O bom pianista e seu automóvel. Por Rubens Gennaro

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aquarela de um automóvel

Original em: https://hojepr.com/o-bom-pianista-e-seu-automovel/

Na grudenta faixa de terra roxa onde a divisa entre os estados do Paraná e de São Paulo se desenhava mais por costume do que por régua, havia, nos anos 1950, um circo que vivia de estrada, poeira e promessas exageradas. Chamava-se Gran Circo Del Iguazú, nome que cabia bonito nos cartazes coloridos, embora o horizonte ao redor fosse quase sempre o mesmo: mata fechada, alguns pés de café, vento manso e um pôr do sol que parecia pintado com tinta barata.

Entre os artistas mais aplaudidos estavam os jovens trapezistas Maria Dolores e Valentino. Subiam às alturas da lona como dois pássaros elegantes — ela, morena de olhar dramático e sorriso capaz de fazer até o leão suspirar; ele, musculoso, bigode impecável e ciumento como touro em dia de feira.

Nos ensaios, o casal era pura poesia aérea. Nos bastidores, porém, era melodrama em estado bruto. Maria Dolores possuía uma qualidade rara: conseguia fazer qualquer homem acreditar que era o único no mundo. Isso funcionava muito bem para o público… e perigosamente bem para o dono do circo, o senhor Pérez, sujeito de chapéu branco, bigode encerado e bolsos sempre cheios de moedas que tilintavam como castanholas.

Numa noite abafada, após o espetáculo na ainda incipiente Londrina, enquanto Valentino polia as barras do trapézio e murmurava um bolero desafinado, Maria Dolores simplesmente desapareceu. Levou consigo uma mala pequena, dois vestidos de lantejoulas… e o próprio senhor Pérez, que sumiu junto com o caixa do circo e um caminhão Chevrolet de suprimentos.

Os dois fugiram às pressas rumo a União da Vitória, onde se hospedariam num hotel pertencente a um árabe corpulento e apaixonado por carteado — homem que conhecia mais blefes do que hóspedes. Porém, fizeram pernoite em Astorga, nos arredores de Londrina.

Quando Valentino descobriu a fuga, ficou primeiro pálido. Depois vermelho. E, por fim, adquiriu um curioso tom esverdeado que ninguém soube explicar.

— Traición! — gritou ele, atirando o chapéu no chão. Foi nesse momento que a tragédia encontrou a estupidez. Transtornado de ciúmes e com uma lógica emocional bastante questionável, Valentino resolveu vingar-se da única maneira que lhe ocorreu: dirigiu-se ao setor dos animais e abriu todas as jaulas. Todas.

O leão, o tigre, o urso, dois pumas, um lobo velho e até uma hiena que parecia ter diploma em mau humor. Os bichos, que já vinham comendo menos do que gostariam, receberam a liberdade com um entusiasmo francamente gastronômico. O caos foi imediato.

Entre gritos, poeira e chapéus voando, o destino resolveu o triângulo amoroso com uma eficiência brutal: Maria Dolores e o senhor Pérez, que haviam retornado discretamente ao acampamento para buscar mais dinheiro antes de continuar a fuga, acabaram encontrando primeiro o tigre… e depois o restante da fauna.

A comunidade circense passou aquela noite inteira correndo, rezando e prometendo nunca mais confiar em trapezistas apaixonados. Na manhã seguinte, o circo parecia uma reunião de sobreviventes de naufrágio.

Valentino foi preso pelas autoridades locais. Meses mais tarde, terminaria seus dias de maneira pouco elegante numa cadeia do interior, vítima de jagunços que achavam justiça mais rápida do que tribunal. Foi então que entrou em cena Alberto Fernandes.

Alberto, moço nascido no interior paulista e criado entre a adolescência e a juventude em Maringá, não era trapezista, nem domador, nem mágico. Era o pianista do circo — daqueles que tocam tudo: polca, tango, marcha, hino nacional e até música triste para enterro improvisado. Diante do desastre geral, Alberto tomou uma decisão prática.

Pegou o automóvel mais luxuoso que havia no circo — um reluzente Duesenberg 1939, orgulho pessoal do falecido senhor Pérez —, enfiou duas malas no banco traseiro, acomodou uma caixa generosa de garrafas de tequila e algumas de pinga de Morretes e partiu rumo ao sul. Dirigiu dias e noites por estradas de terra e chão batido, conversando com o volante e com as garrafas. Passou por Curitiba e desceu lentamente pela Estrada da Graciosa, contemplando a serra envolta em neblina. Finalmente alcançou o litoral e chegou a Caiobá, onde o mar parecia grande o suficiente para guardar qualquer segredo.

Ali Alberto decidiu mudar de vida. Primeiro mudou de nome. Depois mudou de nome outra vez. E depois mais algumas vezes, por puro hábito. Subiu a serra e veio morar no Batel, em Curitiba.

Com o tempo, começou a compor boleros e tangos — canções melancólicas sobre amores impossíveis, traições repentinas e corações despedaçados por trapezistas ingratas. Curiosamente, esses temas lhe vinham com enorme facilidade.

Adotou pseudônimos diferentes para cada estilo musical: um para boleros, outro para tangos, outro para rancheiras dramáticas. Em poucos anos, era sintonizado e aclamado em todas as rádios paranaenses. Alberto Fernandes também fez sucesso como cantor e apresentador em diversas outras rádios brasileiras. Os críticos elogiavam sua “profunda compreensão da dor amorosa”.

O público delirava. Cantores disputavam o direito de gravar suas composições. Francisco Alves, Vicente Celestino e o pessoal da Jovem Guarda, entre outros, emprestaram suas vozes às suas melodias apaixonadas.

Décadas depois, um jornalista curioso percebeu algo estranho: vários compositores famosos da indústria musical — todos extremamente produtivos — possuíam estilos suspeitamente parecidos. Investigando melhor, descobriu-se que muitos deles eram, na verdade, a mesma pessoa: Alberto Fernandes. Ou melhor: Alberto Dias, Alberto del Mar, Alberto do Batel, Albert do Parolin, Alberto dos Sete Bicos e mais alguns nomes que ele inventara ao longo da carreira.

Quando finalmente perguntaram a ele, já abastado e vivendo tranquilamente à beira-mar, por que havia criado tantos pseudônimos — e se pretendia voltar aos palcos paranaenses —, Alberto Fernandes respondeu com calma, servindo um copo de suco de uva, produto de cooperativa agroindustrial:

— Volto, sim, se for para a felicidade geral dos paranaenses!

Após um gole, suspirou e explicou:

— É muito simples… Cada vez que eu lembrava da Maria Dolores, e do que aconteceu no circo, precisava de um nome novo para assinar a próxima música.

Depois olhou o mar de Caiobá, rejuvenescido pela brisa e pela atmosfera marítima, balançou a cabeça com certa filosofia e concluiu:

— Porque inspiração é uma coisa bonita… mas fugir de circo com tigres soltos ajuda muito na produtividade. E o bom Duesenberg 1939 ainda funciona e pode transportar muita gente por todo o Paraná!

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