Justino e a Fraude (ou: abotoaram-lhe o paletó!). Por Rubens Gennaro

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Original em: https://hojepr.com/justino-e-a-fraude-ou-abotoaram-lhe-o-paleto/

Dizem que há frases que nascem pequenas e ganham pernas. Outras, mais ambiciosas, já nascem com elevador social e vaga no estacionamento coberto. A de que tratamos aqui pertence à segunda categoria. Curta, incisiva e com certa elegância fúnebre, ela ecoava por todos os cantos do prédio público:

— Abotoaram-lhe o paletó!

E não era eco discreto, desses que pedem licença. Era eco com sapato rangendo no mármore, atravessando corredores palacianos, escorregando pelos vãos dos elevadores, infiltrando-se nos banheiros, invadindo salas, cochichando nos gabinetes e, por fim, estacionando — com ou sem credencial — tanto no estacionamento coberto quanto no descoberto.

O protagonista involuntário da frase era Justino. Homem de hábitos corretos, bigode funcional e uma capacidade notável de nunca estar exatamente onde deveria estar quando algo acontecia. Funcionário de carreira, desses que conhecem o caminho mais curto entre a mesa e o cafezinho, Justino sempre cultivou uma reputação sólida: não fazia muito, mas também não atrapalhava — o que, em certos ambientes, já é quase uma virtude heroica.

Tudo começou com a tal fraude.

Ninguém sabia exatamente que fraude era essa. Havia quem dissesse que envolvia números. Outros juravam que eram documentos. Um terceiro grupo, mais filosófico, sustentava que a verdadeira fraude era o próprio sistema, o que, convenhamos, resolve qualquer dúvida sem resolver coisa alguma.

O fato é que, numa terça-feira que amanheceu com cara de segunda, alguém soltou a frase no corredor:

— Abotoaram-lhe o paletó!

E pronto. Foi o suficiente.

No início, pensou-se tratar de um caso de alfaiataria apressada. Um colega mais literal chegou a comentar:

— Mas já? Nem esfriou o tecido…

Logo se esclareceu que não se tratava de moda, mas de destino. “Abotoar o paletó”, ali, era expressão que dispensava explicações e convidava à imaginação. E a imaginação, como se sabe, quando encontra servidor público com tempo livre, vira romancista.

— É o Justino — disse alguém, com a convicção de quem nunca duvida de si mesmo.

— O Justino? — perguntou outro, já acreditando.

— Ele mesmo. Fraude.

A partir daí, o prédio entrou em regime de criatividade intensiva.

Nos elevadores, onde o silêncio é regra e o constrangimento é protocolo, passageiros olhavam para o painel como se ali estivesse a prova documental do escândalo. No terceiro andar, um assessor jurava ter visto uma pasta suspeita. No quinto, garantiam que havia um carimbo irregular. No subsolo, um vigilante afirmou, com autoridade, que “sempre desconfiou”.

— De quê? — perguntaram.

— Disso tudo — respondeu, satisfeito com a abrangência da explicação.

Enquanto isso, Justino seguia sua rotina, alheio ao próprio velório administrativo. Conferia papéis, alinhava canetas e cumprimentava colegas que, subitamente, passaram a retribuir com uma mistura de respeito, curiosidade e um leve recuo estratégico — como quem evita proximidade com possível manchete.

Foi só na hora do café que a notícia lhe chegou, servida junto com o açúcar.

— Justino, rapaz… — disse um colega, com aquela voz de quem traz solidariedade embrulhada em fofoca — estão dizendo por aí que te abotoaram o paletó.

Justino parou. Olhou para o próprio paletó. Desabotoou o botão do meio, por precaução, e respondeu:

— Mas eu estou vivo.

— Pois é… — replicou o colega, em tom filosófico — é o que mais intriga.

Intrigado ficou o próprio Justino, que passou a investigar a própria fraude com zelo incomum. Abriu gavetas, revisou documentos, consultou sua consciência — esta, meio enferrujada por falta de uso intenso — e não encontrou nada que justificasse o escândalo.

— Não fiz fraude nenhuma — declarou, para quem quisesse ouvir e para quem não quisesse também.

Mas a essa altura, a frase já tinha vida própria. E frase com vida própria não aceita contestação: aceita, no máximo, acréscimos.

— Não só fizeram fraude — dizia um agora especialista — como foi uma fraude sofisticada.

— Internacional — corrigia outro, ampliando horizontes.

— Com ramificações — acrescentava um terceiro, sem especificar em que árvore.

O ápice ocorreu quando alguém sugeriu uma comissão para apurar o caso. Criou-se, então, um grupo de trabalho cuja principal função era discutir o que, exatamente, deveria ser investigado. Reuniões foram marcadas, atas foram redigidas e conclusões preliminares foram adiadas com grande eficiência.

Enquanto isso, Justino, oficialmente sob suspeita de algo que ninguém sabia definir, começou a ganhar uma espécie de notoriedade inédita. Passou a ser cumprimentado com respeito renovado, como se a fraude — qualquer que fosse — lhe conferisse certa importância institucional.

— Está famoso, hein? — comentou um colega.

— Preferia estar inocente — respondeu Justino, com pragmatismo.

O desfecho, como costuma acontecer em histórias desse calibre, veio sem alarde. Um dia, sem mais nem menos, surgiu um novo boato, ainda mais suculento, envolvendo um contrato, duas assinaturas e um grampeador fora do lugar. O prédio, sempre ávido por novidades, migrou em massa para o novo escândalo.

A frase mudou:

— Agora sim, abotoaram-lhe o paletó!

E Justino? Bem, Justino foi desabotoado pela mesma força invisível que o abotoara. Voltou à sua mesa, ao seu cafezinho e à sua discreta irrelevância, que, convenhamos, é um lugar bastante seguro para se estar.

Anos depois, quando alguém menciona o episódio, ainda há quem jure que houve fraude. Outros garantem que não. E alguns, mais atentos, perceberam o essencial: naquele prédio, o que menos importa é o fato. O que importa é a frase.

Porque, uma vez dita — e bem espalhada — não há paletó que resista.

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