petróleo cru?

Por tudo isso, estamos apoiando a iniciativa de participação no Fórum Nacional de Desenvolvimento, junto com as Associações de Funcionários do BNB, do IPEA e dos Analistas de Planejamento e Orçamento do Ministério do Planejamento, conforme publicado no último VÍNCULO, na matéria Por um Plano Estratégico de Desenvolvimento.

Artigos Relacionados

Comentários Sobre Conjuntura Internacional, por Marcelo Zero

Essequibo i. Dizer que a questão de Essequibo é uma agenda de Maduro ou do chavismo seria a mesma coisa que afirmar que a questão...

O Desafio de Defender a Soberania que Ainda Resta ao Brasil

O mundo contemporâneo reflete uma realidade implacável para um país como o Brasil sob a qual defender e manter a soberania é algo muito...

O Paradoxo do Governo Lula: Indicadores Econômicos e Sociais Relevantes, mas Não Consegue Comunicar Isso ao Povo

O prefeito do Recife, João Campos, reconhecido pela excelência no trabalho de comunicação do seu governo, em entrevista ao programa Roda Viva (ver vídeo),...

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Em Alta!

Colunistas