Nem sempre as derrotas se restringem ao placar de uma partida. Muitas vezes elas começam muito antes, quando uma equipe perde a conexão com aquilo que a tornou grande.
A eliminação do Brasil nesta Copa não foi apenas consequência de um jogo:
- Foi o reflexo de um ciclo que não encontrou a organização há muito tempo perdida;
- Mas, principalmente, se deve ao fato do selecionado nacional ter esquecido a própria identidade.
Havia qualidade suficiente para avançar:
- Não era um time pronto para ser campeão, é verdade;
- Mas era um time capaz de ir mais longe.
O que faltou não foi apenas futebol:
- Faltou planejamento para transformar talento em equipe;
- Faltou uma ideia de jogo consolidada e liderança nos momentos decisivos;
- Mas, decididamente, faltou intensidade para competir até o último minuto – aquela alma que sempre fez da camisa amarela algo maior do que um uniforme de equipe de futebol.
É indiscutível que as maiores seleções brasileiras de futebol sempre contaram com a genialidade de seus craques para vencer importantes competições. Mas, da mesma forma, também é indiscutível que todas as consagradas seleções, nas quais excepcionais jogadores brasileiros fizeram parte, sempre foram construídas sobre trabalho coletivo, planejamento e ousadia.
Foi assim que, em 1958, após os sucessivos fracassos nas Copas anteriores — cujo ponto mais doloroso foi o Maracanaço” de 1950 — o Brasil conquistou seu primeiro título mundial:
- A delegação brasileira, chefiada por Paulo Machado de Carvalho, estabeleceu uma estrutura inédita para a época, inclusive com a preparação psicológica;
- E com o técnico Vicente Feola montando um esquema tático inovador que fazia de Zagallo um atacante com a posse da bola e um meio-campista na fase defensiva.
Foi assim, também, quando João Saldanha ajudou a renovar uma geração extraordinária que não havia obtido êxito em 1966, e Zagallo (agora treinador), em continuidade a esse processo, organizou os inúmeros jogadores talentosos da seleção de 1970 – que pareciam impossíveis de serem reunidos numa mesma equipe.
E, ainda, quando Parreira e Felipão mostraram novamente aos nossos jogadores que disciplina e criatividade não são elementos opostos, mas sim complementares – respectivamente em 1994 e 2002.
O futebol brasileiro sempre foi muito mais do que individualidades, dribles ou improviso. O nosso sucesso sempre veio da combinação entre genialidade, trabalho, inovação e coragem: e o mundo aprendeu com essa Escola.
Uma Escola que, além da criatividade dos jogadores e do pensamento implementado pelos supracitados treinadores e gestores, foi formatada (também) pela força do trabalho realizado por Aimoré Moreira, Cláudio Coutinho, Telê Santana, e tantos outros.
Mas, ao longo da história, enquanto outras seleções foram incorporando princípios que o Brasil ajudou a difundir — como a Holanda de 1974 e, nas últimas décadas, a França — a própria seleção brasileira foi se afastando desse modelo, sofrendo, consequentemente, decepcionantes eliminações nas últimas seis edições da Copa do Mundo de Futebol.
Não é hora de decretar terra arrasada. Mas o alerta que fica é que já passou da hora da seleção brasileira recuperar a sua essência.
O talento continua existindo. Mas é preciso que seja reconstruída uma cultura em que o coletivo potencialize o individual e a organização caminhe ao lado da criatividade.
Vestir a camisa da seleção brasileira precisa voltar a representar um compromisso com sua história. Uma história, na qual, em todas as grandes conquistas, os nossos jogadores souberam incorporar solenemente a alma do Povo Brasileiro (trabalhador, alegre, criativo e solidário).
O Brasil não voltará a vencer apenas por continuar a revelar novos craques. Voltará a vencer quando reencontrar aquilo que o tornou cinco vezes campeão do mundo: organização, identidade e pertencimento, e a disposição de colocar, mais uma vez, a alma na ponta da chuteira – com disciplina, alegria e criatividade.


