Original em: https://monitormercantil.com.br/guerra-e-paz-no-seculo-21-reflexoes-sobre-o-novo-estagio-civilizatorio/
Tal qual os astros vão alterando seus eixos e climas, ao se aproximarem ou se afastarem das estrelas, no planeta Terra, os seres que aqui surgiram também vêm mudando suas vidas e as compreensões sobre sua existência, avançando para novos estágios civilizatórios. E apresentam dois conjuntos de preocupações: as transformações do próprio planeta e os relacionamentos entre os seres vivos na ocupação dos espaços.
Simone de Beauvoir, que, com Jean-Paul Sartre, foram grandes influências para minha geração, escreveu, em 1957, A Longa Marcha, que inicia – “Preliminares” – recordando o convite que Zhou Enlai fizera durante a Conferência em Bandung, cidade da Indonésia, de 18 a 24 de abril de 1955: “Venha ver a China”. Estas “Preliminares” foram datadas de setembro de 1955.
Além de Zhou Enlai e do anfitrião Sukarno, esta Conferência contou com expressivas lideranças como Nehru, da Índia, Nasser, do Egito, Norodom Sihanouk, do Camboja, U Nu, da atual Mianmar e co-patrocinador da Conferência, Kwame Nkrumah, de Gana, Ali Bogra, do Paquistão e também co-patrocinador, Pham Van Dong, do Vietnã do Norte, e muitas personalidades que em seus países lutavam pela Independência, como Mohamed Boudiaf e Ben Bella, da Argélia.
Havia na década de 1950 verdadeira luta pela Independência contra os países colonizadores europeus, ora apoiadas pelos Estados Unidos da América (EUA) ora pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Exemplificando, temos Marrocos e Tunísia, em 1956, na África, Laos (1954) e Malásia (1957), na Ásia, e Cuba, nas Américas, que, mesmo sendo formalmente independente, alterou radicalmente a forma de governo do país em 1º de janeiro de 1959. O mundo se transformava e as duas grandes potências denominaram Guerra Fria.
Quanto à China, Simone de Beauvoir faz importante registro na obra referida: “Os tempos heroicos tinham terminado. O problema, no presente (anos 1950), era industrializar um país em que, em seiscentos milhões de habitantes, mais de quinhentos cultivavam a terra e setenta e cinco vivem do artesanato”.
Façamos o quadro desta evolução – total e rural – até 2025.
| Ano | População (milhões) | População rural (%) | Governantes |
| 1955 | 600 | 83 | Mao Tse Tung |
| 1978 | 963 | 71 | Deng Xiao Ping |
| 1989 | 1119 | 64 | Yang Shang Kun |
| 2005 | 1308 | 46 | Hu Jin Tao |
| 2013 | 1360 | 45 | Xi Jinping (início) |
| 2025 | 1416 | 32 | Xi Jinping |
É indubitável a mudança da China no século 21, e a governança de Xi Jinping imprimiu novo patamar na organização e na orientação do futuro da nação. Já não se trata de construir, como foi o desafio de Mao, um país industrializado. Mas de promover mais elevados estágios civilizatórios. Um sumário da presença humana no planeta é importante não só para identificação como para compreender as bases de sustentação dos estágios civilizatórios.
Sintética história da humanidade
O homem (homo sapiens) surgiu lutando; contra a natureza, animais e outros hominídeos. Venceu e perdeu. Venceu no domínio da Terra, mas perdeu por não saber assumir sua posição no Planeta. Precisou da muleta religião. Embora este fato seja descrito como normal, inevitável, ele causa hoje a importante diferença que coloca a China, e não qualquer outro país, na vanguarda civilizacional.
Consideramos religião o pensamento que coloca o homem como ser criado por um Deus a quem deve obediência e submissão. As religiões que congregam maior quantidade de adeptos são derivadas do judaísmo, que é datado de cerca de 4 mil anos, tendo como principais personagens Abraão, o pai do povo, e Moisés, divulgador dos Dez Mandamentos e responsável pela formação do Reino de Israel, consolidando esta religião monoteísta como ancestral do cristianismo e do islamismo.
A religião trouxe a mais antiga cizânia entre os homens: aqueles que acreditavam no Deus único, fosse Alah, Jesus Cristo ou qualquer outro derivado do judaísmo, e todos demais, hereges, ateus, que deveriam se converter ou morrer.
Na Ásia surgiram dois pensadores que não criaram religiões nem se colocaram como deuses: Sidarta Gautama (563 a.C. – 483 a.C.), no atual Nepal, conhecido como Buda, o iluminado; e Confúcio (552 a.C. – 489 a.C.), na China, lá designado Mestre Kong, Kong Fūzi.
O Ocidente tratou-os para que suas filosofias não ganhassem adeptos, não viessem concorrer com o judaísmo e suas ninhadas. Para Buda, definiu o budismo como religião, sem ritos, sem edificações características e sem formação de missionários para converter os hereges. Para Confúcio, latinizaram seu nome e colocaram-no num túmulo. Ninguém soube de Kong Fūzi fora da China.
Não se assombrem com este encobrimento. Aqui no Brasil, em 2006, quando a Petrobrás anunciou a descoberta de petróleo na Bacia de Santos, a mais de 7 mil metros de profundidade, Carlos Alberto Sardenberg e Miriam Leitão, ambos colunistas de O Globo, primeiro afirmaram que o petróleo descoberto na camada do pré-sal não existia, era invenção do Partido dos Trabalhadores (PT).
Não se sustentando a falácia, passaram a afirmar, não se sabe com que autoridade, que o Brasil não dispunha de tecnologia para explorá-lo. Mas, quando a Petrobrás fez os testes que trouxeram petróleo à superfície, foram categóricos: não havia recursos no País para produzir o petróleo do pré-sal. E foi este petróleo do pré-sal que garantiu a autossuficiência do Brasil, produzindo, em 2024, 4,322 milhões de barris de óleo equivalente/dia (óleo e gás natural).
Agora, caro leitor, imagine um pensador nascido cinco séculos antes de Cristo, na ignota China de então, sem apresentar uma divindade, ser objeto de divulgação e estudo pelos arrogantes europeus!
Em 2012, a organização The Pew Research Center’s Forum on Religion & Public Life apresentou um cenário do mundo religioso. A China aparecia com 92,3% de pessoas ateias. Análises mais recentes dão conta do crescimento do mundo islâmico, impulsionado por altas taxas de natalidade na África Subsaariana, e aumento de pessoas “sem afiliação religiosa”, em parte devido à “troca” de religião.
Também procuram explicar a quantidade de ateus na China, não pelo confucionismo, mas por política de Estado. O fato de buscarem pretextos para criminalizarem a China e o governo chinês é evidente demonstração de que o colonizador euroestadunidense não tem, em qualquer campo – militar, econômico, social, o que se dirá do civilizatório – como enfrentar a China do século 21.
A filósofa francesa Anne Cheng (1955), também reconhecida sinóloga, professora no Collège de France, tem em sua ampla obra a Histoire de la pensée chinoise, 1997, de onde trazemos o seguinte trecho:
Se Confúcio é um dos raros nomes que sobrevivem na cultura geral concernente à China e se tornou uma figura da cultura universal da mesma maneira que Buda, Sócrates, Cristo ou Marx, é porque com ele acontece algo decisivo, produz-se um ‘salto qualitativo’, não apenas na história da cultura chinesa, mas também na reflexão do homem sobre o homem. Confúcio assinala na China o grande desenvolvimento nas três outras grandes civilizações da ‘idade axial’, que é o primeiro milênio antes da era cristã: mundo grego, mundo hebraico e mundo indiano.
O mundo grego, que formou o Ocidente, está decadente, persistentemente belicoso, procurando se impor pela força das armas, pois perdeu o domínio da riqueza, agora monetizada pelos “gestores de ativos”. O mundo hebraico exacerbou sua condição étnica com o sionismo e passou a ser caracterizado pelo genocídio, degradando a própria condição humana.
O mundo indiano e o chinês, ambos sem deuses, são a esperança do futuro do homem. E não é por acaso que estes países, anteriormente colocados em confronto pelas potências colonizadores, em 2024 promoveram o desengajamento armado no controle das fronteiras, adotando patrulhamento pacífico, e abrindo novos caminhos como fundadores que são dos Brics.
Reflexão sobre o porvir
A filósofa estadunidense Nancy Fraser (1947), em seu mais recente livro Capitalismo Canibal: como nosso sistema está devorando a democracia, o cuidado e o planeta e o que podemos fazer a respeito (2023), escreveu: “Durante o século 20, alguns aspectos da reprodução social foram transformados em serviços e bens públicos, desprivatizados, mas não mercantilizados. Hoje, a divisão está se modificando de novo, na medida em que o neoliberalismo privatiza e mercantiliza esses serviços mais uma vez, ao mesmo tempo em que mercantiliza outros aspectos da reprodução social pela primeira vez”.
E, citando Marx (O Capital – Livro 3: O processo global da produção capitalista), Nancy Fraser afirma: “O capital está canibalizando o planeta”.
Com olhos sempre voltados para nosso País, este octogenário escriba tem concluído: estamos regredindo, na economia, nas relações sociais, na política, e onde você observar mais atentamente. Até o extraordinário avanço nas tecnologias comunicacionais tem servido para iludir, desinformar, piorar a compreensão da própria vida, caso contrário, jamais uma pessoa como Jair Bolsonaro seria eleita presidente do Brasil e teria força política que as eleições de 2026 irão testemunhar.
Nancy Fraser chama atenção para os dois “ex”: exploração e expropriação. Na exploração o explorador fica com a mais valia; mas na expropriação fica com tudo, muito mais do que um valor econômico, fica com a vida social, política, racial, ecológica, quiçá emocional, afetiva. E por todo volume, em suas 230 páginas, ela discorre sobre as expropriações. Cito: “A Covid é uma verdadeira orgia de irracionalidade e injustiça capitalista”.
Como matar esse monstro que devora a nós, a sociedade humana?
É aí que colocamos à reflexão o modelo chinês. Não é marxista, nem mesmo na compreensão maoísta, também não é capitalista, como se pretende da governança de Deng Xiao Ping. Nem confuciano, como amalgamou todas as experiências passadas Hu Jin Tao. É uma construção só possível com a participação de toda sociedade num processo em que as participações não são iguais, pois as compreensões dependem das existências cotidianas e estas são diversas. Todavia, não podemos vê-lo universal. Isso seria menosprezar as culturas. Colocar no mesmo conjunto as milenares subsaarianas e as recentes sul-americanas.
É um trabalho que pensadoras como as duas citadas neste artigo, Anne Cheng e Nancy Fraser, cada uma com suas especializações acadêmicas, nos têm apresentado ideias e elementos para reflexão. Mas que cairão no vazio se adotarmos a solução do bolsonarista governador do Estado de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas, para as escolas: privatização.
A escola deve ser pública, para que seja universal e gratuita, laica, para acolher todas as compreensões sobre o mundo e a sociedade humana, popular, no sentido inclusivo de todas as classes, numa sociedade excludente como a nossa, e de tempo integral, como os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), com atendimento médico, odontológico, oftalmológico, três refeições diárias, banho e horário para estudo e para fazer os deveres, conjugando a instrução brasileira com o trabalho de dois gênios brasileiros: Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro.
E para que esta instrução pública possa ter êxito ela não pode ser deixada nas mãos de prefeituras como existem hoje. Ela deverá ter início sob a condução federal, com vistas à descentralização na medida em que estiverem ganho o apoio de toda sociedade brasileira.


