O ambiente político e econômico nunca esteve tão polarizado como atualmente. Discordâncias vão desde segurança, educação, transporte público, programas sociais e até o comportamento das pessoas. A maioria dos cidadãos desconhecem ou esqueceram que o Consenso de Washington (apresentado pelo economista John Williamson em 1989) consistia em um conjunto de dez medidas de ajuste macroeconômico. Uma delas era a privatização de empresas e serviços públicos, concebida para reduzir o peso do Estado na economia. Organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial passaram a exigir a adoção dessas reformas neoliberais (incluindo a venda de estatais e a abertura comercial) como contrapartida para a renegociação da dívida externa e a concessão de novos créditos aos países latino-americanos. Países como Brasil, México, Argentina e Chile incorporaram o modelo de forma intensa ao longo da década de 1990. No Brasil, o processo ganhou grande força com o governo Collor e se consolidou no governo de Fernando Henrique Cardoso, com a venda de estatais nos setores de energia elétrica (todas as usinas da Eletrosul), telecomunicações (Telebras), siderurgia e mineração (como a Vale do Rio Doce). Privatizações e concessões são um aspecto de muita curiosidade. Certamente, dadas as recomendações do Consenso de Washington, a evolução da economia brasileira deveria atingir índices mais favoráveis, já que se reduzia o peso do Estado. Portanto, o mínimo de interesse seria verificar se as hipóteses do Consenso se tornaram realidade, porque essa política foi fortemente adotada no Brasil nos últimos 45 anos. Nessa época, o Brasil ocupava a nona posição na classificação das economias mundiais e seu PIB representava 4,3% do total das economias do mundo. Hoje essa proporção é de apenas 2,1%. Portanto vale a pena examinar os detalhes e seus efeitos na economia. E termos gerais, o cidadão sequer sabe que o Brasil é o país é um dos “líderes” na venda de empresas públicas pois, nesses últimos 45 anos vendeu mais de 100 empresas estatais. Também não sabe que, substituindo as privatizações, as “concessões” feitas tanto pela “esquerda” quanto pela “direita” podem provocar mais prejuízos para o estado, pois contratos malfeitos e de muito longo prazo, acabam sendo judicializados e o “concessionário” desiste da atividade deixando o abacaxi para o setor público. Mas, começando pelas privatizações, abaixo está a lista de estatais vendidas no Brasil nos últimos 45 anos. Fonte: https://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/transparencia/desestatizacao/pr ojetos-encerrados/historico). Privatizações Brasileiras Siderurgia – Companhia Siderurgica Nacional, Usiminas, Cosinor, Piratini, CST, Acesita, Cosipa e Açominas, Aços Finos Piratini, Cosipa. Petroquímica – Petroflex, Copesul, Copene, Polisul, Petroquímica União, Polipropileno, Álcalis, Salgema Indústrias Químicas, Poliolefinas, TAG e NTS (Transportadoras de gás natural subsidiárias da Petrobras) e mais 19 pequenas indústrias. Fertilizantes – Indag, Fosfértil, Goiásfértil, Ultrafértil, Arafértil. (hoje o Brasil importa fertilizantes!) Elétrico – Escelsa, Light, Gerasul, CERJ, COELBA, Cachoeira Dourada, CEEE, CPFL, CEMAT, Energipe, Cosern, CELPE, CESP Paranapanema, CESP Tietê, CEMAR, Eletropaulo, COPEL, Eletrobras. (É essencial lembrar que vários projetos construídos em parceria minoritária da Eletrobras já nasceram sob controle privado) Usinas em parceria Início da parceria Potência MW Início da Operação Foz do Chapecó 2001 855 2010 Serra do Facão 2002 212 2010 Peixe Angical 2000 498 2006 Mauá 2006 361 2006 Retiro Baixo 2006 82 2010 Dardanelos 2006 261 2011 Santo Antônio 2007 3568 2012 Jirau 2008 3750 2013 Belo Monte 2010 11233 2016 Teles Pires 2011 1820 2015 Baguari 2006 140 2009 Três Irmãos (reforma) 2014 807 1995 Total 23587 (O Brasil é o único país com significativa base hidroelétrica (Rios, Lagos, Água, Geografia) que privatizou todo seu setor elétrico. Suécia, Noruega, Rússia, Canadá, Índia, Estados Unidos não seguiram essa receita) Transportes – Malhas da Rede Ferroviária Federal, Mafersa, Ferroeste, Metrô, Conerj, Flumitrens, Menezes Cortes, Lloyd Brasileiro, Codesa (Companhia Docas do Espírito Santo Mineração – Caraíba, Vale do Rio Doce. (Por ineficiência na manutenção de barragens de montante, A VALE privada destruiu 2 rios e matou mais de 200 pessoas) Portos – Santos, Capuaba, Sepetiba, Rio, Angra, Salvador Financeiro – Meridional, Banespa, BEG (Goiás), BEA (Amazônia), BEM (Maranhão), BEC (Ceará), BEMGE (Minas), Bandepe (Permanbuco), BANEB (Bahia), BANESTADO (Paraná). Gás – CEG, Riogás, COMGÁS, Gás Nordeste e Gás Sul. Outros – EMBRAER, DATAMEC, Aracruz Celulose, Máquinas Piratininga, Guatapará Celulose, Nova América Textil, Cobra Computadores, BR Distribuidora, Ceasa Minas (Centrais de Abastecimento de Minas Gerais) Telecomunicações – CRT (Rio Grande do Sul), TELESP, Tele Centro Sul, Tele Norte Leste, Embratel, Telemar. Vejam como as “concessões”, a estratégia para “substituir” as privatizações, adotada pelo governo de “esquerda”, podem causar mais prejuízos para a economia do que as privatizações. Vejam a razão. Exemplos de estradas concessionadas e os respectivos concessionários: BR-381 Belo Horizonte (MG) – São Paulo (SP) – grupo OHL BR-393 Divisa (MG-RJ) – Via Dutra (RJ) – Acciona BR-101 Ponte Rio–Niterói (RJ) – (ES) – grupo OHL BR-153 Divisa (MG-SP) – Divisa (SP-PR) – BR VIAS BR-116 São Paulo (SP) – Curitiba (PR) – grupo OHL BR-116 Curitiba (PR) – Divisa (SC-RS) – grupo OHL BR-116/376/PR-101/SC Curitiba (PR) – Florianópolis (SC) – grupo OHL Aeroportos e Portos Aeroporto Internacional de Natal, Aeroporto Internacional de Brasília, Aeroporto Internacional de Campinas, Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos, Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro-Galeão e Aeroporto Internacional de Belo Horizonte-Confins. Porto de Santos. Porto de Paranaguá Porto de Itaguaí. Porto de Itajaí Portos de Salvador Como se sabe, as estradas, portos e aeroportos que não se equilibram financeiramente ficam com o governo e a Infraero. Além disso, geralmente os contratos mal planejados provocam desequilíbrio financeiro e os concessionários entram na justiça exigindo ressarcimento ou “subsídios”. Portanto, o que aconteceu com o crescimento do PIB brasileiro no mesmo período? Basta consultar o site do FMI, fazer umas contas simples e constatar que o Brasil cresceu bem abaixo da média mundial. O crescimento acumulado do Brasil nos últimos 45 anos ficou 160% abaixo da média mundial representando apenas 2,1% do total. Fonte: https://www.imf.org/external/datamapper/NGDP_RPCH@WEO/WEOWORLD/BRA Abaixo um gráfico que mostra que, apesar de toda essa transferência de atividades econômicas para a iniciativa privada, a performance brasileira está muito aquém da suposta modernização e eficiência alardeada por essa política. Esclarecendo alguns detalhes: 1 – No período FHC 1 e 2 o crescimento brasileiro ficou 9,6% abaixo da média mundial. 2 – No período Lula 1 e 2, apesar da melhora, o crescimento brasileiro ficou 3,1% abaixo do crescimento mundial nesse mesmo período. 3 – No período Dilma – Temer, a situação piora bastante. No período Dilma, o Brasil perde 2,7% (-2,7%) enquanto a média mundial ganha mais 34%. No período Temer o Brasil cresce + 5,3%, mas o mundo cresce + 16,9%! 4 – No período Bolsonaro, apesar do Brasil subir 9,9%, o mundo ganha 26,2%! 5 – Finalmente, no período Lula 3, apesar do Brasil subir 21%, a média mundial crescia 37,2%! 6 – A seta vermelha apenas mostra que o PIB brasileiro em 2018 é praticamente o mesmo de 2011. Uma estagnação de 7 anos! É imprescindível que a sociedade brasileira não se deixe enganar com taxas positivas de crescimento econômico citados de maneira isolada. É sempre necessária uma referência para julgar se estamos progredindo ou regredindo nesse mundo que altera sua forma de expansão da renda com uma velocidade impressionante. Apenas para citar valores que representam essa diferença, se o Brasil crescesse como a média mundial, seu PIB estaria no entorno de R$ 18 trilhões ao invés dos R$ 12,7 registrado em 2025. Um dos países que mais cresceram no mundo foi a Coréia do Sul, que adotou o inverso da política brasileira. Manteve atividades estratégicas sob o comando do estado (exemplo: KEPCO – Korea Electric Power Corporation) enquanto o Brasil fez o inverso: privatizou a Eletrobras. Abaixo, a comparação do PIB per capita desde 1980