A Seleção Brasileira Perdeu A Essência E Esqueceu A Própria História E Identidade. Por Ricardo Guerra

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Nem sempre as derrotas se restringem ao placar de uma partida. Muitas vezes elas começam muito antes, quando uma equipe perde a conexão com aquilo que a tornou grande.

A eliminação do Brasil nesta Copa não foi apenas consequência de um jogo:

  • Foi o reflexo de um ciclo que não encontrou a organização há muito tempo perdida;
  • Mas, principalmente, se deve ao fato do selecionado nacional ter esquecido a própria identidade.

Havia qualidade suficiente para avançar:

  • Não era um time pronto para ser campeão, é verdade;
  • Mas era um time capaz de ir mais longe.

O que faltou não foi apenas futebol:

  • Faltou planejamento para transformar talento em equipe;
  • Faltou uma ideia de jogo consolidada e liderança nos momentos decisivos;
  • Mas, decididamente, faltou intensidade para competir até o último minuto – ou seja, aquela alma que sempre fez da camisa amarela algo maior do que um uniforme de equipe de futebol.

É indiscutível que as maiores seleções brasileiras sempre contaram com a genialidade de seus craques para vencer importantes competições – tais como a Copa América e a Copa do Mundo de Futebol. Mas todas as consagradas seleções nas quais excepcionais jogadores brasileiros fizeram parte, foram construídas sobre trabalho coletivo, planejamento e ousadia.

Foi assim, quando em 1958, após repetidos fracassos nas copas anteriores que culminou com o chamado “Maracanaço” na edição do evento em pleno território brasileiro (1950):

  • A delegação brasileira, chefiada por Paulo Machado de Carvalho, foi campeã mundial pela primeira vez, estabelecendo uma organização que contava até com Psicólogo;
  • E com o técnico Vicente Feola montando um esquema tático inovador que fazia com que Zagallo (então jogador) atacasse pela ponta esquerda e recuasse para marcar no meio-campo.

Foi assim também, quando João Saldanha ajudou a renovar uma geração extraordinária que não havia obtido êxito em 1966, e Zagallo (agora treinador), em continuidade a esse processo, organizou os inúmeros jogadores talentosos da seleção de 1970 que pareciam impossíveis de serem reunidos numa mesma equipe.

E, ainda, quando Parreira e Felipão mostraram novamente aos nossos jogadores que disciplina e criatividade não são elementos opostos, mas sim complementares, respectivamente em 1994 e 2002.

Enfim, o futebol brasileiro sempre foi muito mais do que individualidades, dribles ou improviso:

  • O nosso sucesso sempre veio da combinação entre genialidade, trabalho, inovação e coragem;
  • E o mundo aprendeu com essa Escola.

Uma Escola que, além da criatividade dos jogadores e do pensamento implementado pelos supracitados treinadores e gestores, foi formatada também pela força do trabalho realizado por Aimoré Moreira, Cláudio Coutinho e Telê Santana, entre outros. Mas que dela, infelizmente, a própria seleção brasileira tem se afastado.

Contudo, apesar do mau resultado agora obtido, de forma alguma é hora de decretar terra arrasada. E o alerta que fica é: já passou da hora da seleção brasileira recuperar a essência.

O talento continua existindo mas precisa ser reconstruída uma cultura em que o coletivo potencialize o individual:

  • Em que a organização caminhe ao lado da criatividade;
  • E em que vestir a camisa da seleção brasileira volte a representar um compromisso com sua história.

Na história da seleção brasileira, em todas as grandes conquistas, os nossos jogadores souberam incorporar solenemente a alma do Povo Brasileiro (trabalhador, alegre, criativo e solidário), ficando evidente, ainda mais após o recente revés contra a Noruega, que o Brasil não voltará a vencer apenas por continuar a revelar novos craques.

Voltará a vencer quando reencontrar aquilo que o tornou cinco vezes campeão do mundo:

  • Organização, identidade e pertencimento;
  • E a disposição de colocar, mais uma vez, a alma na ponta da chuteira.

É claro que também não podemos esquecer, nesse contexto, outro elemento – o imponderável. Afinal, nem tudo está destinado a ser como planejado, mesmo que todo o processo de planificação seja conduzido com esmero e submetido às melhores condições para que o sucesso aconteça.

No entanto, é preciso insistir – sem organização, identidade, trabalho coletivo e compromisso, o acaso raramente nos vai sorri.

O Brasil não construiu sua história baseada apenas em individualidades ou esperando milagres, e tanto no futebol, como na vida, o sucesso costuma contemplar aqueles que se preparam para merecê-lo.

Para a seleção brasileira, isso significa reencontrar sua identidade, honrar sua história e compreender, mais uma vez, que o talento individual só alcança sua plenitude quando colocado a serviço do coletivo.

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