A arte de abraçar o inimigo

Por Luis Otávio Reiff*

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A reestreia de Getúlio Vargas na Câmara dos Deputados seria marcada por um gesto simbólico — e imprevisível — de sua parte.

No salão da Biblioteca Nacional que dava acesso ao plenário, ele se pôs à frente de um sujeito de rosto carnudo, lábios grossos e cabeleira negra, que vinha no sentido contrário.

O homem tomou um susto e quase não acreditou quando Getúlio o abraçou efusivamente, entre sorrisos, dando-lhe as boas-vindas.

Os que assistiram à cena também ficaram estupefatos.

O deputado Getúlio Vargas, lugar-tenente do borgismo na Câmara, abraçava Batista Lusardo, médico e advogado, ex-chefe do estado-maior das forças rebeldes que, poucos meses antes, lenço vermelho ao pescoço, andava trocando tiros em escaramuças contra as tropas legalistas de Borges de Medeiros.

Feito deputado federal graças à popularidade e à aura de bravura que conquistara nos campos de batalha, Lusardo era quase um símbolo da Revolução de 1923, um maragato por excelência, incorporado desde a primeira hora às tropas do Leão de Caverá.

“É um homem brigão, mas uma figura que merece o nosso respeito”, comentou ao abraçá-lo um bem-humorado Getúlio, para maior perplexidade dos que estavam em volta.

Teria início ali uma longa e acidentada amizade.

A despeito das diferenças que os separavam, os dois se tornariam próximos a partir daquele momento.

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