Uma trajetória de mais de três décadas dedicada à pesquisa da música, da cultura e das políticas públicas brasileiras é o ponto de partida da entrevista de Manoel J. de Souza Neto concedida a Luiz Carlos Prestes Filho e publicada com exclusividade pelo Catetear Notícias.
O entrevistador Luiz Carlos Prestes Filho, principal especialista em economia da música e do carnaval no Brasil, é jornalista e cineasta formado na escola de Moscou. O que revela um pouco de suas origens, já que ele e sua família foram exilados políticos na Rússia durante a ditadura no Brasil. Filho de Luiz Carlos Prestes, maior liderança comunista da história do Brasil. Prestes Filho, fala nesta conversa com o pesquisador Manoel J de Souza Neto, o que seria quase uma aleatoriedade, não fosse as ligações de ambos, e gostos como pela pesquisa da economia política da música brasileira, um no Rio de Janeiro e outro no Paraná. A ligação também ocorre pela grande admiração manifesta por Manoel aos Prestes pai e filho, e pelo comunismo.
Ao apresentar o pesquisador, Prestes Filho resgata mais de duas décadas de convivência e define Manoel como um intelectual marcado pela independência e pela recusa ao pensamento único. Em suas palavras, ele é “um espírito raro”, um “historiador, formulador técnico e guardião da memória” e, sobretudo, “um pensador”. Prestes Filho também destaca sua busca por uma análise rigorosa das políticas públicas, sem alinhamento automático com governos ou militâncias. Na apresentação da entrevista Prestes destaca:
“ Há mais de duas décadas, quando nossas trajetórias se cruzaram, descobri em Manoel J. de Souza Neto um espírito raro. Nossa amizade foi temperadas pela teimosia da pesquisa independente e pela recusa do pensamento único. Historiador, formulador técnico e guardião da memória, Manoel é, sobretudo, um pensador. Em tempos polarização cega, ele busca a da imparcialidade rigorosa na análise das políticas públicas. Sua leitura sobre o fomento cultural no Brasil não afaga governos nem satisfaz militâncias. Com dados auditados do Tribunal de Contas da União (TCU) e levantamentos minuciosos do seu Observatório da Cultura do Brasil, Manoel desnuda as vísceras de um sistema de incentivo que nasceu liberal e perpetua assimetrias. Ele demonstra, sem rodeios, como mecanismos como a Lei Rouanet concentram quase 80% dos seus recursos no Sudeste e deixam as periferias e os rincões do país à margem. Para ele, criticar as distorções do fomento não é atacar os artistas, estes trabalhadores precarizados, mas sim exigir que o Estado cumpra os artigos 215 e 216 da Constituição. Por se recusar a vestir o colete das torcidas organizadas, foi chamado de “bolsonarista” por liberais. Ao defender o financiamento público, de “comunista” por dogmáticos ao escancarar a exclusão das favelas. Manteve-se altivo e sereno. Essa mesma independência intelectual o credenciou como um dos pioneiros e principais analistas da Guerra Híbrida no Brasil. Muito antes de o tema virar jargão acadêmico ou manchete de jornal, Manoel enxergou nas fissuras da cibercultura e nas Jornadas de Junho de 2013 o surgimento de uma nova tecnologia política. Investigando de perto, catalogando mais de meio milhão de documentos e rastreando o financiamento de think tanks estrangeiros, ele desvendou como algoritmos, Operações Psicológicas e o lawfare foram articulados para fraturar a soberania nacional, manipular o clima psicossocial do povo e mercantilizar a subjetividade humana. Sua tese incômoda: a guerra contemporânea não é travada apenas em quartéis ou fronteiras, mas no front invisível dos nossos próprios dispositivos, onde o imperialismo de dados e as grandes big techs ditam o que devemos consumir, pensar e sentir. Essa postura de denunciar as engrenagens da dominação cultural e tecnológica teve custos altos, traduzidos em incompreensões. Contudo, para um homem temperado na ética do Kung Fu e na disciplina transmitida pelo Mestre Lee Chung Deh, o combate nunca foi sobre vencer, mas sobre dominar a si mesmo. Manoel é a síntese do artesão intelectual e do praticante marcial. Ele transita com a mesma precisão entre os manuais de Sun Tzu, a psicanálise de Lacan, a teoria dos jogos e a marcenaria autoral em seu ateliê. Na madeira bruta, no preparo paciente das conservas gastronômicas e na salvaguarda de mais de 400 mil documentos na Fonoteca da Música Paranaense, ele pratica a mesma arte: a de preservar o essencial. Fundador do Museu do Som Independente e autor de obras referenciais para a sociologia da arte brasileira, Manoel nunca buscou o aplauso do mercado nem os cargos. Sua trajetória reflete o ideal do “faça você mesmo”, uma resistência viva diante do avanço predatório das máquinas e da inteligência artificial, que ameaça eclipsar a sensibilidade e a autoria do ser humano. Como pai, enxerga no amor a única salvação possível contra a barbárie hiperconectada, ensinando às filhas que a história e o conhecimento crítico não servem para cultuar o passado, mas sim como ferramentas inegociáveis de liberdade. Ao olhar para essas duas décadas de convivência, vejo em Manoel J. de Souza Neto o retrato do intelectual orgânico. ”
A entrevista percorre uma trajetória iniciada ainda na adolescência, quando Manoel passou a pesquisar e atuar na cena musical independente e underground do Paraná. Aos 15 anos já realizava festas e, aos 18, produzia shows de bandas autorais. Vieram depois discos, programas de rádio, fanzines, encontros e pesquisas que transformaram a experiência da cena independente em uma investigação sobre música, sociedade e economia política.
Desde 1989, Manoel reúne e cataloga documentos relacionados à música e às cenas independentes. Esse percurso resultou na criação do Museu do Som Independente, o MUSIN, em 2003, do Observatório da Cultura do Brasil, em 2011, e da Fonoteca da Música Paranaense, em 2013. O acervo da Fonoteca chegou a cerca de 400 mil documentos e suas pesquisas contribuíram para mais de 230 trabalhos científicos, livros, filmes, reportagens e debates nacionais.
Na entrevista, Manoel também revisita sua atuação institucional. Foram 13 anos e seis mandatos em câmaras temáticas de música e no Conselho Nacional de Políticas Culturais, além de cerca de 30 comissões técnicas e grupos de trabalho ligados ao Ministério da Cultura. Sua crítica ao financiamento cultural brasileiro parte da experiência acumulada e da análise de dados, defendendo que o debate seja retirado da polarização política.
Entre suas principais preocupações está a concentração territorial dos recursos culturais, mas também a transformação provocada pelas plataformas digitais, pelos algoritmos e pela inteligência artificial. Para Manoel, a tecnologia democratizou a produção musical, mas também criou hiperoferta, precarização e novas formas de mediação do consumo. A inteligência artificial, segundo sua análise, abre uma nova disputa em torno da autoria, do trabalho, da estética e da própria experiência humana da música.
A entrevista recupera ainda seus estudos sobre a economia política da música e obras como “A (Dês)construção da Música na Cultura Paranaense”, lançada em 2004, o estudo sobre os conflitos políticos e econômicos na Câmara Setorial de Música do Ministério da Cultura e o artigo publicado pela UFRJ em 2015 sobre a transformação da indústria fonográfica e o precariado musical.
Outro eixo da conversa é a chamada guerra híbrida. Manoel sustenta que os conflitos contemporâneos ultrapassam os campos tradicionais e envolvem disputas narrativas, tecnologias digitais, manipulação de massas, fragmentação social e interesses econômicos. Para ele, compreender esses processos exige investigação direta, documentação e análise crítica, e não apenas a reprodução de narrativas políticas.
Prestes Filho encerra sua apresentação afirmando que, ao longo de duas décadas de convivência, reconhece em Manoel J. de Souza Neto “o retrato do intelectual orgânico”. A entrevista revela justamente esse percurso entre pesquisa independente, preservação da memória, crítica das políticas culturais, economia política da música, tecnologia e guerra híbrida.
A entrevista completa de Manoel J. de Souza Neto para Luiz Carlos Prestes Filho já foi realizada e pode ser lida no Catetear Notícias.
https://catetear.com.br/a_trajetoria_e_a_visao_de_manoel_j_de_souza_neto

