Original em: jornal Tribuna da Imprensa.
O século XXI exige mais do que energia.
Exige soberania. Exige resiliência. Exige pertencimento.
Enquanto o mundo assiste a apagões, guerras cibernéticas e colapsos logísticos, o Brasil — com sol, vento, terra e inteligência— ainda hesita em perceber onde está sua força real: no interior do país, onde a energia já pulsa, mas ainda não foi plenamente ativada.
É ali, nos municípios vocacionados à produção de alimentos, fibras, madeiras, ervas, carnes, sabores e saberes tradicionais, que a nova matriz energética brasileira pode — e deve — nascer.
A energia do futuro não está nas capitais. Está nos campos.
A independência energética do Brasil não será conquistada apenas com megaprojetos estatais ou grandes usinas conectadas à capital. Ela será construída em rede, com protagonismo local, a partir de:
– Usinas solares em sistema cooperativado com proprietários de áreas rurais, várias delas improdutivas atualmente;
– Biodigestores que transformam dejetos em biogás;
– Mini hidrelétricas e PCHs em cursos d’água já existentes;
– Plantas eólicas regionais associadas a consórcios municipais.
Quando cada cidade reconhece seu potencial energético e assume sua geração, nasce um novo tipo de liberdade: a liberdade energética com identidade própria.
Indicações geográficas: não é só produto— é estratégia de soberania
As indicações geográficas (IGs) são, em essência, marcas de pertencimento territorial. O café da Mantiqueira, o queijo da Canastra, o mel do Pantanal, a cachaça de Paraty, o vinho dos Campos de Cima da Serra, o açaí atlântico de Silva Jardim, a carne vermelha do Pampa gaúcho — todos são expressões de um bioma, um saber e um povo.
E quando esses produtos são beneficiados com energia local, limpa e rastreável, eles passam a integrar algo ainda maior: um ecossistema de produção e inovação autossuficiente, que fortalece o campo, a cidade e o Brasil inteiro.
É essa costura entre identidade produtiva e energia limpa que deve guiar a política pública do presente. Não apenas por ideologia — mas por necessidade histórica.
Soluções práticas para territórios vivos
O Brasil não precisa importar soluções. Precisa enxergar o que já tem – terras com radiação solar de excelência e biomassa abundante, verdadeiro desperdício energético diário.
Com comunicação institucional integrando as ações, não será impossível despertar o interesse da juventude interiorana que está em busca de propósito e trabalho técnico, empreendedores e Prefeituras dispostas, formando-se consórcios intermunicipais organizados com o apoio técnico de universidades locais com conhecimento aplicado, que por sua vez, podem estabelecer convênios com centros de estudos avançados de todo o mundo.
A equação é clara: Energia limpa + Produção regional + Cooperação entre municípios= Independência real.
Quanto custa um ecossistema energético completo?
Falar em independência energética do interior pode soar abstrato para quem vive sob a lógica centralizadora de Brasília ou das concessionárias.
Mas a realidade é que, com planejamento, cooperação e um mínimo de ousadia, o Brasil pode se transformar em uma potência energética distribuída, de baixo para cima.
Vamos ao número: para um município de 50 mil habitantes, com produção agroindustrial e identidade territorial, o investimento para garantir energia limpa, autossuficiente e com excedente pode girar em torno de R$ 83 a R$111 milhões — conforme o perfil geográfico indicar:
– Usinas solares cooperativas de até 12MWp;
– Biodigestores com geração a biogás de 2 a 3 MW;
– Sistemas de armazenamento frio para garantir estabilidade 24h;
– Centro local de controle, redes inteligentes e formação técnica.
Esse ecossistema pode atender toda a demanda energética local, gerando até 500 MWh por mês de excedente paraa rede nacional. Será consequência a criação de empregos, tributos e autoestima produtiva onde hoje há apenas passividade.
Com apenas R$ 10 bilhões, que normalmente é o custo de uma grande e dispendiosa obra federal, o Brasil poderia instalar 100 polos territoriais energéticos completos, beneficiando 5 milhões de pessoas e iniciando uma verdadeira revolução silenciosa da soberania descentralizada.
Mercado de Capitais participativo, pulverizado e democrático
Tal infraestrutura energética por sua vez, alavancaria a instalação de pelo menos 100 ecossistemas de produção e inovação. Com investimentos estimados em R$ 80,0 milhões em cada um destes APLs, o Mercado de Capitais captaria R$ 8,0 bilhões através de Fundos de Investimentos em Participação, Fundos Imobiliários e títulos financeiros como: CPR-Verde, CRI, CRA, Notas de Investimentos e demais instrumentos, injetados nestes Centros de Beneficiamento e Estoque.
Cada um desses investidos projeta um faturamento bruto mínimo de R$ 650,0 milhões anuais a partir do segundo exercício de atividades. Somados, consolida-se um Produto Interno capaz de alcançar mais R$ 65,0 bilhões anuais, aquecendo as economias circulares de mais de 300 cidades e 5 milhões de pessoas envolvidas, fora a expansão do Turismo temático em cada um destes lugares.
O futuro da energia está no interior
Não é nas bolhas tecnocráticas, nem nos palácios, que a soberania energética será construída. Ela nascerá nas pequenas cidades que sabem o que produzem, sabem de onde vêm, e agora começam a decidir para onde querem ir.
Seguiremos fazendo o que acreditamos: articulação de territórios, despertando consciências e fortalecendo a ideia de que o Brasil é viável quando suas raízes se reconhecem como tronco.
Energia limpa, identidade produtiva e cooperação local: é isso que vai acender o Brasil de verdade.


