
Original em: https://hojepr.com/xexeo-terra-roxa/
Xexéo Terra Roxa, agrônomo de formação e vaidade moderadamente cultivada, contava seus 32 anos com a mesma elegância com que se mede a produtividade de uma boa safra: sem pressa e com certo orgulho silencioso. Esbelto, de feições honestas — não exatamente bonito, mas também longe de assustar crianças — herdara dos falecidos pais uma vasta fazenda de soja no interior do Paraná, dessas que fazem o horizonte parecer um mar verde ondulante.
Com a herança vieram os cifrões, e com os cifrões, como manda a tradição dos homens jovens e recém-endinheirados, veio a súbita vocação para a vida festiva. Xexéo, que até então entendia mais de adubo do que de champanhe, decidiu que era hora de “curtir a boa vida do agro moderno”. E para isso, escolheu como palco nada menos que Balneário Camboriú — a Disneylândia dos que descobriram o PIX e perderam o juízo.
Lá chegando, trocou as botas por sapatos italianos, o chapéu por um penteado meticulosamente desalinhado e o olhar contemplativo por uma expressão de quem sempre sabe onde é a próxima festa. Durante um ano inteiro, Xexéo mergulhou com afinco científico nas noites intermináveis de boates, nas libações generosas de bebidas importadas e nos passeios marítimos a bordo de barcos que comprava com a mesma naturalidade com que antes adquiria sementes.
Era visto com frequência encostado em algum balcão iluminado por néon, discursando sobre o potencial do agronegócio enquanto equilibrava um copo de algo caro e impronunciável. Seus novos amigos — especialistas em nada, mas doutores em aparência — o chamavam de “o cowboy do agro”. E ele, satisfeito, aceitava o título como se fosse uma medalha.
Foi nesse cenário de luzes piscantes e risadas ocasionalmente sinceras que surgiu ela: a loira fatal. Não se sabe ao certo de onde veio, mas chegou como chegam as grandes despesas: sem aviso e com impacto imediato. Dona de um sorriso estratégico e um olhar que misturava doçura e cálculo, conquistou Xexéo em poucos encontros e muitas contas pagas.
O namoro foi rápido, o encantamento mais rápido ainda, e o casamento veio como consequência natural de um raciocínio que não passou pelo departamento da prudência. Xexéo, apaixonado e confiante, acreditava ter encontrado não apenas o amor, mas também uma parceira para a vida inteira — ou pelo menos até o próximo verão.
Seguiram-se viagens ao redor do planeta, jantares em restaurantes onde o cardápio parecia escrito em código secreto e um estilo de vida que, visto de fora, parecia invejável. Xexéo já não falava de safras; falava de experiências. Já não discutia clima; discutia vinhos. Tornara-se, enfim, um cidadão do mundo — ainda que o mundo, discretamente, estivesse cobrando juros.
Até que, como toda história que ignora planilhas, a conta chegou.
Primeiro vieram os pequenos sinais: uma fatura ignorada aqui, um investimento mal pensado ali. Depois, os alertas mais sérios, que Xexéo tratava com a mesma disposição com que trataria uma nuvem escura no céu: esperando que passasse sozinha. Não passou.
Quando finalmente se deu conta, a fortuna que parecia inesgotável havia evaporado com a eficiência de um fertilizante caro mal aplicado. Restaram dívidas, algumas lembranças luxuosas e a loira fatal — que, diante do novo cenário financeiro, revelou uma notável habilidade para despedidas rápidas.
Partiu sem olhar para trás, deixando Xexéo com um silêncio que nenhuma música de boate conseguia preencher.
Sem recursos e com o orgulho cuidadosamente amassado, ele tomou a decisão que antes lhe pareceria impensável: voltar ao interior do Paraná. A viagem de retorno foi longa, não pela distância, mas pelo peso das reflexões que carregava.
De volta à terra natal, reencontrou o cheiro da soja, o canto dos pássaros e uma certa paz que não dependia de cartões de crédito. A fazenda já não era sua — dívidas têm esse hábito inconveniente de mudar proprietários —, mas a cidade ainda o reconhecia.
Depois de algumas tentativas e muitos olhares curiosos, Xexéo conseguiu um emprego na prefeitura do município. Função modesta, rotina previsível, salário honesto. Nada de barcos, nada de noites intermináveis — apenas papéis, horários e, de vez em quando, um café compartilhado com colegas que sabiam exatamente quem ele fora… e quem agora era.
Curiosamente, foi ali, entre carimbos e planilhas (essas, agora respeitadas), que Xexéo começou a reencontrar um tipo diferente de riqueza. Descobriu o valor de uma conversa sem interesse, de um almoço simples e de noites dormidas sem preocupação com limites bancários.
Certo dia, ao passar por uma plantação próxima, parou por alguns minutos observando o vento desenhar ondas verdes no campo. Sorriu, não com a euforia de antes, mas com uma serenidade nova, quase madura.
Se alguém lhe perguntasse, naquele momento, se sentia falta da vida em Balneário Camboriú, talvez ele respondesse que não. Ou talvez dissesse que sente, sim — mas como quem sente falta de um sapato apertado: bonito, impressionante… e completamente inadequado para caminhar longas distâncias.
E assim, entre tropeços caros e aprendizados duradouros, Xexéo Terra Roxa seguiu sua vida, agora menos brilhante aos olhos alheios, porém muito mais bem cultivada por dentro. Afinal, como ele próprio passou a dizer, com um leve sorriso de quem aprendeu na prática:
— Terra boa a gente reconhece depois da primeira seca.

