
Foto Valor Econômico/Globo
Como era de esperar, os empresários – mais de 600 –, em jantar com o presidente Lula, em SP, centraram suas reivindicações em favor da redução da taxa de juros.
Realmente, não dá mais para a economia conviver com juros reais de 10%, excluída inflação, na casa dos 4%, 4,5%.
O setor produtivo, nesse contexto, continuará optando pela especulação financeira, que rende muito mais do que ficar investindo com retorno baixo.
A hipocrisia empresarial, no entanto, campeou pelo jantar.
o presidente, que, ontem, em Recife, recebeu apoio de mar de gente, favorável às suas propostas de distribuição de renda e justiça social, identificado, historicamente, com as demandas essenciais dos trabalhadores, rebateu, diante dos capitalistas, que é preciso combinar o social com o econômico.
Para acontecer o que os empresários defendem reivindicam, não será possível continuar o desequilíbrio imposto pela desigualdade social, diante da superacumulação de renda em favor do capital, enquanto os salários são achatados.
O que os empresários, em sua maioria, querem, não é possível atender: Estado subinvestidor na economia, para abrir espaço maior ao setor privado.
Isso não acontece nas economias desenvolvidas, onde o Brasil precisa chegar.
O sub-Estado, defendido pelos empresários brasileiros, sob neoliberalismo, não atende as condições reivindicadas pelos próprios capitalistas: gerar oportunidade de investimentos, necessários para garantir à população melhores condições de vida: saúde, educação e infraestrutura suficiente, sem a qual a demanda global não se amplia, o que contribui para manter insuficiente renda média no país que, está destruindo mercado consumidor.
Por isso, não combina, nos termos requeridos pelos empresários, queda da taxa de juro sem investimentos sociais; são estes que, ao fim e ao cabo, elevarão o salário médio capaz de aumentar a capacidade de consumo, com o qual a produção ganhará tração.
Fora disso, é subcapitalismo subconsumista em crise permanente de realização de lucros.
VISÃO SOCIAL X VISÃO NEOLIBERAL
Lula foi claro ao enfatizar sua oposição antineolibal a um salário-mínimo, na faixa de R$ 2 mil/mês.
Nesse patamar, sobra mês no salário, e o trabalhador, desesperado, parte, naturalmente, para a jogatina(Bets), senão para a exigência de uma complementação salarial em forma de abonos, bolsa família, subvenções etc.
Por sua vez, com o salário médio muito baixo, que reduz, de forma permanente, o consumo, os empresários fazem a opção pela liquidez, na jogatina financeira do rentismo especulativo(outra variação mais polpuda de Bets), para fugir da formação de estoques, por falta de consumidor.
Nessas condições, os capitalistas, como tem demonstrado o dia a dia da economia nacional, vão ao governo pedir subsídios para sustentar sua taxa de lucro cadente, no contexto da desigualdade social em processo de ampliação irresistível.
São mais de R$ 600 bilhões/ano de concessão de subsídios, isenções, sem contar fraudes financeiras, fuga de capital para paraísos fiscais, aplicações no rentismo etc, como salvaguarda do capitalismo carente de consumidor.
Também, de forma hipócrita, os empresários fecham os olhos para a inflação, que é fruto de tal conjuntura; se a demanda – salário – é insuficiente para consumir a oferta global, dinamizada pelo desenvolvimento científico e tecnológico colocado a serviço da produção e da produtividade, o ajuste econômico se dá, apenas, pelo lado da demanda.
Ou seja, cai a produção, para se adequar à renda cadente por falta de poder de compra suficiente dos salários.
Soma-se a isso os juros altos e tem-se estado de subconsumismo com queda permanente da taxa de lucro que levam a estagnação.
Qual é, diante desse contexto, a proposta dos empresários neoliberais?
Invariavelmente, tem sido cortes de gastos públicos, mas cortes, sim, em cima das despesas primárias, indispensáveis ao dinamismo econômico – saúde, educação, infraestrutura geral –, sem o qual a classe empresarial não investe.
Não se viu, da parte dos capitalistas a reivindicação da redução das despesas financeiras/nominais, os juros que demandam quase 10% do PIB, na casa dos R$ 1,2 trilhão/ano, em comparação com as despesas primárias, em torno de 1%,1,5%.
Cortar despesa primária e deixar a despesa financeira incólume?
A diferença é brutal.
LULA X FLÁVIO E O SILÊNCIO ENSURDECEDOR DO CAPITAL
Portanto, no jantar do presidente com as classes capitalistas brasileiras, ficou o silêncio ensurdecedor em torno do que é essencial: reduzir a taxa de juros, sim, é essencial, indispensável, para fazer a economia crescer, mas quem vai pagar a conta, em proporção maior, no jogo da acirrada luta de classe: o capital, que se encontra acumulado, ou o trabalho, que se vê massacrado em seu baixo poder de compra?
A opção empresarial, no ambiente da disputa eleitoral, chegou ao ponto de saturação: se a proposta vencedora for a da oposição, capitaneada pelo candidato Flávio Bolsonaro, do PL, fascista, bolsonarista, entreguista, mentiroso, pró-Donald Trump, a taxa de juros tende a subir, porque, simplesmente, ele promete achatar o salário mínimo, desvinculando-o da inflação e aprofundar privatização geral dos serviços públicos, bem como empresas estatais.
Vale dizer, o poder de compra vai continuar sendo mais achatado, o que levará os capitalistas a se socorrerem, ainda mais, ao Estado, financeiramente fragilizado, justamente, pelos juros altos, em busca de subsídios para os seus negócios, afetados, certamente, pela continuidade dos exagerados custos financeiros da dívida pública.
Já, se Lula ganhar, como apontam as pesquisas, por margem apertada, o compromisso do presidente em seu eventual quarto mandato será o de melhor equilibrar justiça social, com melhor distribuição de renda, e desenvolvimento.
NOVA POLÍTICA ECONÔMICA URGENTE
Isso exigirá ajustes na política econômica, sem os quais não haverá queda da taxa de juros, mas, sim, ampliação do rentismo.
continuarão as distorções e suas consequências, no momento, alvo das críticas dos capitalistas: corrupção dos poderes da República pela classe empresarial rentista, brigando entre si, contribuindo para naturalizar aberrações escandalosas como a que se verifica com as práticas do Banco Master e seu ex-dono, Daniel Vorcaro, preso no governo Lula, por comprar integrantes dos três poderes, para ampliar, sem limite ético, seus negócios.
Lula, no jantar com os empresários, deixou claro: o subconsumismo capitalista sob salário-mínimo vergonhoso de R$ 2 mil/mês leva ao colapso não apenas os trabalhadores, mas, também, as empresas, ampliando possibilidades sinistras de falências, desemprego, desestruturação econômica e desigualdade social sem limites.
Trabalho e capital no subconsumismo tupiniquim sucumbiram às Bets.
Com Lula, que fechou, parcialmente, as Bets, ligadas aos trabalhadres, enquanto continuam as que comandam o rentismo especulativo, será necessário, como deixou claro, nova política macroeconômica anti-financeirização.
Será forma de recuperar a saúde econômica dos setores produtivos e consumidores – capital e trabalho, desigualmente, afetados –, devidamente acompanhada do que, também, prometeu empreender, durante o jantar: reformas política e do judiciário, pois o legislativo e os tribunais se sucumbiram à corrupção incontrolável do capital financeiro.

