EUA avançam no “quintal” do Brasil e Argentina surge como novo pilar militar regional. Por Robson Augusto

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EUA avançam no “quintal” do Brasil e Argentina surge como novo pilar militar regionalDonald Trump e Milei ao fundo um caça f16

Original em: https://www.sociedademilitar.com.br/2026/01/eua-avancam-no-quintal-do-brasil-e-argentina-surge-como-novo-pilar-militar-regional.html?utm_source=wpp&utm_medium=grupos

A histórica doutrina diplomática brasileira de manter a América do Sul como uma zona de paz e sob sua liderança natural está sofrendo o maior teste do século 21. Enquanto o Brasil tenta se equilibrar na corda bamba da neutralidade global, o cenário ao redor mudou drasticamente: o que antes era considerado o “quintal do Brasil” está sendo rapidamente ocupado por potências estrangeiras que trazem consigo não apenas investimentos, mas riscos estratégicos sem precedentes.

A Reação de Washington: O Alerta da “Diálogo Américas”

Durante anos, o Comando Sul dos EUA (Southcom), através de publicações como a revista Diálogo Américas, que mantém textos em português e até alguns escritos por oficiais brasileiros, vem mencionando de forma enfática o avanço da China na região. O diagnóstico que vem dos militares dos Estados Unidos é claro: Pequim não busca apenas comércio, mas uma penetração profunda que mistura tecnologia de vigilância, infraestrutura crítica e, sombriamente, a expansão de redes criminosas transnacionais.

Em janeiro de 2026, a revista Diálogo mencionou em um artigo que o México se tornou um “campo de batalha crucial”, onde empresas estatais chinesas e o crime organizado se fundem em zonas cinzentas. Esse cenário de “opacidade institucional” é o que os EUA prometem combater ao oferecer parcerias militares aceleradas aos vizinhos do Brasil, como a Argentina e o Paraguai, apresentando-se como uma espécie de “alternativa confiável” contra a influência do Partido Comunista Chinês (PCC).

O Salto Tecnológico e militar: Os 24 Caças de Javier Milei

A movimentação mais visível dessa reação norte-americana ocorre em Buenos Aires. Após décadas de sucateamento, a Argentina consolidou a compra de 24 caças F-16 Fighting Falcon com o aval direto do Pentágono. As primeiras 6 aeronaves foram entregues em dezembro de 2025.

O pacote, avaliado em cerca de US$ 300 milhões, rompe o equilíbrio de poder local. Ao adquirir essas unidades equipadas com mísseis de última geração, a Argentina sinaliza que sua segurança agora está sob o guarda-chuva da OTAN. Para os estrategistas em Brasília, o alerta é duplo: a evidente perda da liderança regional e a constatação de que Washington está disposto a armar os vizinhos do Brasil para garantir lealdade total contra o avanço asiático.

Militares das Forças Armadas da Argentina e dos Estados Unidos reforçaram a interoperabilidade e as táticas conjuntas na Operação Tridente, na Base Naval Mar del Plata Fonte: Ministério da Defesa da Argentina

O “Cavalo de Troia” Criminoso e os Portos Estratégicos

Diálogo Américas revela que o controle chinês sobre infraestruturas, como o megaporto de Chancay no Peru, e a influência crescente no porto de Paranaguá no Brasil, pode estar criando corredores logísticos para as máfias chinesas.

A infiltração vai além da economia:

  • Tráfico de Fauna: Redes criminosas utilizam jaguares e madeiras exóticas como “moeda de troca” para pagar precursores químicos de fentanil provenientes da China.
  • Vigilância Digital: Empresas como Huawei e Hikvision são apontadas como vetores de vulnerabilidade digital em governos latino-americanos.
  • Narcotráfico: A conexão entre cartéis locais (Sinaloa, Jalisco e outros) com financeiros chineses para lavagem de dinheiro via Hong Kong é hoje a maior preocupação do Southcom na região.

O Brasil Fica com Quem?

Enquanto a Argentina e o Paraguai (que agora abriga engenheiros militares dos EUA em sua hidrovia) aceitam a proteção norte-americana para mitigar esses riscos, o Brasil se encontra em um dilema existencial:

  1. A Opção BRICS: Parte do governo vê na China o parceiro necessário para financiar a Base Industrial de Defesa que o Ocidente restringe.
  2. O Risco do Isolamento: Ao não se alinhar totalmente aos EUA, o Brasil pode perder acesso a informações sensíveis, inteligência e tecnologias de ponta, enquanto se torna, aos olhos de Washington, pouco confiável, um território vulnerável à “infiltração opaca” denunciada pela Diálogo.

A “política externa” militar ainda mantém um fio de confiança

Apesar do progressivo isolamento do Brasil no tabuleiro regional e da perda visível de capacidade de liderança estratégica na América do Sul, a política externa conduzida pelas Forças Armadas segue operando em um plano próprio, mais técnico do que diplomático. Trata-se de uma diplomacia fardada que tenta preservar vínculos com o eixo tecnológico e a doutrina militar ocidental, mesmo quando o país deixa de ser percebido como ator central na arquitetura de segurança regional.

Dados da Revista Sociedade Militar mostram que, entre 2018 e 2025, o Exército Brasileiro realizou ao menos 74 exercícios conjuntos com os Estados Unidos, um volume expressivo, mas que hoje contrasta com o fato de Washington priorizar acordos militares estruturantes com vizinhos do Brasil, como Argentina e Paraguai.

Enquanto a diplomacia civil brasileira oscila entre neutralidade e aproximação com o bloco sino-russo, as Forças Armadas buscam manter ao menos uma âncora técnica com o Pentágono, não para liderar, mas para não ficar definitivamente à margem de um rearranjo estratégico que avança sem o Brasil no centro.

A Hegemonia em Xeque

O sentimento nos corredores do Ministério da Defesa é de que o Brasil está perdendo a capacidade de ditar as normas em seu entorno. Se o país não retomar o protagonismo e oferecer uma alternativa de segurança robusta aos seus vizinhos, o “quintal”, ou entorno estratégico, continuará sendo disputado entre a força militar dos EUA e a expansão silenciosa da China. O Brasil corre o risco de se tornar um espectador em seu próprio continente, mesmo sendo o maior país da América Latina.

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