Home Brasil Não sei se te conto esse causo (Crônica literária)

Não sei se te conto esse causo (Crônica literária)

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Foi ali pertin do Afonso Pena.

Subindo o viaduto do oiapoque…

A moça que eu me gradei entrou em um desses azulzinhos.

Tá no 4107, sentido Alto Caiçara, olhando para o lado, apertando forte a bolsa, preocupada com o dinheiro que tá contado pra até o fim do mês.

Ela tá que bate o pé de sapatilha no assoalho.

Depois levanta a manga do blusão para consultar a hora.

Mordisca com parcimônia a barra do arcor, toda ansiosa para chegar em casa, fazer o capuccino com torrada e se der pegar o resto da novela.

E depois cochilar.

Ela olha para o lado e fraga uma senhorinha esquisita da camisa preta com detalhe bordô desbotado mexendo a boca como se tivesse falando sozinha.

Depois, volta a olhar para a janela embaçada pela chuva fina que escorre.

Roça, de frio, as pernas uma na outra, fazendo um serrotinho mental.

Olha para o chão, não sabe contar se os relevos metálicos do assoalho formam 4 ou 5 traços.

Bate de novo a ponta dos pés, mais suave.

E volta a olhar para frente.

O cobrador conversa que conversa com a loira de farmácia.

E que não arreda o olho dele desde a rua timbiras.

E que ironia.

De jaleco branco.

Deve trabalhar na farmácia mesmo.

Se não, enfermeira.

Doutora não é.

– E que vontade de uma praia numa hora dessas…

Encontra um bocejo no meio da ansiedade.

E volta a olhar para o lado, pula a senhorinha esquisita para ela não desconfiar.

Um casalzinho de adolescentes se beija com o uniforme do estadual central.

E que vontade que bateu.

E que vida boa, só precisar de estudar.

Sapateia de novo no assoalho, mas promete ser a última.

Ao fundo, espalha-se um som de sirene.

Nunca dá pra saber se é policia ou ambulância.

E a chuva parece que tá dando uma diminuída.

Vai dar tempo de pegar o fim da novela.

Se puder pica a mula seu motorista, se puder pica a mula.

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