Olhei no espelho e fiz uma pergunta a mim mesmo: será que tenho coragem de responder?
E pior… será que eu suportaria a resposta?
Há momentos em que fugimos das palavras, porque pensar dói menos do que encarar a verdade. E eu… não sei. Não sei se teria coragem de olhar nos seus olhos, filho, e aceitar que não estive lá — não ouvi suas primeiras palavras, não segurei sua mão, não servi uma simples colher de mingau. Como seria conversar comigo mesmo, sem cobrança, sem julgamento…
sem esse peso que me domina?
Segui em frente. Com você… ou sem você ao meu lado. Mas a verdade é uma só: se um dia eu te encontrar, se um dia eu aceitar não ser mais um pai ausente… saiba: eu me tornei homem. Mas um homem vazio. Surdo. Cego. Não vi. Não ouvi você me chamar de “pai”. E talvez você não saiba o que teria sido ter um. Me escondi. Mil vezes. Na escuridão da noite e na falsa luz do dia. Fugi da culpa. Fugi da covardia. Da coragem que me faltou para beijar sua mãe e dizer: “estou indo… mundo afora.” E fui.
Só não sabia que aquele passo me transformaria para sempre em um pai perdido. Um homem condenado a carregar esse vazio até o fim. Vivi. Experimentei. Mas sempre havia algo à minha frente… uma esperança torta, negativa, como uma sombra que nunca se concretiza. Talvez… em algum lugar… você tenha me visto de longe. Ou talvez isso seja só mais uma ilusão de um homem tentando inventar um encontro que nunca existiu. Senti sua falta — muitas vezes. Mas não posso dizer que senti sua presença. Porque a verdade é dura: eu nunca te vi. E pior… nem sei se sei te amar. Queria dizer que te amo. Queria dizer que ainda há tempo. Queria dizer que quero você por perto.
Mas nem isso eu sei. Talvez eu ainda esteja cego. E por isso… eu espero que você nunca me perdoe. Sim. Nunca. Que siga sua vida leve, sem o peso de alguém que não existiu. E se um dia o arrependimento me alcançar de vez, espero ainda estar aqui para sentir o golpe completo. Ser pai… eu nunca fui. E admitir isso é a única verdade que me resta. O tempo passou. O corpo cansou.
A mente se perdeu em mentiras que, de tanto repetir, viraram verdades mal resolvidas. Esperei a vida inteira por um momento que nunca chegou: chegar até você e dizer — “meu filho… eu estou aqui.” Mas não aprendi. Nunca soube como. E dói… dói não saber se você está vivo. Dói mais ainda saber que você também não sabe de mim. Eu queria ter vivido a vida ao seu lado. Compartilhado o mundo. E agora faço isso assim… em palavras soltas, jogadas num teclado frio que insiste: “aperte as letras certas.” Tarde demais.
Essa carta não é um pedido. Não é redenção. É só um fim. O passado passou. As dores ficaram. Mas hoje… eu estou em paz. E espero — sinceramente — que você também esteja. Essa foi a minha escolha. Essa viagem… foi minha.
E agora… eu não farei mais falta. Eu morri. Porque, para você… a verdade é simples: eu nunca vivi.
MANAOOS

