
Estamos na alvorada de um novo tipo de sociedade em termos materiais e espirituais. O custo virtualmente nulo da energia solar e eólica como fontes energéticas limpas – sobretudo depois que a China começou a construir mega baterias com capacidade de armazenar grandes quantidades de energia para serem usadas à noite, após períodos do dia em que não há sol nem ventos -, determina mudanças comportamentais equivalentes às que foram impulsionadas pela energia suja do carvão e do petróleo no início da era industrial. Com energia limpa ao custo de quase zero, cairá igualmente o custo da produção industrial, assim como o da produção agrícola, o que significará mais produtos e alimentos baratos para a Humanidade, em favor principalmente dos pobres, desde que não prossiga a iníqua distribuição de renda característica do Capitalismo.
Por outro lado, essa situação material, devida à evolução acelerada da tecnologia, resultará no aumento do desemprego, do subemprego, da precarização do Trabalho e da marginalização de milhões de trabalhadoras e trabalhadores sem meios de vida. As vítimas serão justamente também os mais pobres. A superação desse desafio implicará a superação do próprio Capitalismo, que destruiu, na sua trajetória consumista e materialista, os valores espirituais básicos da Civilização ocidental, como a solidariedade e o amor ao próximo. Entretanto, a regeneração está à vista. No lugar da competição capitalista caracterizada pela exploração do homem pelo homem, teremos uma sociedade cooperativa, cujos sinais já são visíveis: são os chamados Arranjos Produtivos Locais e Territoriais, assim como Vocacionais, onde o trabalhador, e não o dono da maioria do Capital comanda o processo produtivo.
Assim, com uma mudança de fundo nas relações humanas, desaparecerá o motivo fundamental da luta de classes, pois o trabalhador não se interessará por lutar contra a empresa onde trabalha de forma solidária. Ao contrário, considerando que o Trabalho cooperativo resulta em mais produtividade e eficiência produtiva, ele tirará dele lucros superiores aos que tem na situação atual, onde a mais valia que produz é capturada exclusivamente pelo dono da empresa. Com isso teremos uma Sociedade cada vez mais próspera e pacífica, já que o conflito social, na maioria das vezes, resulta da disputa dos trabalhadores e patrões pelos resultados do Trabalho.
Podemos sustentar que a transição histórica por que passa o mundo, com seu modelo econômico concentrador de riqueza e criador imensas disparidades de renda – o ultra bilionário sul africano Elon Musk acaba de celebrar seu primeiro trilhão de dólares de patrimônio – levará inexoravelmente ao fim do Capitalismo. O último suspiro dele foi a submissão da produção aos interesses do capital financeiro especulativo, que não produz um único prego. Esse capital, exclusivamente rentista, por ser fruto de seu próprio crescimento exponencial e descontrolado dá sinais cada vez mais evidentes de esgotamento, já que não se apoia em nada de valor real. Em seu lugar começam a surgir, ainda de forma embrionária e dispersa, experiências que apontam para uma nova organização das sociedades, fundada na cooperação, na inteligência coletiva e na valorização do trabalho humano, firmemente ancoradas na organização planejada dos territórios onde exercem suas atividades.
Nessa sociedade, a produção se organizará por meio de ecossistemas produtivos territorialmente integrados, estruturados, na área rural, em Arranjos Produtivos Locais e Territoriais (APLTs) , e, nas áreas urbanas, em Arranjos Produtivos Vocacionais (APVs), nesse caso para trabalhadores que se dedicam a atividades afins em cidades. As empresas, como observado acima, deixarão de ser patrimônio de poucos para pertencer aos próprios trabalhadores que nelas produzem riqueza, compartilhando decisões, responsabilidades e resultados. O conhecimento, a inovação tecnológica e a sustentabilidade ambiental desenvolvidos neles serão instrumentos de emancipação coletiva, com reflexos em toda a Sociedade, e não de exclusão social.
Esta visão não é uma utopia distante. Ela nasce das necessidades do presente e das experiências que já florescem em diversos lugares. Cabe à cidadania organizada transformá-la em projeto nacional, alicerçado em bases territoriais, especialmente quando o rápido avanço da tecnologia gera uma escalada de desemprego, subemprego, desalento e precarização do Trabalho que exigem a reconquista, nos Arranjos Produtivos, do espaço que está sendo perdido pelos trabalhadores nas sociedades capitalistas apodrecidas. Com isso esvai-se o tempo de domínio absoluto das classes dominantes sobre o conjunto das Sociedades, na medida em que perdem o controle do trabalhador como classe dominada. Desaparecem, igualmente, seus meios de produzir a poluição ambiental insuportável em que vivemos e a irresponsável exaustão dos recursos naturais características da Sociedade capitalista atual. Será recuperado o sentido de responsabilidade comum em relação ao meio ambiente e à vida no contexto de sociedades cooperativas a serem organizadas nos Arranjos Produtivos..
A Mutirão Solar aposta nessa causa. Vemos em pleno despertar uma sociedade que poderá ser chamada de Social Trabalhista, construída pela convergência entre mulheres e homens inspirados pelos ideais do socialismo democrático e a realidade concreta do mundo do Trabalho. Queremos que ela se materialize logo, e lutaremos por essa causa. Não se trata, naturalmente, de reproduzir idealmente modelos do passado, e sim de criar efetivamente uma nova síntese histórica, em que a democracia econômica caminhe ao lado da democracia política. Politicamente, essa Sociedade poderá ser representada pela Aliança Social Trabalhista, que resultaria da união que estamos propondo entre partidos e entidades sindicais que refletem a realidade do mundo do Trabalho (PT, CUT, CTB, PCdoB e UP), e partidos e Centrais Sindicais de inspiração socialista (PSB, PSOL, PCB, CSB e PV).
(Este artigo será publicadoem breve como editorial na quarta edição da revista Mutirão Solar online)