Original em: https://monitormercantil.com.br/guerra-e-paz-no-seculo-21-asia-europa-eurasia-e-oceania/
Ásia e Europa
A Ásia vive novo estágio civilizatório trazido pela República Popular da China (China). Em 18 de outubro de 2017, Xi Jinping pronunciou discurso histórico na abertura do 19º Congresso do Partido Comunista da China (PCCh). Em síntese ele afirmou que não eram mais necessárias metas econômicas, como as alcançadas pela China até então, surpreendendo o mundo; doravante seria perseguida a capacitação do povo chinês para promover o desenvolvimento social e tecnológico e colocar a China como o lugar ideal para se viver. Ocorreu também a inclusão dos “Pensamentos de Xi Jinping sobre o Socialismo com Características Chinesas na Nova Era” no estatuto do Partido, o que solidificou sua autoridade e ideologia como guia para o futuro da China.
Antes de desenvolver o que ocorre na China de 2025, é importante entender o que talvez venha se denominar Era Xi Jinping. Foram necessários dois passos para que Xi Jinping assumisse a direção deste Estado de 9,6 milhões de km², quarto maior do mundo, com população de 1,4 bilhão de habitantes, a 2ª maior do mundo, apenas inferior à da Índia. O primeiro ao assumir a liderança do PCCh, em novembro de 2012, e o segundo, em março de 2013, com a presidência da China.
Uma das primeiras medidas de Xi Jinping foi a criação de “um cinturão, uma rota”, em mandarim, Yīdài Yīlù, em setembro e outubro de 2013, no curso das visitas ao Cazaquistão e à Indonésia, que denominaremos Iniciativa do Cinturão e Rota (ICR).
É um erro vincular a ICR à Rota da Seda da Idade Média europeia, mesmo reconhecendo que aquelas trocas comerciais também envolviam elementos culturais e tecnológicos. A ICR é, ao mesmo tempo, um projeto geopolítico e geoeconômico, que dá aos parceiros igualdade de voz e voto nas deliberações, e, para tanto, os termos de execução são limitados a dois únicos participantes, sendo um a China.
Presentemente 149 países assinaram o Memorando de Entendimento com a China sobre sua participação na ICR: 61 da África, 37 da Ásia, 29 da Europa e 22 da América; o Brasil não é signatário. O desenvolvimento da China é compartilhado com parceiros em todos continentes, o que lhe dá um tipo de liderança que não se confunde com o colonialismo europeu e nem o estadunidense. Daí a força da multipolaridade que avança até para quem não seja signatário do Memorando de Entendimento da ICR.
Na tabela que segue, confrontamos dez países, escolhidos ao acaso, da Ásia e da Europa.
| País | População (milhões) | Alfabetizados (%) | Atendimento à saúde |
| Camboja | 17,90 | 80 | precário |
| Coreia do Norte | 37,00 | 100 | precário |
| Coreia do Sul | 51,70 | 98 | adequado |
| Filipinas | 117,30 | 99 | razoável |
| Japão | 123,10 | 99 | seguro universal |
| Laos | 7,65 | 85 | limitado nas áreas rurais |
| Mongólia | 3,52 | 99 | em desenvolvimento |
| Sri Lanka | 23,20 | 93 | público, universal |
| Tailândia | 71,70 | 98 | público, universal |
| Vietnã | 101,00 | 98 | universal |
| Albânia | 2,77 | 98 | público, universal |
| Finlândia | 5,60 | 100 | público, universal |
| Grécia | 10,40 | 97 | razoável |
| Hungria | 9,50 | 99 | universal |
| Irlanda | 5,20 | 99 | universal |
| Itália | 58,90 | 100 | público, universal |
| Lituânia | 2,90 | 99 | adequado |
| Polônia | 36,50 | 99 | universal |
| Portugal | 10,60 | 96 | adequado |
| Ucrânia | 37,00 | 99 | severamente afetado |
Embora haja dificuldade em diversos países na prestação de adequado atendimento à saúde, nota-se pelas taxas de alfabetizados a preocupação asiática com a formação da cidadania, nada devendo à europeia, considerando as populações a serem atingidas.
Antes da análise dos países da Europa, cabe breve consideração antropológica. Somos, homo sapiens (300 mil anos), ramo dos australopitecos (4 milhões de anos), como os neandertais (350 mil anos). Surgimos na África ao final da glaciação Würn, início desta era interglacial que vivemos. Os mares estavam concentrados nos polos como imensas geleiras, o frio intenso não permitia maior afastamento do que cerca de 200 quilômetros da linha do Equador. Para sair da África nossos ancestrais levaram uns 100 mil anos, em fluxos mais contínuos nos últimos 70 mil anos, saindo pelo Chifre da África e tomando o caminho da Ásia. A Europa ainda estava muito gélida.
Pode-se especular que este homem asiático chegou ao Mar Amarelo com imenso saber acumulado nas gerações que atravessaram florestas, rios, montanhas, enfrentaram seres nunca vistos e natureza ora benfazeja ora árida. O homem europeu chegou disputando com neandertais e homo habilis seu lugar literalmente ao Sol. Talvez seja o que fez dos europeus povos aguerridos e dos asiáticos povos pacíficos.
O fato da nossa história é que os europeus saíram conquistando terras e povos, e os asiáticos sofrendo seus “séculos de humilhação”, assim como nossos ancestrais africanos. A Europa persiste em construir sua história à revelia dos fatos, como na mais significativa guerra travada na Ucrânia, com repercussões por toda comunidade da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Não houve agressão militar da Rússia à Ucrânia, como insistem as mídias ocidentais. Os ucranianos são eslavos e cristãos ortodoxos, como os russos, seus idiomas são facilmente compreendidos, o que resultou terem muitas identidades nas formações dos países, especialmente após a dissolução da URSS.
A Operação Lava Jato, o Mensalão e as agressões da imprensa ao ministro Alexandre de Moraes não são criações brasileiras. Também surgiram na eleição de Viktor Yanukovych, que mantinha bom relacionamento com a potência vizinha, a Rússia. E tinha até razões de Estado, pois a antiga URSS entregara graciosamente a península da Crimeia à Ucrânia, em 19 de fevereiro de 1954, sendo dirigente soviético Nikita Khrushchev.
Incidentes pós-eleitorais são corriqueiros em países de baixa cultura política: acusações de fraude e corrupção, tendo os protestos na Praça Maidan (2013-2014) ameaçado a vida de Yanukovych, obrigando-o a se refugiar na Rússia. Daí por diante foram as potências ocidentais insuflando o despreparado como governante, comediante, ator, homem circense Volodymyr Zelensky a fazer o impossível: agredir militarmente a Rússia, na suposição que os embargos e sanções maciças e sem precedentes fizessem-na recuar.
Deu-se o contrário, foi a Europa Ocidental quem mais sofreu, principalmente sabotando os gasodutos (Nord Stream 1 e 2) que levavam gás natural da Rússia para Alemanha.
A Europa hoje ataca os emigrantes, indispensáveis onde as taxas de fecundidade são negativas, sente ainda o afastamento dos EUA, com suficientes problemas domésticos para se preocupar com os europeus, e colocam os membros da Otan na expectativa de que alguém acenda o pavio que lançará sua nem tão milenar cultura pelo espaço.
Há, realmente, o risco de guerra na Europa pelas ações dos seus governantes neste século 21. E não por qualquer reação russa.
Eurásia e Oceania
Um mapa político não pode ser, nem o é comumente, estático. Ele deve se adaptar à dinâmica das relações internacionais e aos rumos que os povos adotam. O que designamos Eurásia são países que têm a língua russa e o legado soviético em comum, mas diferem em religião e na tradição nômade. Eles se grupam num modelo multipolar para defesa socioeconômica; juntos são a 5ª maior reserva de petróleo do mundo, superando a do Iraque: Rússia, Cazaquistão, Azerbaijão, Uzbequistão, Bielorrússia, Quirquistão e Tajiquistão totalizam 145,644 bilhões de barris de petróleo.
A liderança russa é inquestionável e demonstra, mais uma vez, a falácia da transição energética como defesa ecológica. Trata fundamentalmente de recuperar o poder que o domínio colonial dera aos EUA, Reino Unido e França sobre as reservas de hidrocarbonetos do mundo árabe e suas independências lhes subtraíram.
A Eurásia fortalece a Ásia, que também a ajuda, em especial no indispensável suprimento e na comercialização da energia fóssil.
A Oceania nada mais é do que uma imensa e remota colônia do Reino Unido, da França e dos EUA. No campo mineral e energético têm expressão a Austrália (ferro, carvão, ouro, bauxita) e a Nova Zelândia (petróleo, bauxita e terras raras); no campo dos produtos agrícolas e florestais: a exportação de lã, carne, laticínios, trigo, cevada e frutas.
No entanto, se alguma catástrofe privar o mundo das exportações da Oceania, salvo as empresas diretamente envolvidas, ninguém, nenhum país, sentirá a ausência.
Não se deve esperar encontrar-se ali qualquer iniciativa bélica de âmbito maior do que o local.
E encerramos este artigo com as palavras do gênio Darcy Ribeiro, no último capítulo de O Povo Brasileiro – A formação e o sentido do Brasil (1995):
Nações há no Novo Mundo – Estados Unidos, Canadá, Austrália – que são meros transplantes da Europa para amplos espaços de além-mar. Não apresentam novidade alguma neste mundo. São excedentes que não cabiam mais no Velho Mundo e aqui vieram repetir a Europa, reconstituindo suas paisagens natais para viverem com mais folga e liberdade, sentindo-se em casa. É certo que às vezes se fazem criativos, reinventando a república e a eleição grega. Raramente. São, a rigor, o oposto de nós


