Um tal Rochinha. Por Samuel Gomes

Samuel Gomes Professor de Direito, também (como Rochinha) advogado desde 1986

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Quem nasce para ser estrela só precisa ser o que é.

Acordo nesta Curitiba de 11 graus e céu nublado anunciando “pancadas de chuva ocasionais” (que nem precisariam ser para nós curitibanos anunciadas) ainda sob os vapores da noite memorável. Luiz Carlos da Rocha – o Rochinha – reuniu algumas dezenas de pessoas para comemorar seus vitoriosos 40 anos de advocacia.

De advocacia? Em termos. Advocacia, política, luta social. A advocacia foi a ferramenta por meio da qual o coração generoso do filho do velho comunista Espedito Rocha honrou o legado de coragem, amor, humanidade.

Rochinha e Adriana – sua mulher e sócia – organizaram a festa, o presente o ganhamos os presentes. O frio ficou de lado fora do amplo, mas aconchegante espaço no subsolo da Ópera da Arame. Dentro, sob a luz tênue e o morno aconchego das lareiras que rodeavam o salão, sorrisos largos, olhares faiscantes e abraços apertados de amigos de fé, irmãos, camaradas, amigos de tantos caminhos, de tantas jornadas – como Roberto imortalizou os laços de eterna amizade na icônica música.

Rochinha e seu primo-irmão Manoel Caetano, Maneco  – que emocionou a todos com um singelo e rico texto biográfico do homenageado  – são prova viva de que o Brasil é uma pátria mãe gentil. Os pais de Rochinha, pernambucanos Espedito e Carminha, e os de Maneco – Manoel Caetano e Josefa – nasceram na sertaneja localidade de Santa Clara, mais tarde rebatizada como Tupanatinga, que na língua tupi-guarani significa Deusa Branca (Santa Clara, pois!). Migraram, lutaram, venceram. Os frutos que o digam. Rochinha um dos mais notáveis advogados do país. Manoel Caetano – o Maneco – advogado, professor da Universidade Federal do Paraná, festejado processualista civil, presidiu por dois mandatos a Comissão de Ética Pública da Presidência da República.

Nas palavras de homenagem ao primo, Manoel Caetano rendeu justo tributo à base familiar, a estrutura, o arrimo em que os que vieram depois assentaram a escada. A honrada e vitoriosa família sertaneja estava ali reunida no aconchego do luxuoso salão curitibano com boa comida, vinhos e música: os vivos – as irmãs de Rochinha, Airam e Rosa – e os que se foram, os pais e o irmão Carlinhos. Em seu discurso, Maneco carinhosa e provocativamente disse ao ateu Rochinha que não é preciso acreditar em Deus para saber que Espedito, D. Carminha e Carlinhos também estavam presentes.

Deles, o lendário Espedito era referência inevitável nas rodas e mesas por todo o salão. Enfrentou prisão e tortura para renegar o Brasil, a justiça, a igualdade. Não renegou, insistiu, persistiu, lutou e venceu. Somos todos de alguma forma filhos do Espedito e de todos os Espeditos que honraram a vida enfrentando a morte. Morte e vida severina.

Espedito era de casa na nossa família. À minha falecida mulher, Celândia, pernambucana de Bodocó, tratava como irmã, aos meus filhos como sobrinhos. Guardamos na família uma bela escultura de madeira do mestre, reconhecido artista.

Tenho comigo um critério que considero seguro para saber o que uma pessoa é:  observar como trata os seus, em casa, no trabalho. Relações longevas costumam ser guia certo para aferirmos o caráter de alguém. Luciana, a querida Lu, mais que secretária, fiel escudeira de Rochinha, trabalha com ele há 33 anos. Ponto.

Assim como Lula – de quem foi leal companheiro e informal ajudante-de-ordens no longo período do cárcere curitibano – podemos bem imaginar que foi a Rochinha que o rei Roberto dedicou a imortal canção:

“Às vezes em certos momentos difíceis da vida

Em que precisamos de alguém pra ajudar na saída

A sua palavra de força, de fé e de carinho

Me dá a certeza de que nunca estive sozinho”

Né, Espedito? Viu como brilha o teu menino? Brilha a tua luz, velho guerreiro.

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