Os Analfabetos do Excêntrico. Por Samuel Gomes

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Não, não é uma crítica. É a descrição objetiva de um conjunto de impressões, dos impactos subjetivos de um espaço (um território), tal como o podemos perceber depois que Milton Santos nos explicou tim-tim por tim-tim o que é o espaço: o suporte objetivo e as relações humanas – a cultura, latíssimo senso – que os homens criam sobre ele.

No caso, o lugar é excêntrico, fora do centro de Curitiba, na rua Lamenha Lins, 1.429, bairro Rebouças (e que se localize no bairro nominado em homenagem aos irmãos Rebouças me tenta ingressar em outros territórios da imaginação, que não vou explorar para que o que já está algo misterioso não se perca em impossibilidade de compreensão).

Tudo impacta. Já na entrada um singelo e estreito portão abre-se para um pequeno jardim, que introduz uma sala exígua com coloridos sofás de um antigo futurismo, sofás de época. É o primeiro impacto visual que se nos abre os olhos do espírito. A diminuta sala dá saída à esquerda e nos coloca abruptamente diante de um espelho de camarim com suas luzes coloridas. Pronto, já é você num camarim.

O espelho de luzes extrema à esquerda um novo espaço, o maior do Excêntrico, e que na verdade são dois. Um, menor, se estende à direita, com confortáveis poltronas e sofá, mesas, e bilheteria que entrega os ingressos, mas também alimentos e bebidas. O espaço menor integra-se sem sobressalto – na verdade se expande – ao grande salão, com mesas e cadeiras e um pé direito quase infinito. Segue-se por um corredor estreito e ingressamos naquele outro mundo que viemos buscar, o mundo do teatro.

O meio é mensagem e a arquitetura interior do Excêntrico fala e conduz uma experiência sensorial e espiritual, desde o impacto inaugural da exígua sala com seus coloridos sofás futuristas de época e do espelho que te mergulha num imaginário camarim e prenuncia o novo mundo que você busca sem saber o bem o que é. Isso tudo, claro, se tens olhos para ver e é bom que tenhas, que é para ver que os olhos do espírito te foram dados.

O percurso neste mundo termina onde começa o outro, o do teatro. Ao final do exíguo corredor lateral, ingressa-se na sala pelo palco, maior que o espaço que ocupam as singelas mas confortáveis cadeiras, agrupadas em poucas fileiras dispostas em dois grupos separadas por um pequeno corredor. Da última fileira até a primeira, já no próprio palco, um declive absoluto: a pessoa que está à tua frente tem sua cabeça à altura dos teus pés, o que te abre o palco e os atores em imersão absoluta. É você, sozinho com você e as personas (que supostamente são você), no admirável mundo novo da imaginação e da arte.

E o novo mundo se abre. Escuro total. Lá ao fundo, só luzes de lanternas De costas para você um homem em cadeira de rodas. De repente as lanternas se movem e vão expondo um a um os personagens, as personas, que te conduzirão por intensos cinquenta minutos a reflexões sobre a vida e a morte, a dura mas bela morte e vida severina urbana, de um casal em separação que se-ama-e-se-odeia-e-se-odeia-e-se-ama, um artista que sonha e há décadas e luta por um fresta de visibilidade em alguma telenovela (e finalmente parece que consegue numa novela-das-sete e por isso convoca os amigos a um jantar), uma enfermeira que poderia ter sido atriz, um outro que se declara independente de tudo e de todos com falsa voz tonitruante. Tudo em torno de uma noiva que, ao final, amalgama tudo, traduz tudo, amarra tudo, num emocionante e didático discurso épico no qual escancara a si e a nós todos, personas do grande jogo cotidiano de viver e conviver.

O minimalismo (cinematográfico) de corpos e luzes que escolheu o diretor Adriano Petermann nos envolve no enredo e nos coloca a cada momento cara-a-cara com os atores. Nada nos distrai, tudo nos convoca ao palco e à cena.

Não, não é uma crítica. Uma crítica (dessas aí escrita por um suposto expectador universal) não a estou aparatado a fazer e, nestes tempos estranhos de IA, cada vez procuro mais menos me meter a sabichão de coisas que pouco ou nada sei.

Ah, sim, segundo a IA do Google:

“A peça “Os Analfabetos”, dirigida por Adriano Petermann, conta com o texto da dramaturga Paula Goja (e não Paola). O espetáculo é uma produção da Cia. À Curitibana Portátil.

Abaixo está uma análise crítica e estrutural sobre os principais elementos da obra.

Proposta e Enredo

A narrativa acompanha seis personagens que se reúnem em um jantar. O encontro acontece após um ator conseguir seu primeiro papel na televisão. A partir dessa premissa simples, a obra se desenvolve como um denso drama psicológico com nuances de tragicomédia. O foco central reside na incomunicabilidade sentimental e no aprisionamento gerado pelos papéis sociais que exercemos.

 Principais Linhas da Crítica Teatral

  • Dramaturgia de Camadas: O texto de Paula Goja é abertamente inspirado no cinema existencialista de Ingmar Bergman (especialmente os longas Persona e Cenas de um Casamento). Ele traz também o tom provocador de Nelson Rodrigues e reflexões contemporâneas de Virginie Despentes. A crítica elogia a capacidade do roteiro de expor o “privilégio idiota” das bolhas sociais enquanto as personagens apodrecem emocionalmente por trás de suas aparências.
  • Minimalismo Cenográfico: A direção de Adriano Petermann opta por despir o palco de grandes adereços. Quase não há cenário físico. A atmosfera claustrofóbica e intimista é inteiramente construída por meio de um intenso jogo de luz e sombra desenhado pela iluminação. [1, 2]
  • Trabalho de Corpo e Elenco: Com a ausência de elementos visuais poluentes, o peso da encenação recai sobre a performance dos atores. A direção foca na expressividade corporal para sustentar os picos de tensão. O elenco de destaque inclui nomes como Guta Stresser — cuja performance física expressiva chama a atenção em cena —, Stella Mariss, Guenia Lemos, Gabriel Gorosito, Anderson Fregolente e Elisan Correia.
  • O Conceito Central: A montagem triunfa ao ilustrar a tese de que a humanidade domina a racionalidade prática, mas permanece “analfabeta” para decifrar a si mesma e acolher o outro. O riso cômico surge pontualmente como um deboche nervoso diante do desespero das personagens.”

Neste admirável mundo novo de IA, a minha liberdade é falar de mim. Isso a IA não pode (ainda?) fazer. Por isso, não é uma crítica. É como vi e senti o espaço Excêntrico, do incansável Mauro Zanatta, que tem no lugar a Escola do Ator Cômico desde 1994. Fui, vi e senti. Gostei e digo que gostei para que outros vejam e gostem.

Só sei que foi assim.

P. S: Tá em cartaz até o dia 7 de junho, no espaço Excêntrico, rua Lamenha Lins, 1.429, Rebouças, Curitiba. De segunda a sábado, às 21h. Domingo, último dia, às 19h00. Ingresso gratuito. Chegue antes para encontrar lugar. A confortável sala é pequena.

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