
A certeza de Flávio Bolsonaro de que vai ganhar as eleições se expressa na antecipação de medidas fundamentalmente antipáticas para o povo que adotaria como presidente, caso as ganhasse de fato. A maior parte é pura demagogia. Entre elas, porém, há algumas verdades desagradáveis: Bolsonaro quer congelar o salário mínimo de aposentados e pensionistas, o que deve ser levado a sério, porque essa é a opinião dominante entre economistas de extrema direita do grupo de Fernando Henrique Cardoso, entre os quais se destaca Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central.
Essa proposta foi apresentada descaradamente por Armínio, na Fiesp, entre outras recomendações de cortes nos gastos públicos sociais para controlar o orçamento fiscal e pagar juros a rentistas. O antigo assessor de FHC e de George Soros, o bilionário americano que instigou o golpe contra um presidente legitimamente eleito na Ucrânia em 2014 – motivo central para a guerra que a Rússia se obrigou a fazer para se defender da intromissão da OTAN em seu território -, não tem qualquer compromisso com o povo. Assim, pode se dar ao luxo de contrariar abertamente os interesses dele.
Já um candidato presidencial, em geral, só fala coisas agradáveis para a população num recorrente exercício de demagogia e de promessas falsas. Se Flávio antecipa antes do fim do segundo turno que vai congelar o salário mínimo de aposentados e pensionistas, se chegar à Presidência, é porque quer agradar seu público preferencial, a classe dominante e as oligarquias paulistas. Se não precisa de agradar o povo é porque dispõe de uma carta na manga para atraí-lo. Essa carta é o dinheiro sujo que está sendo distribuído a rodo aqui no Rio para comprar eleitores.
Não só isso. A quadrilha de milicianos de Bolsonaro convenceu muitos eleitores ingênuos de que vão receber seus salários em dólares. Convenceu-os também de que vai aumentar de uma tacada o valor dos benefícios sociais criados por Lula. Mas não explicou como vai conciliar isso com o propósito, igualmente anunciado, de cortar R$ 400 bilhões no orçamento, o que só seria possível com uma drástica redução dos benefícios sociais – especialmente os previdenciários, educacionais e de saúde. Como seu público é a burguesia, será em benefício dela, e não do povo, que vai agir.
Base institucional para isso não lhe faltará. Nenhum presidente antes dele teve uma maioria no Congresso tão grande como terá. Isso lhe dá confiança para anunciar que vai fazer mudanças radicais na Constituição, garantidas por uma maioria parlamentar alinhada à direita e à extrema direita, com eventual suporte do Centrão. Quanto às políticas sociais, que se lixem. A quadrilha do Partido Liberal e seus aliados estão anunciando em coro como usarão com vigor a tesoura implacável para cortar gastos públicos essenciais em favor da especulação financeira improdutiva dos rentistas.
Contudo, como diziam os romanos, caveat (cuidado!). Não provoquem em excesso os sans culotes, a base pobre e revoltada da Revolução Francesa. Sem espaço dentro do Congresso, a política renunciará à gravata e aos gabinetes e vai para a rua. Tivemos uma rápida visão disso na tentativa da maioria expressiva da Câmara de aprovar a PEC da Blindagem. O Senado, por medo do povo – e não era um senado progressista, mas tão de direita quanto o atual – bloqueou a vergonhosa tentativa da Câmara de impedir que parlamentares suspeitos fossem investigados pela Polícia Federal.
Um exemplo ainda mais significativo foi a Campanha das Diretas Já, em 2084/85. Uma tremenda mobilização popular, reunindo várias instâncias da Sociedade Civil, incluindo trabalhadores, negros, mulheres, classes médias e movimentos identitários progressistas, percorreu várias capitais brasileiras para levantar o povo contra a ditadura militar. O regime militar teve que ceder aos reclames da população. Não pensem os que assaltaram agora o Congresso, pela força da ingenuidade de evangélicos e dos fuzis dos milicianos, que não têm barreiras para seu galope!
Voltemos ao início. Mais de 60% dos aposentados e pensionistas ganham o salário mínimo. Se ficarem sem reajustes, na medida em que a inflação e, especialmente, o custo de vida aumentar, sua renda real progressivamente cairá drasticamente. Com o tempo, serão destinados à indigência e pobreza extrema. Acaso isso os levará a culpar Bolsonaro e sua quadrilha por sua situação miserável? Não. Dirão que é a vontade de Deus, e correrão para as igrejas evangélicas dominadas pela cobiça a fim de entupirem seus pastores vigaristas com a comida de porco que lhes enche o bucho!
Entretanto, não se assustem. Flávio não ganhará no segundo turno. Depois de uma campanha morna no primeiro, Lula e seus apoiadores estão indo para a rua com uma determinação inédita, convencidos de que o País não pode ficar nas mãos de um miliciano associado ao crime organizado. O Brasil passa por várias crises, afetando inclusive as bases institucionais da República. Porém nem tudo está perdido. Ainda temos determinação e ânimo para reorganizar a vida nacional e, se tivermos um pouco de sorte, vamos chegar brevemente às portas esperançosas do Social Trabalhismo.

