
Os partidos políticos autênticos não podem se apresentar ao povo apenas como uma sigla. Por baixo desta deve haver algum conteúdo objetivo. Infelizmente, a esmagadora maioria dos 30 partidos brasileiros não têm sequer uma proposta política para apresentar à sociedade, inclusive em épocas de eleições, quando o que prevalece é a demagogia barata e os anúncios repetitivos de televisão pagos pelo próprio Congresso a fim de financiar uma corrente contínua de reeleições para a Câmara e o Senado.
Com isso as eleições, que poderiam ser como nas democracias avançadas um momento de renovação da representação política, tendem quase sempre apenas para confirmar nos cargos velhos oportunistas cujo mandato comprado serve exclusivamente para obter benefícios próprios ou intermediar favores para grandes magnatas. Borcaro, para usar um exemplo recente, literalmente comprou Ciro Nogueira por R$ 500 mil por mês para que o representasse no Congresso na questão relativa ao aumento do valor do Fundo Garantidor de Crédito.
A imprensa está cheia de outros casos semelhantes que vêm sendo investigados aos montes pela Polícia Federal. Entretanto, se fôssemos perder tempo para denunciar os escândalos da elite política atual em suas relações com a classe dominante, perderíamos a perspectiva do futuro para a Nação. E esse futuro, se os trabalhadores não inverterem a relação de classes com os capitalistas, significa que continuarão sendo estrangulados pelo poder econômico deles e será cada vez mais estreitado o espaço que ainda têm na sociedade para sobreviverem.
Estou analisando essa situação exaustivamente no artigo O Mundo do Trabalho, publicado na atual edição da revista Mutirão Solar que circula a partir de hoje, e voltarei ao tema oportunamente, em face da importância crucial que tem para o futuro do Brasil e do mundo. É que o estreitamento do espaço para os trabalhadores na sociedade capitalista não tem volta. Em algum momento do futuro esse espaço, na forma de emprego industrial ou agrário, como existe hoje, simplesmente desaparecerá, em função do rápido avanço da tecnologia.
Há fatores institucionais que, no Brasil, devido ao enfraquecimento do Trabalho em face do Capital, também contribuíram para expulsar os trabalhadores do antigo mercado de trabalho formal, relegando-os ao subemprego, à marginalização social, ao falso empreendedorismo individual e, no limite, à indigência – que afeta principalmente os inativos. Diante disso, o caminho de sobrevivência digna dos trabalhadores passa pela ocupação do espaço do próprio Capital, através da organização de Arranjos Produtivos Locais, Territoriais e Vocacionais.
O Arranjo se equipara a uma Sociedade Anônima integrada por trabalhadores e dirigida diretamente por eles de forma democrática, e seguindo as regras da Comissão de Valores Mobiliários. Pode referir-se a qualquer atividade econômica em que os trabalhadores tenham experiência, ou para a qual possam contratar consultorias ou assessorias especializadas. Nesse ponto, seriam autônomas e independentes de governos. O trabalho cooperativo lhe garantiria o máximo de produtividade e lucro, pois não haveria patrão para apossar-se deste.
Entendo que esta será a sociedade do futuro. Não por voluntarismo ou opção política. Mas porque os trabalhadores, sendo a grande maioria em qualquer sociedade, não teriam outros meios de sobrevivência a não ser juntar-se no APL. Pela marcha da História, encontrariam no APL uma proposta face aos desafios existenciais que estão sendo colocados diante deles: por um lado, resgatariam pelo socialismo a utopia de uma sociedade justa e de igualdade; por outro lado, consolidariam o Trabalho como a vanguarda produtiva concreta dessa sociedade.
É essa situação que pretendemos configurar na proposta política de uma Aliança Social Trabalhista, reunindo partidos e entidades afins com o socialismo e o trabalhismo. Se os partidos brasileiros atuais, com poucas exceções, não têm um projeto nacional, como se costuma dizer, apresentamos a Aliança Social Trabalhista como portadora do anúncio de uma nova realidade que abrirá os horizontes futuros e se constituirá como alicerce de uma nova era histórica onde desaparecerá a própria luta de classes, pelo formato empresarial do APL.
É providencial que diante disso tenhamos um Lula na Presidência, e com possibilidade indiscutível de ganhar seu quarto mandato. Não porque o atual esteja sendo muito bom. É justamente porque o Presidente, sem o conselho incompetente de Fernando Haddad e de outras figuras de seu círculo de ferro, pode se expor mais á crítica pública de forma a escapar das garras do neoliberalismo que tem mantido o Brasil próximo da recessão desde Fernando Henrique Cardoso. Entretanto o povo, junto com as críticas, tem que dar a Lula condições de governar, conquistando junto com a Presidência dois terços ou mais do Congresso Nacional.

