História, Conjuntura e o Futuro. Por Leonardo de Amorim Thury

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O  livro de José Luís Fiori, “Conjuntura e história”, recém publicado pela Editora Vozes, reúne uma seleção de 97 artigos, de um conjunto de 450 publicados pelo autor entre os anos 1990 e 2025. São análises de conjunturas e de acontecimentos políticos e econômicos, nacionais internacionais publicadas pelo autor em revistas, jornais, e sites eletrônicos brasileiros e estrangeiros, durante estes 35 anos da história do sistema internacional. De fato, trata-se de um verdadeiro “anexo” ou de um complemento necessário do seu livro anterior,  Uma teoria do poder global (Vozes, 2024).  Neste livro, Fiori apresenta de forma mais sistemática, sua teoria sobre o “poder global”, junto com seu método de análise nas suas análises que aparecem reunidas neste novo livro sobre a conjuntura e a história.

Uma característica central da obra de Fiori é exatamente a sua visão da relação que existe entre teoria e método de análise. E de uma teoria que vai sendo desenvolvida permanentemente através de suas próprias análises conjunturais, como pode ser vista em diversos livros do autor (uma introdução teórica, e pequenos artigos com análises de conjuntura no restante do livro).

Em seus artigos de conjuntura, ou mesmo em entrevistas escritas, Fiori, entretanto, quase nunca inicia suas análises focando diretamente no objeto do artigo em seu tempo conjuntural; o autor volta no tempo e faz uma análise histórica que precede o evento ou tópico em questão. Nesse sentido, sua teoria forma uma triangulação: teoria, conjuntura e história.

O livro Conjuntura e história é, portanto, a reafirmação de um método que Fiori vem aplicando há décadas, como demonstra seu artigo de 1984: “Por uma economia política do tempo conjuntural”. Como diz Metri, no Prefácio: “Pode-se dizer que, desde muito cedo, Fiori tinha claras as perguntas e os desafios que lhe interessavam” (2026, p. 15).

Uma forte característica da conjuntura é a incerteza pelo fato de o mundo estar em constante movimento, por isso é tão difícil fazer previsões em relações internacionais ou em História. Isso porque, no mundo, eventos disruptivos podem ocorrer a qualquer momento. Nesse sentido, afirma Fiori:

Deve-se manter, a todo instante, alerta e atento, porque os mesmos acontecimentos que desvelam as permanências históricas são os que podem estar assinalando, a cada momento, uma mudança de rumo, ou uma grande ruptura histórica que possa já estar em processo de gestação sem que o pesquisador disponha de nenhuma lei que antecipe os caminhos do futuro capazes de lhe facilitar o diagnóstico do presente. (Introdução, 2026, p. 22).

No mundo atual, essa intensidade disruptiva tem aumentado cada vez mais. E é por esse motivo que Fiori também afirma que a teoria que vai sendo construída através dessas sucessivas e infinitas análises de conjuntura e que ela:

[…] precisa ser testada e submetida a um constante exercício de “falsificação” de suas hipóteses, o que só pode ser feito por intermédio da própria análise conjuntural, isto é, de sucessivas análises de conjuntura, razão pela qual será sempre um “método” e uma “teoria em processo de construção” (Fiori, 2024, p. 28).

O título “Conjuntura e história” nos remete ao presente (conjuntura) e à volta ao passado (a história), mas não nos esqueçamos de uma obsessão nas ciências humanas: o futuro. Segundo Metri:

Incide, portanto, sobre a conjuntura uma certa ambivalência: por um lado, sua relação com o passado e as tendências históricas mais estruturais, e, por outro, sua face mais próxima ao hoje, porém oculta, que insiste em se esconder por mais que se olhe diretamente, sobretudo quando se tenta jogá-la para frente, num exercício de previsão do futuro. (Prefácio, 2026, p. 14).

Se até aqui temos três elementos (história-passado; conjuntura-presente; prognóstico-futuro), a teoria seria a estrutura na qual os três “tempos” se organizam. Quanto mais organizada a teoria, mais organizado “um olhar teórico que permita arbitrar a redução do número de fatores e atores a serem considerados” (Metri, 2026, p. 15) e, adiciono, quanto mais a teoria for “testada em sucessivas análises de conjuntura” (Fiori, 2024, p. 28), maior a probabilidade de acerto do futuro.

O livro se estrutura em oito partes, sendo a parte 1 (“O sistema mundial”) composta de artigos relativos à “teoria do poder global” de Fiori, e as demais partes sua tradicional “viagem” pelo mundo.

A parte 2 analisa o Brasil, indo de Collor ao cenário internacional durante a gestão Trump 1, sempre contextualizando a análise nacional dentro de um cenário internacional (além da já citada perspectiva histórica).

A parte 3 foca nos Estados Unidos com artigos que abrangem da primeira guerra do Iraque, em 1991; passando por Barack Obama até o governo Trump 1. O império americano é objeto de estudo de Fiori, com destaque para a obra O poder americano.

A parte 4 mostra um grande paradoxo histórico: o continente europeu, que criou o sistema mundial no qual vivemos (salvas as particularidades de cada cultura local), está em franco declínio e, diante de tal, se prepara (assim como seu tutor, os Estados Unidos), para uma guerra com a Rússia. Como diz o artigo contido nessa parte (“Procura-se um inimigo”), o prognóstico é certeiro. Segundo Fiori, em artigo de julho de 2005:

Por isso, muitos conservadores europeus já estão apontando de novo para a Rússia, porque, em vários momentos do século XIX, e durante todo o século XX, foi ela, e depois a União Soviética, que cumpriram o papel de inimigo necessário da Europa. (Fiori, 2026, p. 290).

As partes 5 e 6 focam no mundo em ascensão: Rússia, China e Ásia, e por que não, o BRICS Plus – os poderes que estão impulsionando ainda mais a constante expansão do poder global. Em seu livro Uma teoria do poder global, Fiori analisa que o poder global é um “universo em expansão”. Se por um lado o poder da China se expande pelo mundo (especialmente através da globalização produtiva das “novas rotas da seda” – Iniciativa Cinturão e Rota), a Rússia já renasceu do colapso dos anos Iéltsin, de 1990, sob a “mão forte” de Putin, e seu poder se expande pelo mundo, especialmente pela África. Mas, mais recentemente (agosto de 2026), a Rússia vem sentindo os choques e o desgaste de uma guerra com a Ucrânia/OTAN que pode vir a completar cinco anos em 24 de fevereiro de 2027.

E são esses mesmos “poderes expansivos” (China, Rússia, BRICS Plus) que estão levando a outro “poder expansivo” e a um aumento exponencial da “pressão competitiva” (na sua teoria, Fiori analisa que toda “explosão expansiva” do poder global é precedida pelo aumento da “pressão competitiva” no cenário mundial) no mundo atual. Esse outro poder são os Estados Unidos, cujo grau de agressividade se eleva a cada dia. Iniciaram a guerra com o Irã no final de fevereiro de 2026 (a “Guerra dos Seis Dias”) e agora voltam seus olhos para o seu “quintal”, a América Latina.

A parte 7 do livro foca no Oriente Médio e na África, sendo o último artigo, intitulado “O Irã amedronta Israel e golpeia o Ocidente” de maio de 2024 (quase dois anos antes da Guerra dos Seis Dias) uma antecipação do que estava por vir.

Fiori então conclui, na parte 8, com nosso continente latino-americano – o “choque” do governo Milei na Argentina e encerra com um artigo recente (15 de janeiro de 2025), no qual analisa perspectivas para o continente. Enquanto escrevo, destacam-se dois tópicos atualíssimos: “A expansão da presença chinesa” no continente e a “nova estratégia norte americana de polarização mundial”, em que cita a doutrina Monroe, atualizada em 4 de dezembro de 2025 no National Security Strategy – NSS, em 4 de dezembro de 2025, na “doutrina Donroe”, em referência ao atual presidente dos EUA, Donald Trump. Estratégia essa que, em agosto de 2026, se torna cada vez mais agressiva, a ponto de Celso Amorim (Assessor-Chefe da Assessoria Especial do Presidente da República do Brasil) e inúmeros analistas estarem falando no risco de uma invasão norte-americana ao país, sob o pretexto do combate ao narcotráfico, cuja denominação de “terroristas” seria a chave que justificaria tal intervenção.

A leitura de Conjuntura e história é crucial para quem almeja conhecer o método de Fiori e para a obtenção de insights sobre o passado, o presente e o futuro da economia e da política mundiais e das relações internacionais. Mas, acrescento, a leitura da presente obra, adicionada da leitura da precedente (Uma teoria do poder global), torna o livro ainda mais intrigante, interessante e atrativo. Uma viagem pelo mundo, sustentada por teoria, história, conjuntura e prognósticos.

Referências

FIORI, J. L. O poder americano. Petrópolis: Vozes, 2004.

FIORI, J. L. O poder global e a nova geopolítica das nações. São Paulo: Boitempo, 2007.

FIORI, J. L. História, estratégia e desenvolvimento: para uma geopolítica do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2014.

FIORI, J. L. A síndrome de Babel e a disputa do poder global. Petrópolis: Editora Vozes, 2020.

FIORI, J. L. Uma teoria do poder global. Petrópolis: Editora Vozes, 2024.

FIORI, J. L. Conjuntura e história. Petrópolis: Editora Vozes, 2026.

METRI, M. Prefácio – A construção do método. In: FIORI, J. L. Conjuntura e história. Petrópolis: Editora Vozes, 2026.

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