A (des)resignação ao sórdido. Por Luiz Henrique

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O que você pensaria se pessoas que você admira se juntassem aos que obviamente são estúpidos ou desonestos?

Se as opiniões de quem você considera começassem a ser influenciadas pela baixa cognição ou pela má intenção?

A primeira reação costuma ser o estranhamento, mas logo ele dá lugar à perplexidade e, não raro, à tristeza.

Porque há algo de profundamente perturbador em ver a lucidez cedendo espaço à conveniência, o senso crítico sendo substituído pelo cálculo oportunista e a ética sendo negligenciada, a fim de não atrapalhar os arranjos sórdidos.

A verdade é que não estamos preparados para a traição biográfica daqueles que tomamos como exemplares.

Quando a ignorância comete abusos, ainda resta algum consolo: “não sabiam o que faziam”.

Mas quando aqueles que sabem muito bem o que estão fazendo cruzam o limite do ético e aderem ao inaceitável, resta-nos apenas a amargura da decepção.

É aí que nasce a tentação da resignação, aquela vontade de se calar, de deixar para lá, de aceitar que o mundo talvez seja mesmo movido por cinismo, oportunismo e covardia.

Foi exatamente diante desse abismo moral que o teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer (1906–1945) escreveu, às vésperas de ser assassinado pelo regime nazista, que “o silêncio diante do mal é em si mesmo um mal.

Deus não nos considerará inocentes. Não falar é falar. Não agir é agir.”

A frase está em uma das cartas reunidas na obra Resistência e Submissão, na qual expõe, com profundidade, a tensão entre a fé autêntica e a covardia institucionalizada.

Bonhoeffer não apenas denunciou a corrosão ética da sociedade alemã, mas também se insurgiu com firmeza contra a engrenagem do ódio que se instalava no coração do Estado.

Quando grande parte das igrejas se curvou à lógica do Führer, ele permaneceu firme, pois sabia que, diante da barbárie, a omissão não é neutralidade, é cumplicidade.

Tratando desse mesmo tema, Zygmunt Bauman (1925-2017), em sua obra Cegueira Moral, ensina que antes de a resignação se instalar como estado de espírito, os indivíduos atravessam um processo insidioso e progressivo de esvaziamento ético.

No início, ainda reagem com indignação frente aos despautérios do obtusos ou desonestos, mas essa reação logo se transmuta em uma curiosidade tolerante.

O que antes causava asco começa a ser observado com uma certa neutralidade que se aproxima a adesão.

Em seguida, cessam os questionamentos.

O discurso, antes fundado na razão, na crítica e no compromisso com a coerência, degrada-se em frases curtas bem humoradas e apelos emocionais frágeis.

A linguagem vai perdendo profundidade, represada pelas conveniências.

Por fim, instala-se a desistência.

Desistem de lutar pelo que é justo, de esperar grandeza daqueles que deveriam ser exemplo, de acreditar que a verdade ainda possa ter lugar na vida cotidiana.

Mas é justamente nesse ponto, aparentemente final, que alguns se insurgem contra a resignação.

Recusam o convite do conformismo e escolhem resistir, acreditando que há dignidade em ser honesto mesmo quando ninguém está olhando e que há sentido em continuar lutando quando tudo ao redor convida à rendição.

São poucos, às vezes solitários, quase sempre tachados de contraproducentes.

Mas neles arde obstinada, a chama da decência.

Não como crença abstrata, mas como prática cotidiana.

Recusam o conforto da omissão, enfrentam o custo da lucidez e seguem apontando o que precisa ser mudado, mesmo que isso lhes imponha o fardo da maledicência dos hipócritas.

Por fim, talvez a grande questão desta crônica não seja por que tantos se corrompem, como se a degradação moral fosse uma exceção a ser explicada.

Mas sim: como ainda há quem resista?

Como é possível, em meio ao enfraquecimento ético das instituições, à normalização do cinismo e da mentira, à exaltação da vitória a qualquer preço, que alguns ainda escolham o caminho mais árduo da integridade, mesmo à custa da autopreservação?

Essas perguntas não exigem respostas definitivas.

Embora se imponham como bússola e mapa para os tempos sombrios que atravessamos.

Sob esse sentido, que elas incomodem, inspirem e, sobretudo, impeçam todos aqueles a quem alcançar de aceitar a resignação ao sórdido como cadafalso do comportamento ético.

Assim seja.

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