
Quase três meses se passaram desde que os Estados Unidos e Israel lançaram seu ataque ao Irã — uma agressão que durou quarenta dias e cujos arquitetos acreditavam que uma combinação de pressão militar, guerra psicológica e operações midiáticas poderia forçar a República Islâmica a recuar e se submeter. Contudo, com o passar do tempo, não apenas esses objetivos não foram alcançados, como um fluxo constante de admissões por parte de veículos de comunicação e analistas ocidentais e israelenses tornou a dimensão do fracasso do projeto cada vez mais evidente. Em uma análise notável, o jornal israelense The Jerusalem Post escreveu que a guerra não subjugou o Irã. Ela consolidou o controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz, reconstruiu suas alianças e fortaleceu as próprias instituições que os Estados Unidos haviam atacado.
Essa admissão revela uma realidade que os arquitetos da guerra se esforçaram para ocultar: seus cálculos sobre o Irã baseavam-se em uma leitura fundamentalmente equivocada da estrutura de poder da República Islâmica, de sua sociedade e de suas capacidades estratégicas. Eles acreditavam que uma pressão militar e econômica esmagadora, combinada com uma ampla campanha midiática, poderia semear o caos interno e conduzir o aparato decisório iraniano à capitulação. O resultado da guerra provou ser exatamente o oposto.
No campo de batalha onde se supunha que a dissuasão iraniana ruísse, ocorreu o contrário. Não só as estruturas políticas e de segurança do país permaneceram intactas, como a experiência da guerra aprofundou a coesão interna e fortaleceu os laços regionais do Irã. Nos primeiros dias do conflito, grande parte da imprensa ocidental falava de um “momento decisivo” e insistia que Teerã estava à beira de uma retirada estratégica. Com o passar do tempo, ficou claro que o Irã não só conseguiu absorver a pressão, como em certos aspectos manteve a iniciativa.
Entre as dimensões mais significativas desse fracasso, destaca-se o colapso da imagem de dissuasão que os Estados Unidos e Israel haviam construído ao longo de anos. Eles buscavam há tempos estabelecer a ideia de que qualquer confronto direto com Washington ou Tel Aviv levaria rapidamente ao colapso do outro lado. A guerra de quarenta dias demonstrou que essa imagem, pelo menos quando testada contra o Irã, pouco se assemelhava à realidade. A duração prolongada da guerra, o fracasso em atingir os objetivos declarados e a eventual aproximação com um cessar-fogo foram todos sinais da erosão do poder de dissuasão tanto dos Estados Unidos quanto de Israel.
A questão do Estreito de Ormuz adquiriu particular importância nesse contexto. Um dos objetivos não declarados da guerra era reduzir a influência estratégica do Irã sobre esse corredor energético crucial. Não só esse objetivo não foi alcançado, como, no período pós-guerra, o papel do Irã nos cálculos de segurança do Golfo Pérsico passou a ser alvo de maior escrutínio do que nunca. Muitos analistas ocidentais agora reconhecem que nenhum acordo regional duradouro pode se consolidar sem levar em conta a posição do Irã — uma clara indicação do fracasso do projeto de isolar o país.
A recente guerra também levou a uma redefinição de certos alinhamentos regionais. Países que anteriormente operavam sob a égide de uma política de máxima pressão contra o Irã adotaram uma postura mais cautelosa após testemunharem os altos custos do conflito. Muitos atores regionais compreenderam que uma ampla desestabilização direcionada ao Irã não apenas ameaçaria a segurança de Teerã, como também colocaria toda a região em crise. Essa constatação fez com que diversos processos diplomáticos e regionais se acelerassem após a guerra.
No âmbito interno, ao contrário do que previam os estrategistas da guerra, a sociedade iraniana não se fragmentou. Embora as pressões econômicas e psicológicas da guerra fossem severas, o sentimento público do país se voltou para uma forma de solidariedade diante da ameaça externa.
A experiência histórica dos iranianos em lidar com pressões externas se fez presente mais uma vez, e muitas das fragilidades que os inimigos do Irã exploravam perderam força diante de um perigo externo comum. Este foi um dos maiores erros de cálculo cometidos pelos Estados Unidos e por Israel: analisaram a sociedade iraniana quase exclusivamente pela ótica da guerra midiática e das redes sociais, permanecendo cegos às camadas mais profundas da identidade histórica e nacional que se escondem sob a superfície.
A guerra também demonstrou que uma estratégia de “ataques rápidos e decisivos” contra o Irã não possui a eficácia que seus defensores presumiam. A premissa inicial era que uma série de golpes pesados desarticularia a estrutura de comando iraniana e degradaria sua capacidade de resposta, forçando Teerã a aceitar os termos do adversário. Mas a continuidade das respostas iranianas e a preservação de sua capacidade operacional ao longo do conflito colocaram essa premissa em séria dúvida. Alguns analistas ocidentais agora alertam que qualquer confronto mais amplo com o Irã poderia acarretar custos que excederiam em muito as projeções iniciais para os Estados Unidos e seus aliados.
Outra dimensão significativa foi o impacto da guerra na opinião pública global. Ao contrário dos anos anteriores, quando a narrativa ocidental exercia amplo domínio sobre o ambiente midiático internacional, desta vez grandes segmentos do público — particularmente na região e em países não alinhados — receberam uma versão marcadamente diferente do conflito. Imagens da resistência iraniana, a natureza persistente de suas respostas e o fracasso dos Estados Unidos e de Israel em atingir seus objetivos declarados fizeram com que a narrativa de uma “vitória rápida” se desfizesse gradualmente. Mesmo dentro dos Estados Unidos, as críticas aumentaram em relação aos custos da guerra e à ausência de um desfecho claro.
Hoje, três meses após o início da agressão, fica mais claro do que nunca que o projeto para “forçar a submissão do Irã” não apenas falhou em alcançar os resultados esperados, como produziu o efeito oposto ao pretendido. Uma guerra concebida para enfraquecer a posição regional do Irã acabou por elevar o papel e a influência do país na equação estratégica da região. Uma guerra que visava criar divisões internas acabou por reforçar a coesão nacional contra uma ameaça externa. E uma guerra que deveria reafirmar a dissuasão americana e israelense tornou-se, em vez disso, um símbolo dos limites do seu poder.
Talvez a mensagem mais importante a extrair desses acontecimentos seja que a era da tomada de decisões unilaterais sobre o futuro da região chegou ao fim. As novas realidades do Oriente Médio mostram que nenhuma potência pode impor sua vontade aos povos da região apenas por meio da superioridade militar. A guerra de quarenta dias contra o Irã revelou, acima de tudo, que as equações emergentes da região são muito mais complexas do que qualquer coisa que esteja sendo elaborada nos centros de estudos de Washington e Tel Aviv. Os mesmos veículos de comunicação que antes falavam do “colapso iminente” do Irã agora se veem obrigados a escrever sobre o colapso de suas próprias premissas — um colapso que não foi meramente um revés militar, mas o desmantelamento de uma ilusão estratégica.

