A ” Mutirão Solar” e sua editorial. Por José Carlos de Assis

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Faremos neste sábado, a partir de 16h, uma reunião online para definir vários aspectos relacionados com a revista  Mutirão Solar e, em especial, com sua linha editorial e sua forma de financiamento. Criada no contexto da realização da COP30, a revista tinha, no início, um foco ambiental para edição única, embora já orientado para política,  economia e geopolítica, entre outros temas. Foi um êxito em termos de aceitação pública. Com isso, seus criadores começaram a especular sobre torná-la permanente.

A questão de conteúdo nunca chegou a ser problema. Tínhamos reunido um grupo de colaboradores voluntários que, diante dos compromissos dos editores de total independência da revista de grupos econômicos e políticos, se mostraram prontos a escrever artigos de altíssima qualidade para ela. Entretanto, financiamos a revista de número zero, destinada exclusivamente à divulgação e não à comercialização, com nossos próprios recursos. Nesse processo, eles foram esgotados.

Quando chegou o momento da edição de número 1, destinada à comercialização, esta ficou sujeita a um esquema de financiamento que envolveria acordos da revista com várias entidades parceiras, principalmente sindicatos. Ficamos na dependência da efetivação desses acordos, que ao final não se efetivaram. Entendemos que o motivo é que não foram compreendidos pelos sindicalistas e outras entidades da Sociedade Civil a que foram propostos. Isso não impediu que nossos recursos não se esgotassem.

Com isso, a edição de número 1 da  Mutirão Solar, que deve abrir uma etapa para sua comercialização definitiva e autossustentada – dependente mais do mercado do que dos acordos com as entidades parceiras -, ficou na dependência de recursos exclusivos de seus criadores. Entretanto, como dito acima, a edição de número zero esgotou os recursos deles, ao ponto de os deixar endividados. Este foi principalmente meu caso, o que me levou a pedir dinheiro a amigos inclusive para despesas pessoais.

Entretanto, é compromisso dos criadores originais de não abandonar o projeto, independentemente das dificuldades temporárias. Na busca de uma solução, pedi a ajuda de amigos, que me sugeriram a reunião de hoje à tarde, para discutir não só a questão do financiamento, mas também a questão da linha editorial da revista. Nesse caso, não terei dificuldade para apresentar desde já, nesta mensagem, o plano completo da revista não para uma, mas para as próximas edições.

Outro tema que gostaria de introduzir nesta reunião é que a revista Mutirão Solar, quando em pleno funcionamento, pretende liderar, junto com o jornalista Luís Nassif, os movimentos Projeto Brasil e Vamos Mobilizar o Brasil, com vistas a termos uma alternativa às mídias de direita e de extrema direita nas próximas eleições. No caso da revista, como editor-chefe, pretendo revolucionar sua linguagem, para alcançarmos as categorias sociais mais baixas. É o caso do artigo sobre clima que estou anexando.

A burrice econômica na era dos desastres climáticos extremos

Há muito tempo ouvimos a ladainha cantada na Faria Lima e nos redutos neoliberais sobre a necessidade de fazer equilíbrio fiscal e manter alta a taxa de juros para não correr o risco da volta da inflação. É uma baboseira gigantesca. Isso só interessa aos bilionários que vivem de uma especulação financeira frenética e desviam seus recursos do setor produtivo para o setor rentista, em franco prejuízo do povo, que não tem dinheiro para alimentação saudável  e mora nas periferias das cidades em casebres miseráveis, com péssimas condições de vida.

Tento explicar, mas nem sempre consigo, o que está por baixo dessa enganação com que os ricos, ajudados por pastores evangélicos vigaristas – como Edir Macedo e Malafaia – confundem a cabeça dos pobres fazendo-os aceitar como desígnio de deus a vida insuportável que têm. Assim, poucos no Brasil costumam revoltar-se quando tomam conhecimento de que um bilionário, quando deposita um bilhão de reais num banco, pode ganhar, num dia, sem fazer nada, 400 milhões de reais. Enquanto isso, um pobre que vive de salário mínimo ganha menos de 2 mil reais por mês!

Isso não é novo. Tempos atrás, no Nordeste, antes dos movimentos de renovação da Igreja Católica, padres ligados aos grandes usineiros ensinavam a seus paroquianos a seguinte quadra: “Meu bom Jesus da pobreza, tenha de mim compaixão, me dê um pedacinho do céu, não quero riqueza não!” É uma maneira infame de pregar o conformismo  com a miséria e legitimar  a exploração dos trabalhadores pela classe dominante. Hoje, quem faz isso são centenas de falsos pastores evangélicos que andam por aí vendendo o céu por dinheiro ou por interesse político.

Agora vejamos como os representantes das classes dominantes enganam o povo. Tudo começa com uma explicação furada sobre aumento do custo de vida. Na realidade, não há relação nenhuma entre inflação, custo de vida, política fiscal e a taxa de juros. Entretanto, sempre no fim do ano, quando se discute o orçamento público no Congresso, os neoliberais da Fiesp e dos grandes bancos unificam o coro a favor do corte de gastos públicos essenciais para a população (previdência, saúde, educação etc). A desculpa é garantir o equilíbrio fiscal. Mera chantagem. O que querem mesmo é estrangular as despesas em favor do povo e direcionar os recursos correspondentes para pagar os juros da Dívida Pública para os banqueiros ou para eles mesmos.

O que, na situação brasileira, efetivamente provoca inflação e aumento do custo de vida? Em primeiro lugar, são os preços públicos, como energia elétrica, que sobem em níveis muito superiores aos dos demais preços. O mesmo acontece com os preços do gás, da água, dos transportes, do diesel e da gasolina, que são direta ou indiretamente controlados pelo governo. Desse ponto de vista, não é o déficit fiscal ou uma taxa de juros alta que provoca inflação ou aumento do custo de vida. É o próprio governo. Além disso, somos uma economia dominada por grandes monopólios e oligopólios, que impedem a concorrência de preços.

Será que isso é difícil de entender? Claro que não. Qualquer economista de quinta categoria entende. Por que então a mídia insiste em dizer, quando o Banco Central mantém uma taxa básica de juros (Selic) extremamente alta, como atualmente (14,75%), que isso é feito para evitar o descontrole inflacionário? Isso acontece por uma de duas razões: ou pela burrice extrema da mídia, ou porque está vendida ao setor financeiro, que é o grande beneficiário dessa política. Ou pelas duas razões combinadas, burrice e cobiça!

Agora vejamos o que vai acontecer com o Brasil do ponto de vista fiscal e  monetário na era dos desastres climáticos extremos. Em primeiro lugar, pode esquecer o equilíbrio fiscal. A ocorrência de desastres climáticos  extremos em série nos mesmos lugares, ou sua ocorrência simultânea em diferentes áreas do País, ambas perfeitamente possíveis, implicará explosão do déficit público, não importa o que venham a dizer os neoliberais. Como se viu no Rio Grande do Sul, a opinião pública não aceitaria que o governo ficasse omisso diante das tragédias humanas e dos custos materiais ali verificados. Ele tinha que fazer alguma coisa.

Diante disso, o ministro Flavio Dino, do Supremo Tribunal Federal, mandou às favas as restrições dos neoliberais favoráveis à absurda taxa básica de juros (Selic a 14,75% hoje) e autorizou o governo a furar o tal “arcabouço fiscal” em mais de R$ 100 bilhões, para salvar vidas e cobrir os prejuízos do povo gaúcho com a tragédia. “Arcabouço fiscal”, para quem não sabe, é uma espécie de caixinha preta que combina  política fiscal restritiva com uma política de juros básicos altíssimos, do que resulta, na prática, restrição à produção física de bens e serviços e favorecimento descarado aos bilionários, supostamente para manter a estabilidade financeira.

Entretanto, até um economista de quinta categoria sabe que inflação é uma relação no mercado físico entre o total de bens e serviços comprados (demanda) e o de bens e serviços vendidos (oferta) . Se a demanda ficar muito acima da oferta, por causa do acúmulo de reposição de bens perdidos nos desastres climáticos, por certo haverá inflação. Então a inflação é inevitável e fica por isso mesmo? Não. Depende do que o governo fizer. Se ele cortar na demanda para ela se igualar com a oferta, a sociedade sofre duplamente, com o clima e com os cortes orçamentários. Mas o governo tem a alternativa de estimular o aumento da oferta. Para isso, as empresas têm que investir. E só investirão se o retorno do investimento for maior do que a taxa de juros (Selic), o que não acontece no Brasil  por causa da desenfreada especulação financeira.

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