Nem sempre as derrotas se restringem ao placar de uma partida. Muitas vezes elas começam muito antes, quando uma equipe perde a conexão com aquilo que a tornou grande.
A eliminação do Brasil nesta Copa não foi apenas consequência de um jogo:
- Foi o reflexo de um ciclo que não encontrou a organização há muito tempo perdida;
- Mas, principalmente, se deve ao fato do selecionado nacional ter esquecido a própria identidade.
Havia qualidade suficiente para avançar:
- Não era um time pronto para ser campeão, é verdade;
- Mas era um time capaz de ir mais longe. E o que faltou não foi apenas futebol.
Faltou planejamento para transformar talento em equipe. Faltou uma ideia de jogo consolidada e liderança nos momentos decisivos. Mas, decididamente, faltou intensidade para competir até o último minuto: aquela alma que sempre fez da camisa amarela algo maior do que um uniforme de equipe de futebol.
É claro que as maiores seleções brasileiras sempre contaram com a genialidade de seus craques para vencer importantes competições como a Copa do Mundo de Futebol.
Mas todas essas seleções, nas quais esses excepcionais jogadores fizeram parte, foram construídas sobre trabalho coletivo, planejamento e ousadia:
- Como, por exemplo, quando João Saldanha ajudou a renovar uma geração extraordinária que não havia obtido êxito em 1966, e Zagallo, em continuidade, organizou os talentos que pareciam impossíveis de reunir numa mesma equipe;
- E, também, quando Parreira e Felipão mostraram novamente aos nossos jogadores que disciplina e criatividade não são elementos opostos, mas sim complementares.
O futebol brasileiro sempre foi muito mais do que individualidades, dribles ou improviso. E o nosso sucesso sempre veio da combinação entre genialidade, trabalho, inovação e coragem.
O mundo aprendeu com essa Escola.
Uma Escola que, além da criatividade dos jogadores e do pensamento implementado pelos supracitados treinadores, foi formatada também pela força do trabalho realizado por Vicente Feola, Aimoré Moreira, Cláudio Coutinho e Telê Santana (entre outros) – mas que dela, infelizmente, a própria seleção brasileira tem se afastado.
Apesar do péssimo resultado, de forma alguma é hora de decretar terra arrasada, mas já passou da hora da seleção brasileira recuperar a essência.
O talento continua existindo e o que precisa ser reconstruído é uma cultura em que o coletivo potencialize o individual:
- Em que a organização caminhe ao lado da criatividade;
- E em que vestir a camisa da seleção brasileira volte a representar um compromisso com sua história.
Na história da nossa seleção, em todas as grandes conquistas, as individualidades jamais foram colocadas acima da instituição – gloriosos momentos, nos quais os nossos jogadores souberam incorporar solenemente a alma do Povo Brasileiro: trabalhador, alegre, criativo e solidário.
Enfim, o Brasil não voltará a vencer apenas por continuar a revelar novos craques. Voltará a vencer quando reencontrar aquilo que o tornou cinco vezes campeão do mundo:
- Organização, identidade e pertencimento;
- E a disposição de colocar, mais uma vez, a alma na ponta da chuteira.
É claro que não podemos esquecer que existe nesse contexto outro elemento: o imponderável.
Nem tudo está destinado a ser como planejado, mesmo que todo o processo de planificação seja conduzido com esmero e submetido às melhores condições para que o sucesso aconteça. No entanto, sem organização, identidade, trabalho coletivo e compromisso, o acaso raramente nos vai sorri.
O Brasil não construiu sua história esperando milagres, e tanto no futebol, como na vida, o sucesso costuma contemplar aqueles que se preparam para merecê-lo.
Para a seleção brasileira, isso significa reencontrar sua identidade, honrar sua história e compreender, mais uma vez, que o talento individual só alcança sua plenitude quando colocado a serviço do coletivo.


