O Poder do Rentismo no Brasil e a Pabulagem de Que o Estado Gasta Demais. Por Ricardo Guerra

A Queda dos Juros Não É Uma Questão Técnica — É Política

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No Brasil, a Taxa Selic (taxa básica de juros da economia) sempre foi tratada como um fenômeno técnico, quase natural, restrito a planilhas, modelos econométricos e reuniões herméticas do Banco Central:

  • Essa narrativa cumpre uma função política muito clara;
  • Esconder que os juros altos são uma escolha de poder, não uma fatalidade econômica.

A Selic elevada, na verdade, serve para organizar a economia brasileira em favor do rentismo (o sistema financeiro, os detentores de títulos da dívida e os grandes fundos e bancos) — e isso desestimula o investimento produtivo, encarece o crédito e sufoca a indústria.

Ou seja, a Selic transfere renda de quem trabalha e produz para quem vive de renda financeira. Sendo, portanto, um instrumento de concentração de riqueza e de bloqueio do desenvolvimento.

Paralelamente, vende-se à sociedade o mito de que o “Estado é caro e ineficiente”: 

  • Lógica, segundo a qual o problema do Brasil estaria nos gastos sociais, no funcionalismo, nos investimentos públicos;
  • Narrativa que ignora, convenientemente, o maior dreno estrutural das contas públicas — o serviço da dívida — alimentado por uma das maiores taxas reais de juros do mundo.

Ao contrário, o Estado brasileiro não é grande demais para o povo — ele é, na verdade, apequenado para enfrentar o poder do mercado financeiro: visto que, quando se corta investimentos em ciência, infraestrutura ou políticas sociais em nome do “ajuste” da economia, não se está fazendo austeridade responsável; está-se preservando privilégios.

A austeridade nunca chega ao topo da pirâmide e o discurso do Estado mínimo também não resiste aos fatos:

  • Onde o mercado foi deixado sozinho — energia, transporte, saneamento, logística — o que se viu foram tarifas altas, serviços precários e falta de planejamento de longo prazo;
  • O mercado só se preocupa com um tipo de eficiência — maximizar lucro no curto prazo, de forma alguma organizar um projeto nacional.

Não por acaso, os países que hoje lideram a economia global abandonaram há muito o dogma neoliberal:

  • Estados Unidos, China e União Europeia praticam política industrial ativa, protegem setores estratégicos, usam bancos públicos e compras governamentais;
  • Enquanto o Brasil, quando aceita juros estratosféricos e demoniza o Estado, escolhendo a estagnação.

A queda dos juros, portanto, não é apenas uma discussão monetária. É uma disputa sobre que país queremos ser:

  • Um país que remunera o capital improdutivo;
  • Ou um país que investe em trabalho, indústria, ciência e soberania.

Romper com o rentismo exige coragem política, pressão social e uma mudança profunda de narrativa:

  • Juros altos não resolvem inflação de oferta e a inflação brasileira é, muitas vezes, cambial, energética e de alimentos;
  • Juros mais baixos não são irresponsabilidade, são condição para o desenvolvimento e o desenvolvimento também é política anti-inflacionária no médio prazo.

Enfim, um Estado forte não é um problema — é a única solução possível para um país que se recusa a ser eternamente periférico. O debate é simples: ou o Brasil toma as rédeas da sua economia, ou continuará sendo governado por ela e condenado à estagnação.

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