A Escassez como Filosofia de Vida. Por Heldo Siqueira

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Olhe ao seu redor. Vivemos em uma era de superprodução. Desperdiçamos toneladas de alimentos diariamente, produzimos mais roupas do que a humanidade é capaz de vestir e acumulamos tecnologias que se tornam obsoletas em meses. Enquanto os bilionários acumulam fortunas além do que a própria realidade permite gastar, a vida do povo continua limitada pela privação.

E essa lógica é repetida em verso e prosa. Se você abrir qualquer grande jornal, revista de negócios ou assistir a uma análise econômica na TV, o ponto de partida é sempre o mesmo: o dogma de que os recursos são escassos e de que precisamos fazer escolhas dolorosas. A austeridade — seja ela individual ou coletiva — torna-se o corolário de um dogma que ninguém pode questionar sob a penalidade de ser sumariamente rotulado como louco ou populista. Mais do que uma constatação técnica, a escassez foi convertida, ao longo dos séculos, em uma verdadeira filosofia de vida.

Para entender como fomos capturados por essa lógica, precisamos voltar ao século XVIII, o berço dos primeiros experimentos capitalistas. Naquela época, a Europa emergia de crises agrícolas e de um modelo feudal onde a fome e a limitação material eram barreiras físicas e imediatas. Quando os primeiros pensadores liberais começaram a formular suas teorias, a escassez era uma realidade brutal. Faltavam estradas, faltavam máquinas, faltava energia. Fazer a gestão da falta era o desafio urgente daquele tempo.

O problema central não é o diagnóstico que os liberais fizeram no século XVIII, mas o fato de que o discurso central dessa ideologia congelou no tempo.

Passamos pela Revolução Industrial, dominamos a automação, a biotecnologia e a inteligência artificial. Elevamos a capacidade produtiva humana a níveis que Adam Smith jamais ousaria sonhar. A escassez absoluta de outrora deu lugar a uma escassez que é, em grande parte, artificialmente produzida para manter mercados aquecidos e preços elevados. No entanto, a premissa liberal continua exatamente a mesma de trezentos anos atrás. Por quê? Porque a escassez deixou de ser um problema a ser resolvido e passou a ser a justificativa moral para a desigualdade!

Ao perpetuar o dogma da falta intransponível, o discurso liberal contemporâneo opera uma manobra cruel, mas matematicamente fria. A lógica se desdobra em um silogismo simples: se os recursos são tragicamente escassos, o mundo, por definição, não pode ser para todos. Não há lugar para todos na mesa, não há direitos universais possíveis, não há teto para cada indivíduo.

Dessa premissa fatalista, nasce a conclusão que sustenta o status quo: se o mundo não é para todos, qual é o critério mais “justo” para decidir quem herda a Terra e quem é deixado à margem? A resposta do liberalismo moderno é categórica: o mercado.

O mercado deixa de ser apenas uma ferramenta de troca e passa a ser o juiz supremo da existência. Sob o manto da neutralidade e da meritocracia, a eficiência dos preços substitui a justiça social: quem pode pagar, conquista o direito à vida, à saúde, ao espaço e ao futuro. Quem não pode, torna-se o subproduto inevitável de uma escassez naturalizada. Nessa visão, qualquer tentativa do Estado de fazer perpetuar os “desescolhidos” através de políticas sociais é lida como uma heresia: uma ingerência artificial no mecanismo de seleção dos mais aptos que, demonstradamente por mecanismos ainda que tortos, somente pode ampliar a escassez.

Essa lógica opera uma inversão bizarra na própria política. Sob o dogma da falta absoluta, os políticos liberais mais populares não são aqueles que prometem abundância ou direitos, mas os que prometem “maldades” — e quanto mais rigorosos e punitivos os cortes que anunciam, mais são aplaudidos. Há uma espécie de sadismo fiscal celebrado como responsabilidade. Afinal, no imaginário liberal, o maior inimigo nunca é a desigualdade ou a injustiça, mas a escassez. Diante da escassez qualquer concessão social é vista como uma ilusão perigosa.

Curiosamente, nessa mentalidade, até mesmo os desvios de caráter ou até uma pitadinha de corrupção por parte desses gestores tornam-se perdoáveis. O eleitorado tolera o vício moral do político contanto que ele mantenha o compromisso sagrado: deixar que o mercado selecione os melhores e mais aptos! A corrupção é vista como uma falha humana menor perante o pecado capital de tentar burlar as leis do mercado. Se os recursos são poucos, a prioridade absoluta é garantir que o filtro do dinheiro continue funcionando de forma implacável, mesmo que quem opere a máquina seja moralmente questionável.

Transformar a escassez em filosofia de vida é, portanto, a forma mais eficaz de nos fazer aceitar a exclusão não como uma escolha política, mas como uma lei inevitável da natureza.

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