
Quando menino, lembro-me que, no colégio, o 14 de julho era sempre lembrado como o marco fundante da Era Contemporânea: A Revolução Francesa. Fez-nos republicanos. E aprendíamos a cantar: “Allons, enfants de la patriiiieee…Le jour de gloire est arrivé” (Vamos moçada, o dia de glória chegou!). A Modernidade nascera com o Renascimento e as Navegações, mas se consubstanciaria como autorreflexão ( no rumo de um projeto de autonomia humana) no dizer de Voltaire, e não mera ressonância, no século XVIII.
14 de julho foi o Dia histórico da ocupação da Prisão da Bastilha, numa Paris com um milhão de habitantes, maioria miseráveis, que reeditava no Ocidente, por primeira vez, o tamanho de Roma. (“Não têm pão, por que não comem brioches?”, indagava a Rainha Maria Antonieta). Não havia muitos presos naquela prisão, mas ela era o símbolo das masmorras que trancafiavam tanto marginais, quanto idealistas animados pelo Iluminismo.
Neste ultimo 14/07, restou-me uma conversa com o velho amigo Jorge Saes, animado pela vitória da Espanha sobre a França na Copa 2026, quem me enviou essas lembranças da data:
“O Rei Luiz XVI acordara pressentindo alguma alvoroço e pergunta irônico: – “está havendo, por acaso, alguma revolta no palácio?
– “Não, majestade, trata-se de uma Revolução.”
Em 1793 ele perdia a cabeça na guilhotina.
Nesse século, as ideias libertárias do iluminismo, irrompidas através da imprensa em evolução, abre-se a Era dos Pactos Constitucionais com a defesa da consigna de Igualdade, Liberdade e Fraternidade.
Tais ferramentas devem manter a humanidade vigilante em eterna e ansiosa busca destes princípios, todos os dias.
As conquistas sociais devem ser observadas e mantidas a qualquer custo e sacrifício, sob pena de retrocesso inimaginável.
Com efeito, aquele feito marcou tudo o que veio depois: A quebra do Direito Divino dos Reis, sob cuja crença transcorreram quatro ou cinco milênios de História, o poder sempre se perpetuando pelo sangue “azul” dos aristocratas, substituído pelo ideal Republicano, onde qualquer plebeu poderia ser o Senhor do destino dos povos; o advento da cidadania, através da qual, pelo concurso do Estado e não apenas pela condição social de nascimento, as pessoas passavam a ter direitos, primeiro civis, depois políticos, mais tarde, no século XX sociais e culturais. “Todos são iguais perante a Lei”. Este, aliás, o primeiro pronunciamento da Revolução Francesa. Finalmente, o desenvolvimento, através da liberação das travas da economia para o regime de livre iniciativa.
As ideias da Revolução Francesa germinaram pelo mundo inteiro e logo incendiaram o “ancien régime” absolutista. Brasileiros lá estavam, na Europa, e trouxeram em suas bagagens essas ideias que iriam alimentar os movimentos pela Independência do Brasil e, depois, a luta pela soberania da Nação. Poucos sabem, mas a Revolução Farroupilha, cujo lema era LIBERDADE, IGUALDADE e HUMANIDADE, foi um eco deste processo. Lema esse que tem origem na Maçonaria e na Revolução Francesa. No centro está um barrete frígio, um símbolo republicano desde a Queda da Bastilha.