Uma nação só é verdadeiramente soberana quando possui a capacidade de construir o próprio destino.
Isso significa dominar conhecimento, energia, indústria e tecnologia, de modo a assegurar a capacidade de transformar suas riquezas em desenvolvimento e bem-estar para seu povo.
Essa não é uma ideia nova nem desconectada da realidade mundial. Foi assim que grandes nações se desenvolveram. Não poderia ser diferente no Brasil.
Ao longo de diferentes épocas, encontramos homens e mulheres que compreenderam que a independência política do Brasil deveria ser acompanhada de capacidade econômica, científica e tecnológica.
Por exemplo:
- José Bonifácio de Andrada e Silva imaginou um Brasil integrado, independente e capaz de construir seu próprio futuro;
- André Rebouças, engenheiro e abolicionista, defendeu a modernização da infraestrutura brasileira, a expansão das ferrovias e a democratização do acesso à terra, associando desenvolvimento econômico à construção de uma sociedade mais livre e integrada;
- Dom Pedro II compreendeu o papel da ciência, da educação e do conhecimento na modernização do país;
- Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, transformou essa visão em iniciativa empresarial, construindo ferrovias, estaleiros, empreendimentos de navegação e infraestrutura, demonstrando que o Brasil poderia desenvolver um capitalismo produtivo e moderno;
- Joaquim Nabuco acrescentou uma dimensão essencial a esse projeto, percebendo que não existe desenvolvimento nacional completo sem liberdade, cidadania e dignidade;
- E, no sertão nordestino, Delmiro Gouveia mostrou que os recursos naturais poderiam ser transformados em energia e capacidade industrial, antecipando uma visão de desenvolvimento que marcaria a história energética do Nordeste.
Com Getúlio Vargas, porém, essa concepção ganhou escala de Estado. E, a partir da década de 1930, a siderurgia, a mineração, o petróleo e a energia passaram a ser tratados como setores estratégicos para a construção de uma base industrial própria.
Décadas depois, João Augusto Conrado do Amaral Gurgel provou que o Brasil poderia desenvolver sua própria engenharia automotiva.
Na ciência agrícola, Johanna Döbereiner e Mariangela Hungria demonstraram, em diferentes épocas e por caminhos distintos, como o conhecimento produzido no país poderia transformar nossa agricultura, elevar sua produtividade e reduzir dependências externas.
Ozires Silva, por sua vez, levou essa ambição à alta tecnologia, ajudando a construir uma indústria aeronáutica brasileira capaz de competir entre as melhores do mundo.
Enquanto Álvaro Alberto, José Alberto do Amarante, Othon Pinheiro da Silva e Rex Nazareth ousaram pensar grande e para além do imediato, dos interesses externos e das modas ideológicas, idealizando e trabalhando pela construção do Programa Nuclear Brasileiro.
Mais recentemente, essa tradição de pensar o desenvolvimento brasileiro como um projeto nacional também encontrou expressão nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva, sendo recolocados no centro da agenda — ainda que de forma menos contundente do que seria necessário — a retomada da indústria, o fortalecimento da Petrobrás, os investimentos em infraestrutura, ciência, tecnologia e inovação e a utilização do Estado como instrumento de desenvolvimento.
Todas essas trajetórias, apesar de suas diferenças, da distância temporal e das circunstâncias próprias de cada época, estão ligadas por uma mesma convicção: o Brasil, pela sua grandeza, não pode aceitar como destino permanente o papel de exportador de matérias-primas e consumidor de produtos e tecnologias desenvolvidos por outros.
Esses homens e mulheres nos deram exemplos de como fazer diferente.
O Brasil possui petróleo, gás, minerais estratégicos, biodiversidade, água, energia, território, um enorme mercado consumidor, universidades, cientistas, engenheiros e trabalhadores qualificados. Mas continua diante de um desafio fundamental: transformar riqueza em conhecimento, conhecimento em tecnologia e tecnologia em indústria.
Não basta exportar minério — precisamos dominar as tecnologias que agregam valor.
Não basta produzir petróleo — precisamos desenvolver toda a sua cadeia industrial.
Não basta possuir uma das maiores biodiversidades do planeta — precisamos transformá-la em ciência, medicamentos e biotecnologia.
Não basta produzir alimentos — precisamos dominar as máquinas, os equipamentos e as tecnologias que tornam essa produção cada vez mais sofisticada.
É assim que se constrói soberania.
É possível integrar-se ao mundo, cooperar e comerciar sem perder a capacidade de disputar mercados e, sobretudo, sem abrir mão da capacidade de decidir os próprios caminhos.
E a melhor homenagem a José Bonifácio, André Rebouças, Dom Pedro II, Mauá, Nabuco, Delmiro Gouveia, Vargas, Mariangela, Johanna, Gurgel, Ozires Silva, Álvaro Alberto, José Alberto do Amarante, Othon Pinheiro da Silva, Rex Nazareth, Lula e tantos brasileiros que hoje atuam pela construção de uma perspectiva de desenvolvimento nacional não é apenas preservar seus nomes na história.
É recuperar a coragem que os moveu — e que ainda move tantos brasileiros:
- a coragem de acreditar que o Brasil é capaz;
- capaz de produzir, inovar, decidir e defender seus interesses;
- e, sobretudo, capaz de construir o próprio futuro.
Para isso, precisamos voltar a investir em ciência, educação, engenharia, infraestrutura, indústria e inovação, articulando um projeto nacional de longo prazo e políticas de Estado para os setores estratégicos.
Soberania não significa isolamento. Significa capacidade de escolher, produzir e negociar a partir dos próprios interesses.
O Brasil tem recursos, talentos e história.
O que o país precisa é transformar essa capacidade em vontade nacional — e essa vontade em um verdadeiro Projeto de Nação.


