A possível entrada do Canadá no BRICS, em meio a boicotes a produtos estadunidenses e com mais de 90% da população apoiando a redução da dependência em relação aos Estados Unidos, não seria apenas uma mudança de rota econômica: seria um verdadeiro terremoto geopolítico.
Desde a Segunda Guerra Mundial, o Canadá é um aliado incondicional de Washington, pilar da OTAN, integrante do G7 e totalmente integrado ao mercado americano pelo USMCA (antigo NAFTA).
Romper essa lógica e aderir a um bloco que hoje é a principal força de contestação à hegemonia dos EUA significaria, não apenas rasgar um capítulo inteiro da história das relações internacionais do país:
- Essa adesão canadense poderia transformar o BRICS de um agrupamento emergente em um polo central de poder global:
- Dotando o Bloco de uma capacidade ampliada para atrair até outros países do núcleo duro do Ocidente.
Mais que isso, seria a prova de que a ordem unipolar liderada pelos Estados Unidos já não consegue garantir lealdade nem mesmo em seu próprio quintal. E a garantia para Rússia, China, Índia, Brasil e África do Sul, também, de um imenso ganho simbólico e também político.
Do ponto de vista econômico, a mudança seria profunda. Mais de 75% das exportações canadenses têm como destino o mercado americano:
- E, reduzir essa dependência, implica, entre outras coisas, na reconfiguração de cadeias produtivas e na ampliação de acordos comerciais com China, Índia e Brasil;
- Promovendo a possibilidade de uma adesão mais ampla ao uso de moedas alternativas ao dólar — acelerando, assim, a tendência de desdolarização da economia mundial.
Além disso, o impacto na OTAN e no G7 seria inevitável:
- A “unidade ocidental” sofreria rachaduras visíveis, e Washington veria seu controle sobre aliados estratégicos fragilizado;
- Ao mesmo tempo em que países como Austrália, Coreia do Sul e até membros da União Europeia poderiam se sentir encorajados a buscar vínculos mais sólidos com o BRICS;
- Abrindo-se caminhos para uma multipolaridade mais consolidada.
Enfim, se confirmada, essa movimentação seria o maior desafio à hegemonia estadunidense desde o fim da Guerra Fria. Um sinal inequívoco de que o mundo está mudando — e de que o futuro não será escrito apenas em inglês, nem ditado apenas a partir de Washington.
Parece que, a duras penas, os EUA estão descobrindo que alianças exigem o selo da reciprocidade e amizades não se eternizam sob a égide da subserviência: afinal, até mesmo no quintal mais bem cercado, a grama também cresce para o lado do vizinho.
Se esse “bilete” for mesmo verdade, não é só a geopolítica que vai mudar — e a História não mais vai ter, exclusivamente, um único narrador.


