Zé Galinha. Por Rubens Gennaro

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zé galinha

Original em: https://hojepr.com/ze-galinha/

Na Colônia Antônio Rebouças, nas imediações de Campo Largo, vivia um italianinho chamado Giuseppe Campanaro. Só que ninguém o conhecia por esse nome. Para a colônia inteira, era simplesmente Zé Galinha. A família Campanaro criava porcos e galinhas num pequeno sítio. Zé crescera entre chiqueiros, galinheiros e aquele cheiro característico da vida rural, que o sujeito só percebe quando sai de casa e descobre que cidade grande também tem seus próprios aromas, embora nenhum deles seja exatamente de lavanda.

Na juventude, Zé tornou-se o maior entregador de ovos da região. Tinha um Fordeco dos anos 1950, boa aparência, roupa sempre bem passada, cabelo penteado com brilhantina e um repertório de boleros aprendido no rádio-vitrola de casa.

A cada entrega de uma dúzia de ovos, vinha também uma canção.

E Zé cantava bem.Foi aí que começou a confusão.

Percorrendo as estradas vicinais de Campo Largo, entregando ovos de excelente procedência e boleros de procedência duvidosa, Zé conquistou quatro namoradas: Jupira, Zulmira, Elmira e Lenira.

As quatro moravam em pontos diferentes do município.

Uma ao norte, outra ao sul, uma a leste e outra a oeste.

Zé organizara sua vida amorosa como se estivesse administrando uma linha de ônibus intermunicipal.

Segunda-feira era Jupira.

Terça, Zulmira.

Quarta, Elmira.

Quinta, Lenira.

Na sexta, provavelmente fazia manutenção no Fordeco.

O sistema funcionou durante algum tempo, porque Zé era cuidadoso. Não misturava as entregas, não confundia os endereços e jamais levava a mesma canção para duas namoradas na mesma semana.

Mas esqueceu-se de uma coisa fundamental:

mulher pode perdoar muita coisa, menos descobrir que existe outra mulher.

Certo dia, Zé estava ao lado de Elmira quando apareceram Jupira e Zulmira.

As três se olharam.

Depois olharam para Zé.

Zé olhou para o céu, talvez procurando uma solução divina.

Não encontrou.

O que aconteceu depois foi uma pequena revolução feminina na Colônia Antônio Rebouças. Houve gritos, tapas, puxões, acusações e outras manifestações democráticas de descontentamento.

Quando terminou, Zé estava mais amassado que uma lata de sardinha.

Virou, literalmente, um omelete ambulante.Foi levado ao hospital, todo quebrado.

E quando parecia que o pior havia passado, surgiu Lenira.

Entrou na enfermaria com expressão séria.Zé imaginou que receberia carinho.

Lenira trazia carinho, realmente.Só que vinha acompanhado de um canivete.

Movida por uma mistura de amor, ciúme e sentimentos que nenhum psiquiatra da época teria coragem de diagnosticar, Lenira resolveu fazer uma espécie de cirurgia particular.

Não se sabe exatamente o procedimento.

Sabe-se apenas que, depois dele, Zé deixou de ser apenas Zé Galinha.

Passou a ser mais galinha do que Zé.

Convalescente, voltou para a granja e tomou uma decisão histórica: nunca mais entregaria ovos a ninguém.

Mudou de ramo. Passou a produzir e fornecer asinhas de frango e fígado de galinha aos restaurantes de Santa Felicidade.

E prosperou.

Talvez tenha descoberto que vender asas era muito mais seguro do que entregar ovos.

Com o tempo, Zé ainda encontrou uma nova paixão: a música. Entrou para o coral italiano da região e tornou-se conhecido pela bela voz de contralto.

Ali encontrou a paz que não conseguira encontrar no amor.

No coral, pelo menos, ninguém lhe perguntava onde estivera na noite anterior.

Zé envelheceu trabalhando na granja, cantando músicas italianas e evitando qualquer conversa que envolvesse galinhas, ovos ou namoradas.

Morreu solteiro, já ancião, há poucos anos.E dizem que, até o fim, conservou a elegância: cabelo penteado, roupa impecável e aquela velha postura de galã.

Foi assim que Giuseppe Campanaro entrou para a história de Campo Largo.

Começou entregando ovos, terminou entregando música e passou os últimos anos de sua vida cuidando da granja, cantando no coral italiano e mantendo uma prudente distância de qualquer romance.

Quando alguém perguntava por que nunca mais se casara, Zé apenas ajeitava o paletó, alisava o cabelo e respondia, com a serenidade de quem já havia aprendido a lição:

— Depois de quatro namoros ao mesmo tempo, descobri que o melhor negócio era ficar solteiro e cuidar da contabilidade dos ovos.

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