Calcio. Por Rubens Gennaro

0
17
calcio

Original em: https://hojepr.com/calcio/

Em Santa Felicidade, naqueles anos 40 em que domingo tinha cheiro de vinho caseiro, fumaça de fogão a lenha e graxa de caminhão, o futebol de várzea era assunto mais sério que reunião de gabinete. Casamento podia esperar. Batizado podia atrasar. Mas final de campeonato entre o Esporte Clube Quebra Osso e o Atlético Polenta Frita mobilizava até defunto no cemitério municipal, que, se pudesse, levantaria a tampa para ouvir o resultado. Naquela tarde ensolarada, o campo de chão batido fervilhava. Os velhos jogavam bocha de um lado, as crianças vendiam amendoim em cartuchos de jornal e os galos das redondezas, incomodados com a barulheira, cantavam fora de hora.

Havia até transmissão de rádio AM, coisa finíssima para o bairro.

O locutor, Ernesto Campagnolo, homem dono de uma voz que parecia engasgada em farinha de milho, berrava ao microfone:

— Atençãoooo ouvintes da Rádio Colina do Piemonte! Grande finalíssima diretamente do Estádio Municipal Vitório Pavinatto! Uma verdadeira batalha esportiva entre os titãs da pelota suburbana!E completava, nervoso:

— O Quebra Osso depende do talento incomparável de Fiorello “Perna de Aço” Bortoluzzi! Mas havia um problema.

Fiorello estava no vestiário, sentado num caixote de cerveja, quase chorando.

A unha do dedão do pé direito havia encravado de tal maneira que o homem não conseguia nem colocar o meião, quanto mais a chuteira. O dedão parecia um salame pressionado por arame farpado. O massagista da equipe, seu Neco Milani, examinou o estrago com expressão científica.— Isso aqui tá pior que rachadura em muro de olaria…

Tentaram de tudo Água quente. Pinga. Fumo de rolo. Benzeção.

Até um pedaço de polenta morna foi colocado sobre a unha, porque um tio garantiu que “puxava a inflamação”. Nada.

Fiorello estava praticamente fora da partida. Foi então que entrou esbaforido no vestiário o ponta-esquerda Toninho Cavazzoni:

— Fiorello! A Rosina veio! Silêncio absoluto.

Rosina Grespaniotto. Loira. Olhos claros.

Filha da tradicional família Grespaniotto, proprietária de vinhedos, galinhas gordas e três carroças. Moça disputada por metade dos rapazes de Santa Felicidade e cortejada há meses por Fiorello, que até aprendera a pentear o cabelo com brilhantina para impressioná-la. O craque levantou-se imediatamente.— A Rosina tá aí mesmo?— Sentada perto da bandeirinha de escanteio! Com vestido azul!

Fiorello olhou para o pé latejando e tomou uma decisão histórica.

Seu Neco, homem de medicina alternativa e soluções duvidosas, apareceu com uma receita infalível:— Urina de égua com óleo de rícino.

— Funciona?

— Nunca vi funcionar… mas piorar também nunca piorou. Misturaram o preparado numa caneca esmaltada. O cheiro era capaz de matar passarinho em voo baixo. Fiorello mergulhou o pé naquilo fazendo caretas que fariam um santo perder a compostura.

Cinco minutos depois, milagrosamente — ou talvez por puro desespero amoroso — conseguiu enfiar o meião e a chuteira. O estádio veio abaixo quando ele surgiu no gramado.

— FIORELLLLLOOOOO!!!

O locutor quase teve um desmaio ao microfone:

— Ele voltou! O homem voltou! Nem a medicina moderna explica esse acontecimento!

A partida foi um espetáculo de trombadas, poeira e confusão. O Quebra Osso batia mais do que jogava bola. O Polenta Frita respondia com carrinhos assassinos e cotoveladas diplomáticas. Fiorello correu como um condenado. Mancava, gemia, fazia caretas, mas sempre que passava perto da lateral olhava para Rosina, que sorria abanando um lencinho.

Aquilo valia mais que injeção. Aos quarenta e três do segundo tempo, porém, veio a tragédia esportiva.

Nandinho Polenteiro acertou um chute torto, a bola desviou no traseiro do zagueiro Cuca e entrou mansamente. Polenta Frita: um. Quebra Osso: zero. Fim de jogo.

O locutor anunciou, emocionado:

— O Polenta Frita é campeão! E o povo invade o gramado numa demonstração de descontrole coletivo!

Houve choro. Discussão. Duas galinhas desapareceram misteriosamente.

Um torcedor caiu dentro de um barril de vinho.

E Fiorello?

Ah… Fiorello perdeu o campeonato, mas ganhou coisa maior. Quando já retirava a chuteira com sofrimento medieval no vestiário, ouviu uma voz suave:

— Deve estar doendo muito…Era Rosina.

Dizem que Fiorello sorriu mais naquele instante do que quando aprendeu a andar de bicicleta sem cair na valeta.

Naquela noite comeram frango com polenta numa pequena cantina da família Grespaniotto. Comeram também na semana seguinte. E na outra. E em muitas outras noites de domingo.

O namoro virou noivado. O noivado virou casamento. E o casal abriu uma modestíssima casa de refeições que, segundo os mais antigos de Santa Felicidade, acabou se transformando num famoso restaurante do bairro.

Até hoje, contam alguns velhos frequentadores, existe pendurado numa parede um quadro antigo, meio torto, contendo uma relíquia bastante peculiar.

Uma unha. Amarelada. Heroica.

Provavelmente aromatizada com óleo de rícino e urina de égua.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here