A opção de meu filho Mauricio e a minha pelo PDT, nesses dias angustiantes da história brasileira, guiam-se por duas marcas que Leonel Brizola imprimiu inapagavelmente no programa do partido: a defesa da soberania nacional e a defesa dos trabalhadores.
Dois signos que também guiaram toda a minha vida política, desde a militância estudantil.
Sou da geração que saiu às ruas na campanha do “Petróleo é Nosso”, que se opôs ardentemente ao avanço imperial sobre as nossas riquezas, que perfilou com os trabalhadores por direitos, justiça e dignidade, que brigou uma vida toda pela construção de uma Nação soberana, desenvolvida, justa e feliz.
Uma das fotografias antigas que volta e meia replico em minhas páginas na internet é a de um encontro em Curitiba de meu pai com o presidente Getúlio Vargas.
Petebista, nacionalista da velha cepa, meu pai era naquela ocasião o candidato de Getúlio à prefeitura da cidade.
Quer dizer, as filiações do meu filho Maurício e a minha no PDT representam um reencontro familiar e político com o trabalhismo de Getúlio e de Leonel Brizola.
E quis a vida que esse reencontro desse em um dos momentos mais críticos da história de nosso país.
Realmente.
De nossa soberania o que resta?
O petróleo não é mais nosso, os pilares estatais e os pressupostos econômicos sobre os quais um dia Getúlio arquitetou o desenvolvimento nacional foram demolidos.
A financeirização da economia anula a nossa condição de Nação, transformando-nos em reles elo dos interesses da banca nacional e global.
Já os direitos dos trabalhadores restam brutalmente estraçalhados.
A CLT que Vargas inspirou está em frangalhos, desfigurada, com os assalariados desprotegidos e explorados com toques e retoques escravagistas.
E, para dar contornos ainda mais sinistros a uma realidade por ela mesma funesta, eis que o velho e tenebroso Tio Sam, tantas vezes enfrentado a unhas por Getúlio, Jango e Brizola manifesta-se neste momento com toda a sua vileza, arrogância e estupidez.
Não tivéssemos cedido tanto, não tivéssemos entregue tanto, não tivéssemos curvado tanto, o império norte-americano e os calabares brasileiros não ousariam ataques tão insolentes, tão desrespeitosos.
O atrevimento de Trump e de seus parceiros nacionais dá a medida de quanto a nossa soberania foi degradada.
Se você não se respeita, quem o respeita?
As privatizações, terceirizações, concessões, não apenas as praticadas por Fernando Henrique, Temer e Bolsonaro, mas também as que patrocinaram e continuam patrocinando governos supostamente à esquerda, debilitaram e apequenaram o Brasil-Nação.
O desmantelamento das estruturas e das políticas estatais, do planejamento, dos planos e metas, que induzissem, impulsionassem e sustentassem o desenvolvimento nacional, roubou-nos décadas de avanços e acrescentou mais algumas décadas no já bem fornido calendário de atraso.
O tripé, o famigerado tripé em cima do qual sustenta-se a nossa política econômica -câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário- sacratíssimo para os governos neoliberais e sacratíssimo também para os ditos de esquerda, engessa qualquer possibilidade de se romper as algemas do subdesenvolvimento, da subindustrialização, da desigualdade, da pobreza, da dependência, das perdas internacionais, como dizia Brizola.
Esse tripé, na verdade essa pesadíssima âncora que nos mantém estacionados, firmemente atolados no atraso, interessa a quem?
A quem interessa uma estabilidade econômica que estabiliza, que conserva a mais brutal das desigualdades de renda do planeta?
A quem interessa o controle de preços que sempre, e cada vez mais tira do pobre para premiar o rico?
A quem interessa manter equilibradas as contas públicas que destinam a metade do orçamento nacional ao pagamento de juros para a banca?
O tripé econômico, imposto ao país pelo mercado, é a sentença de morte às nossas pretensões, aos nossos sonhos de um Brasil soberano e desenvolvido.
O tripé é um golpe permanente, incessante, contra o nosso país e o nosso povo.
É uma conspiração infindável, dia após dia, contra o nosso futuro.
Não há futuro que se construa com o país atrelado a tais pressupostos.
Aí, se pergunta.
Aí pergunto: que democracia é essa que a toda hora somos convocados defender que se assenta sobre bases econômicas tão excludentes, tão desumanas, tão cruéis?
Em geral, quase sempre, a esquerda, os partidos ditos à esquerda, os chamados progressistas enchem a boca, e enchem os nossos ouvidos, falando em democracia, em defesa da democracia; mobilizam-se nas redes, no Parlamento e nas ruas contra a anistia aos golpistas; vibram com a condenação dos golpistas, esperam ansiosos ver o Bolsonaro na Papuda, mas permanecem indiferentes, coniventes e ignorantes em relação com a aplicação dos mandamentos econômicos neoliberais na vida diária do país.
Meu Deus do céu! Para onde migrou o tino dessa gente?
Em que esquina se perdeu a esquerda ou a meio-esquerda?
Onde, quando, por que desaprendemos, deixamos de considerar as óbvias relações de dependência entre a política e a economia?
Ou todo mundo se converteu a essa corrente despolitizada, desideologizada tão dominante nas redes sociais e cada vez mais presente nos partidos políticos ditos à esquerda.
Companheiras e companheiros.
Getúlio Vargas falava em trabalho missionário, catequético, quando insistia em nosso papel de educadores do povo, de esclarecedores da opinião pública.
De fato.
Nada mudaremos, não iremos a lugar algum, continuaremos a marcar passos no mesmo atoleiro se os brasileiros não tomarem consciência de sua realidade.
Sem que os trabalhadores, os assalariados, a classe média, os estudantes entendam toda a trama que mantém o Brasil subdesenvolvido, dependente, desigual e injusto, não avançaremos.
Acredito que este seja o papel de um partido político.
Este o nosso papel.
Educadores do povo.
Educar, organizar e mobilizar.
Venho ao PDT para colaborar nessa missão.
Darei aqui continuidade à minha pregação diária pela construção do Brasil-Nação, tendo sempre como norte dois pressupostos indeclináveis: a defesa da soberania e a defesa dos trabalhadores.
Agradeço a acolhida generosa ao Maurício e a mim.
Tenham certeza que viemos para lutar e honrar os legados de Getúlio Vargas, de Leonel Brizola, de Rubens Paiva e de tantos trabalhistas que se dedicaram e deram a vida em defesa de nossa soberania, pela construção de um Brasil próspero, forte e justo.
Que se dedicaram e consagraram suas vidas em defesa do povo brasileiro e de seus trabalhadores.
Minha gente, vamos em frente.
Apesar de tudo, com todas as dificuldades só nos resta um caminho, o caminho da luta, da resistência, da teimosa e imbatível crença na vitória.
Uma vida assim vale a pena ser vivida.


