Original em: https://monitormercantil.com.br/institucionalizar-exige-pensar-no-amanha-um-epilogo/
Um país que não se conhece não tem futuro. Toda comunicação de massa, científica ou literária tem o propósito, ainda que não explícito, de convencer o leitor de um Brasil que não existe. Nesse contexto, pensar um projeto nacional brasileiro torna-se essencial. Algumas mídias, ao reconhecerem o absurdo de dividir o país entre esquerda e direita – o que seria, afinal, a esquerda? -, e para não abrir mão da confortável bipolaridade, passaram a classificar os brasileiros como governistas ou oposicionistas.
Enquanto isso, a imensa maioria, que luta cotidianamente para sobreviver, muitas vezes sequer é capaz de dizer quem a governa, pois seu limite de governança se resume a um empregador – por vezes, mais de um ao longo do ano -, aquele que lhe permite chegar ao amanhã. E, nessa perspectiva absolutamente imediatista, não há governo nem oposição. Há apenas o pão de cada dia e um abrigo incerto e mutável.
Há, contudo, algo mais aglutinante entre os brasileiros do que o local de nascimento. É sobre essa imaterialidade que nos une que se inicia o epílogo desta série.
O estadunidense James Lorand Matory (1961), criado em Washington (D. C.), escreveu na Revista de Antropologia (volume 51, nº 1, jan-jun 2008, da Universidade de São Paulo – USP) o artigo “Feminismo, nacionalismo, e a luta pelo significado do adé no Candomblé: ou, como Edison Carneiro e Ruth Landes inverteram o curso da história”, cujo resumo transcrevemos:
Durante os anos de 1930 e 1940, Edison Carneiro, Arthur Ramos e Ruth Landes se encontraram no Candomblé, e por meio do seu diálogo – às vezes antagônico, às vezes amoroso –, transformaram essa religião. Carneiro empregou o Candomblé como um símbolo do Nordeste, Ramos o empregou como um símbolo do Brasil, e Landes, como um símbolo do feminismo internacional. O debate sobre o significado do Candomblé não foi meramente acadêmico, mas estabeleceu um novo padrão de gênero na liderança dos templos da Bahia. Ao contrário da história convencional, o Candomblé, uma religião que dava espaço igual a sacerdotes masculinos e femininos nos anos 1930, se transformou, pela primeira vez nas décadas depois do encontro de Ramos, Carneiro e Landes, num matriarcado. No plano teórico e transcultural, este caso mostra que a imaginação das comunidades – inclusive a do Estado-nação – é um processo transnacional. A identidade nacional resulta não apenas entre famílias de nações, mas também da luta entre comunidades superpostas pela autoridade de definir certos símbolos compartilhados – como o sacerdote adé, o homossexual. Esta interação pode mudar as vidas humanas e mesmo o curso da história
Em julho de 2025, a população feminina correspondia a 51,5% dos 213 milhões de habitantes. Projeções para 2050 traçam o quadro de um país envelhecido; em 2041 haverá 172,7 idosos (maiores de 65 anos) para 100 crianças (até 14 anos). No meio do século 21, o Brasil será então um país de mulheres e idosas. O que significará esta estatística?
Sem jovens não se renova
Há uma prioridade a ser atendida antes de qualquer nova institucionalização brasileira: incentivar a formação de famílias mais numerosas e consolidar um país de jovens. A discussão sobre a jornada semanal de trabalho não pode atender apenas à produção imediatista e ao lucro empresarial; ela precisa, sobretudo, preparar o Brasil do amanhã.
Os pais e, principalmente, as mães devem dispor de mais tempo para o cuidado dos filhos. Nesse sentido, propõe-se que as mães não trabalhem mais do que três vezes por semana, no período das 10h às 15h, enquanto tiverem filhos menores de 16 anos. Os homens, por sua vez, poderiam manter uma jornada de cinco dias semanais, das 9h às 17h, com intervalo mínimo de uma hora para o almoço.
Além disso, cada filho implicaria um acréscimo na remuneração dos pais, como forma de incentivo à natalidade até o quinto filho, com redução progressiva desse benefício a partir desse ponto.
Qual é o objetivo?
Primeiramente, rejuvenescer a estatística populacional e, igualmente, colocar a educação à disposição de todos, como em 1932 preconizavam os signatários do “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova”: educação obrigatória e universal, logo gratuita e pública. Complementada pela definição dos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), criados por Darcy Ribeiro nos governos de Leonel Brizola no estado do Rio de Janeiro: escola de horário integral, com três refeições, banho, atendimento médico-odontológico-oftalmológico e atividades esportivas e culturais.
Em segundo lugar, preparar os alunos para a cidadania, organizando Centros Acadêmicos, palestras sobre as atividades políticas da sociedade e conferências com dirigentes políticos do município.
Em terceiro, colocar em debate com os alunos os projetos escolares e extraescolares e suas aprovações em votação; em outras palavras, treinar o cidadão eleitor de amanhã para a prática da cidadania.
Kim Il-sung (1912–1994), libertador da Coreia da submissão aos japoneses, avô do atual dirigente da Coreia do Norte, Kim Jong-un, escreveu no prólogo de suas memórias, No transcurso do século (1992):
Minha vida, testemunha de enormes e inauditas batalhas que o século 20 veio deixando na existência da humanidade e de transformações admiráveis já marcadas no mapa político mundial, é uma miniatura da história da minha pátria, da minha nação
Confúcio (552 a.C.-489 a.C.): “Ser bom filho, ser simplesmente bom filho e bom irmão, já é tomar parte no governo”. “Perguntado ao Mestre: o que é governar?, este responde: é velar para que o povo tenha suficientes víveres, suficientes armas, e assegurar a sua confiança”.
A Coreia do Norte, com 26,5 milhões de habitantes, com idade média de 35 anos, tem bomba atômica para se defender. A República Popular da China (RPC), com população de 1,405 bilhão de pessoas, tem idade média de 40 anos, refletindo as décadas de política do filho único. No entanto, bastante próxima dos EUA – 39 anos – o que torna indispensável a presença de emigrantes, que Donald Trump está perseguindo e expulsando do país.
Neste aspecto, a Índia, atualmente o país mais populoso do mundo, e que possui 180 ogivas nucleares, tem o futuro mais garantido, com idade média de 29,2 anos para os 1,47 bilhão de habitantes.
Progride-se com investimentos produtivos, não com teto de gastos
Dados da Trading Economics, para 2026, apresentam os seguintes valores para as taxas de juros, equivalentes à Selic brasileira, em 12 meses:
- Japão – 0,75%
- Cingapura – 0,82%
- Zona do Euro – 2,15%
- China – 2,50%
- Reino Unido – 3,75%
- Índia – 5,25%
- África do Sul – 6,75%
- México – 7,00%
- Rússia – 15,50%.
O Brasil tem a taxa Selic, no início de 2026, em 15%, mas o professor e economista Ladislau Dowbor afirmou, em entrevista concedida à TV Comunitária do Rio de Janeiro (TVC Rio), que as famílias brasileiras pagam efetivamente 50% ao ano. Na mesma entrevista, assegurou que a política tributária brasileira é um “verdadeiro dreno de recursos para o desenvolvimento do país”.
Diante dessas duas realidades, perguntamos ao leitor: que perspectivas haveria para um país de mulheres velhas, que retira da produção e do desenvolvimento tecnológico os recursos necessários à transformação nacional, ou que, na expressão de Ladislau Dowbor, “drena” para o sistema financeiro as riquezas produzidas no Brasil?
Há, porém, outras mazelas, ainda no campo da produção e do desenvolvimento tecnológico.
O Brasil se recusa a firmar com a China os “Memorandos de Entendimento”, como já fizeram 148 países, que se tornam, a cada dia, mais soberanos e mais ricos, na África (52 signatários) e na Ásia (39 signatários), por integrarem a Iniciativa do Cinturão e Rota (ICR, ou BRI, em inglês). A Organização das Nações Unidas (ONU) reconhece 197 países, ou seja, a ICR já representa cerca de 75% do mundo formalmente institucionalizado.
Em 1979, encerrou-se o governo Geisel e o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND, 1974-1979). À época, a indústria, incluindo transformação, extrativa, construção e serviços de utilidade pública, representava uma fatia expressiva, frequentemente em torno de 40% do Produto Interno Bruto (PIB), mas sempre superior a 30%.
Em 2025, a participação da indústria no PIB brasileiro estava estimada em cerca de 23,4%. A indústria de transformação foi a mais afetada, perdendo espaço principalmente para a agropecuária e também para o setor de serviços, ambos amplamente dominados por empresas estrangeiras e por gestores de ativos, responsáveis por administrar o patrimônio de terceiros, que se tornaram, ao longo das últimas décadas, seus verdadeiros controladores.
O Brasil optou, por ação de suas classes política e jurídica, pela submissão ao capital apátrida, ao qual entregou o Banco Central sob o argumento da independência. Como pode um organismo de Estado, integrante do poder público, ser independente do país? Ainda assim, não houve quem contestasse ou demonstrasse os efeitos do processo de recolonização em curso desde a Nova República, iniciada em 15 de março de 1985.
Desde 1990, todos os governantes, eleitos ou alçados à presidência por meio de rupturas institucionais, contribuíram para a entrega do país aos capitais estrangeiros ou deixaram de agir para impedir esse movimento ou recuperar aquilo que é nacional e assim deveria permanecer.
Eleições de 2026 para quê?
O poder financeiro trouxe para o Brasil a ideologia neoliberal e a crise institucional, que começou a se instalar com o governo do general João Batista de Oliveira Figueiredo (1979-1985). A Nova República aguçou e ampliou a crise, com a união de todas as correntes, da extrema esquerda à extrema direita, para impedir a eleição de Leonel Brizola, em 1989, e o sucesso eleitoral do partido por ele fundado, o Partido Democrático Trabalhista (PDT).
A linha política conservadora, de direita, é amplamente majoritária no Congresso e não se vê perspectiva de mudança com a eleição de outubro de 2026. O que significa que não será possível promover o debate sobre a nova institucionalização do Brasil. Pois todos os políticos, com poder sobre suas bancadas, terão fontes de recursos para subornar os deputados e senadores de acordo com os interesses dos capitais apátridas, que verdadeiramente governam o Brasil.
As recentes aprovações legislativas pelo Congresso demonstram que não apenas a corrupção continuará definindo as votações, como a impunidade dos corruptores e corruptos estará assegurada. E o Brasil estará cada vez mais longe de ter a segurança pelas Forças Armadas assegurada por armas de dissuasão, como a Coreia do Norte e a Índia.
Paulo Nogueira Batista Júnior (1955), diretor executivo no Fundo Monetário Internacional (FMI) pelo Brasil e mais dez países, de 2007 a 2015, e vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos Brics em Xangai, de 2015 a 2017, escreveu no Brasil de Fato, em 6 de março de 2026, o artigo “Erro de cálculo” que a seguir transcrevemos e comentamos alguns trechos.
“Nos dias de hoje, o Diabo toma a forma de Donald Trump e Benjamin Netanyahu. O tempo dirá, mas parece que a dupla diabólica cometeu um gigantesco erro de cálculo. Ou seria melhor inverter a ordem e escrever Netanyahu e Trump? Já que no comando dessa agressão estão Israel e o poderoso lobby sionista em Washington e Nova Iorque, como revelou, de maneira simplória, o ministro das Relações Exteriores dos EUA, Marco Rubio”. Com o talento e experiência deste economista, não é de se surpreender que o verdadeiro poder nem sempre, ou melhor diria, quase nunca é que assume a condução das atrocidades e arbitrariedades. O Brasil bem conhece.
Deixemos a guerra em curso para transcrever outro trecho, agora relativo ao Brasil, do mesmo artigo de Paulo Nogueira Batista.
Somos um país vulnerável. Durante a década de 1980, quando passamos por uma redemocratização pacifista e antimilitar, o problema se agravou. Basta lembrar, leitor ou leitora, que os constituintes introduziram na Constituição de 1988 um dispositivo que renuncia à energia nuclear como instrumento de defesa — como se tivéssemos sido derrotados em uma guerra! Depois veio o entreguista-mor, Fernando Henrique Cardoso, um mero pró cônsul do Império, e aderiu vergonhosamente ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Em oito anos na Presidência (1995 a 2022), o que fez FHC para fortalecer a defesa nacional? Para fortalecer as escolas militares? Nada. Isso não fazia parte do projeto político implementado pela corja tucana. Depois vieram Lula 1 (2003 a 2006), Lula 2 (2007 a 2010), Dilma 1 (2011 a 2014), Dilma 2 (2015 e parte de 2016) e Lula 3 (2023 até hoje). O que fizeram os governos comandados pelo PT para fortalecer a defesa nacional em mais de 16 anos? Tomaram, ou tentaram tomar, iniciativas importantes no campo da defesa nacional. Mas não nos retiraram da condição de vulnerabilidade militar
Esta situação trouxe a marginalidade ao poder e, muito provavelmente, nestas eleições teremos os chefes do tráfico, o dono do morro, os sicários eleitos para o próximo Congresso. Nancy Fraser: “É a expropriabilidade, a condição de estar indefeso e sujeito à violação, que constitui o cerne da opressão”
A proteção social cada vez mais se afasta das funções do Estado, cada vez mais privatizado, e os bandidos de ontem são os protetores de hoje. Mas a que custo? Nunca se viu tantos pedófilos em todos os segmentos da sociedade. Jeffrey Epstein foi primeiro um financista, e, graças a estes relacionamentos, passou a sinônimo de pedofilia.
Sem projeto de Estado Nacional, nova institucionalização debatida em todos os círculos da sociedade, continuaremos algozes e vítimas de nós mesmos.


