A Ponte Espontânea

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Uma crônica sobre a (pretensa) extraordinária capacidade dos homens de resolver seus problemas sem que ninguém lhes diga o que fazer.

Era uma manhã ensolarada de 1964 quando Seu Sebastião, humilde pescador da Praia da Ribeira, na Ilha do Governador, acordou com uma inquietação.
Seus peixes estavam fresquinhos, gorduchos e reluzentes. O problema era que seus principais compradores moravam em Niterói, do outro lado da Baía de Guanabara.
— Mas que diabo! — exclamou Sebastião, coçando a cabeça. — Se ao menos houvesse uma maneira de atravessar essa água sem depender de barco!
Naquela mesma manhã, encontrou Seu Delso, um cimenteiro que havia acabado de abrir uma pequena loja de materiais de construção.
— Delso, meu amigo, o senhor não aceitaria uns robalos em troca de dois sacos de cimento?
— Aceito, Sebastião! Mas pra que tanto cimento?
— Vou fazer uma calçadinha dentro do mar. Assim chego mais perto de Niterói.
Delso achou aquilo extraordinariamente sensato. Afinal, ninguém conhecia melhor as próprias necessidades do que Sebastião.
E a troca aconteceu.
Na semana seguinte, Sebastião começou a despejar cimento na Baía de Guanabara. A calçadinha avançou quase três metros antes de desaparecer sob as águas.
Mas a notícia se espalhou.
Seu Oswaldo, dono de uma pequena serralheria em São Gonçalo, soube que havia um pescador disposto a gastar suas economias com cimento para chegar ao outro lado da baía.
— Ora, se esse homem está comprando cimento, talvez precise também de umas vigas de aço!
E foi oferecer seus serviços.
Sebastião não tinha dinheiro para pagar as vigas, mas ofereceu vinte tainhas, três garoupas e uma promessa de fornecimento semanal de sardinhas.
Oswaldo aceitou.
Afinal, as trocas voluntárias beneficiavam ambas as partes.
Poucos dias depois, Dona Zulmira, costureira aposentada de Jurujuba, percebeu que os pescadores estavam atravessando a baía com cada vez mais dificuldade. Decidiu, então, investir suas economias numa pequena fábrica de parafusos.
Não sabia exatamente para que seriam utilizados, mas sentia que havia ali uma oportunidade de negócio.
E tinha razão.
Os parafusos de Dona Zulmira começaram a ser adquiridos por Seu Oswaldo, que vendia vigas para Seu Sebastião, que comprava cimento de Seu Delso, que, por sua vez, adquiria peixes para alimentar os funcionários da sua loja.
Nascia ali uma formidável cadeia produtiva.
Sem reuniões ministeriais.
Sem planos quinquenais.
Sem burocratas.
Apenas homens simples, perseguindo seus interesses particulares.

Em 1966, a pequena calçadinha já avançava 87 metros sobre a baía.
Foi quando apareceu o jovem Agenor, recém-formado em engenharia civil, que havia passado três anos estudando resistência dos materiais.
— Seu Sebastião, o senhor já calculou o momento fletor dessas vigas?
— O momento de quê, menino?
— O momento fletor. A distribuição de esforços. A resistência dos pilares!
Sebastião ficou pensativo.
— Olhe, Agenor, eu não sei dessas coisas. Só sei que o peixe precisa chegar fresco em Niterói.
Agenor, percebendo uma demanda insatisfeita, decidiu abrir um escritório de cálculo estrutural.
Cobrou seus serviços em camarões.
Pouco depois, surgiram outros escritórios concorrentes, e o preço dos cálculos caiu de 40 para 27 camarões por projeto.
A competição estava funcionando.
Em 1968, um pequeno empresário de Duque de Caxias, chamado Juvenal, percebeu que o comércio de vigas e cimento havia provocado um aumento na demanda por guindastes.
Comprou um guindaste usado e passou a alugá-lo por hora.
Outro empresário, inconformado com os lucros de Juvenal, comprou dois guindastes.
Em poucos meses, a margem de lucro do setor caiu, beneficiando os consumidores.
E a calçadinha continuou avançando.

Em 1970, já havia 14 mil trabalhadores envolvidos na construção.
Curiosamente, nenhum deles sabia exatamente quem havia começado a obra.
Alguns diziam que fora Sebastião.
Outros atribuíam a iniciativa a Delso.
Havia quem defendesse que tudo começara com os parafusos de Dona Zulmira.
Mas ninguém tinha certeza.
O importante era que cada participante possuía apenas um fragmento das informações necessárias.
O soldador sabia soldar.
O pescador sabia pescar.
O cimenteiro sabia vender cimento.
E Dona Zulmira sabia que, se aumentasse o preço dos parafusos, Seu Oswaldo compraria da concorrência.
Nenhum indivíduo compreendia a totalidade daquela gigantesca estrutura que começava a atravessar a Baía de Guanabara.
E, no entanto, ela surgia.
Pilar após pilar.
Viga após viga.
Camarão após camarão.
Certo dia, um funcionário do governo federal apareceu para averiguar o empreendimento.
— Mas quem autorizou a construção dessa ponte?
Seu Sebastião, agora presidente honorário da Associação dos Pescadores Empreendedores da Ribeira, respondeu:
— Ninguém, doutor.
— Como assim, ninguém? Quem elaborou o projeto executivo?
— O Agenor.
— E quem financiou?
— Os compradores de peixe.
— E quem decidiu o traçado?
— Bom, doutor, a gente foi indo pra frente e desviando dos barcos.
O funcionário ficou estarrecido.
— Mas isso é impossível! Uma obra dessa magnitude exige planejamento centralizado, coordenação institucional, orçamento plurianual!
Sebastião sorriu.
— Pois é, doutor. E pensar que tudo começou com dois sacos de cimento e meia dúzia de robalos.
O funcionário voltou a Brasília e recomendou a criação imediata de uma comissão interministerial.
Felizmente, o processo levou quatro anos para ser analisado.
A ponte ficou pronta antes.

Na manhã de 4 de março de 1974, milhares de cariocas e fluminenses se reuniram para celebrar a inauguração da gigantesca estrutura de concreto que finalmente unia as duas margens da baía.
Não havia autoridades no palanque.
Não havia ministros.
Não havia engenheiros militares.
Apenas Sebastião, Delso, Oswaldo, Zulmira, Agenor e Juvenal.
Sebastião cortou a fita inaugural com sua velha faca de limpar tainha.
Uma multidão aplaudiu.
Um jornalista se aproximou e perguntou:
— Seu Sebastião, o senhor não acha extraordinário que uma obra de mais de treze quilômetros tenha sido construída sem qualquer planejamento governamental?
O velho pescador contemplou a imensidão da ponte, enxugou uma lágrima e respondeu:
— Meu filho, eu só queria vender meu peixe.
Naquele instante, ninguém percebeu que uma senhora havia montado uma pequena barraca de água de coco na entrada da ponte.
Chamava-se Dona Marinalva.
Ela não sabia coisa alguma sobre engenharia, economia ou infraestrutura.
Mas havia percebido que milhares de motoristas atravessariam aquele lugar diariamente.
E que alguns deles sentiriam sede.
Assim, enquanto Sebastião contemplava sua obra, Marinalva vendia o primeiro coco gelado da Ponte Rio–Niterói.
O sistema de preços acabara de resolver mais um problema da humanidade.
E tudo isso sem um único centavo do Estado.

Ass: Friederich Hayek

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