
Original em: https://hojepr.com/as-capivaras-e-o-oficio-do-tre/
O Parque Barigui amanhecera mais molhado que de costume. As águas subiam, os turistas se espremiam nas partes secas e os corredores faziam malabarismos para não tropeçar nas capivaras, que, por sua vez, já consideravam o parque propriedade particular, embora ainda não tivessem conseguido registrar a escritura.
Foi nesse cenário que a chefia do bando recebeu um ofício do TRE-PR.
— Chefe, chegou um ofício!
— De quem?
— Do TRE.
— E querem o quê?
— Autorização para os candidatos fazerem discursos e distribuírem santinhos no parque.
O chefe leu, releu e perguntou:
— Santinhos? Santinhos. E depois recolhem?
— Não.
— Então já começaram fazendo sujeira.
— Chefe, liberamos ou não? Fale com o Capitão Justino.
— Cadê o Justino?
— Lá no mato, cobrindo umas fêmeas.
Lilico, uma capivara jovem, deu risada:
— Ele está véio, mas ainda está forte!
— Respeite a hierarquia — advertiu o chefe. — E mande o Três Pernas ao Tingui. Fale com o Buchinho, chefe de lá. Se ele autorizar, eu autorizo também.
— E se ele não autorizar?
— Fazemos uma comissão para descobrir quem autorizou.
Nesse momento, Jojóca, uma das fêmeas, já grávida, interrompeu:
— Chefe, estamos preocupados com outra coisa. Temos poucos filhotes nos parques!
— E daí?
— Precisamos aproveitar essas águas para procriar mais depressa! Outra fêmea concordou:— Água não falta. O que falta é sossego.
Uma terceira foi mais direta:
— Se esses políticos vierem para cá, vamos ficar sem tesão e sem energia para procriar!
O chefe tossiu, constrangido:
— Isso é uma reunião administrativa!
— Pois estou tratando da administração — respondeu Jojóca. — Da expansão populacional. A discussão esquentou.
— Eles falam demais! Trazem fotógrafos, assessores, santinhos, promessas.
O chefe bateu a pata no chão:
— Chega! Vou autorizar.
— Mesmo assim?
— Sim. Afinal, eleição acaba logo. E os políticos?
— Vão embora. E nós?
— Nós ficamos.
— E os turistas?
— Ficam.
— Os atletas?
— Também.
— E os carrapatos?
O chefe sorriu:
— Esses são nossos companheiros históricos.
A turma ficou mais tranquila.
O velho chefe então olhou para as águas do Barigui e falou solenemente:
— Tenham paciência. Um dia o Barigui e o Tingui serão exclusivamente nossos. Já disse o nosso profeta.
— E quando será esse dia?
— Quando os humanos cansarem de correr atrás da gente. Lilico coçou a orelha:
— Mas, chefe… e se eles resolverem votar nas capivaras? O chefe arregalou os olhos.
— Aí teremos de lançar candidatos!
Foi um alvoroço.
— Eu quero a Secretaria do Capim!
— Eu quero Meio Ambiente!
— Eu quero Turismo!
Jojóca levantou a pata:
— Eu quero a Secretaria de Reprodução!
O chefe bateu a pata no chão:
— Aprovada por unanimidade!
Nesse instante, apareceu o Capitão Justino, vindo tranquilamente do mato.
— E então? O que decidiram? O chefe entregou-lhe o ofício.
— Autorizamos os políticos.
Justino olhou o papel, deu uma mordida no capim e sentenciou:
— Política passa. Capivara fica.
Todos concordaram.
Até os carrapatos.
Amém.