Passou o dia 17 de julho.
Quem acompanha o tema certamente viu as publicações: empresas celebrando a proteção de dados, campanhas coloridas, slogans sobre privacidade, promoções, webinars, brindes, descontos e, naturalmente, muitos posts nas redes sociais.
Nós escolhemos o silêncio.
Não por desinteresse. Pelo contrário.
Esperamos alguns dias para falar porque a proteção de dados não cabe em uma data comemorativa. E porque, curiosamente, ela parece perder força justamente quando entra no calendário das “comemorações”.
Há um fenômeno curioso que se repete na sociedade. Algumas datas nascem para provocar reflexão, denunciar problemas ou reafirmar direitos. Com o tempo, transformam-se em oportunidades de marketing. O Dia do Consumidor talvez seja o exemplo mais conhecido: criado para lembrar a importância da defesa do consumidor, hoje é lembrado principalmente pelas liquidações que o mercado anuncia no dia 15 de março já há alguns anos.
Com a proteção de dados começa a acontecer algo semelhante.
Não há nada de errado em uma organização celebrar avanços, divulgar boas práticas ou prestar contas sobre suas iniciativas. Ao contrário, isso é desejável.
O problema surge quando a comunicação substitui o compromisso.
Quando a privacidade vira apenas uma campanha de julho.
Quando o discurso aparece por um dia e desaparece nos outros 364.
Proteção de dados não é uma ação publicitária. Não é um selo. Não é um diferencial competitivo que pode ser ligado ou desligado conforme o calendário.
É um direito fundamental.
E direitos fundamentais não dependem de datas para existir.
Eles exigem construção diária.
Exigem investimento contínuo, revisão de processos, governança, transparência, responsabilidade, prestação de contas e, sobretudo, respeito às pessoas.
Também exigem reconhecer que ainda há muito por fazer.
Vivemos uma realidade em que crianças são monitoradas em seus hábitos desde cedo; consumidores, igualmente, têm seus comportamentos constantemente acompanhados; trabalhadores são submetidos a decisões automatizadas pouco transparentes; e cidadãos frequentemente desconhecem como seus dados circulam, quem os utiliza e para quais finalidades.
Nesse contexto, talvez a pergunta mais importante não seja como comemorar o Dia da Proteção de Dados.
Talvez seja outra.
O que mudou, de fato, entre o dia 16 e o dia 18 de julho?
As pessoas passaram a compreender melhor seus direitos?
As organizações revisaram práticas inadequadas?
Os titulares ganharam mais autonomia?
As crianças ficaram mais protegidas?
A resposta para essas perguntas vale mais do que qualquer campanha.
Na nossa visão, o dia 17 de julho não é um ponto de chegada. É um lembrete.
Um lembrete de que a proteção de dados continua sendo um projeto coletivo, permanente e inacabado.
Por isso, preferimos falar hoje, depois da tão aplaudida e formal data.
Quando os algoritmos já deixaram de privilegiar o assunto.
Quando as campanhas terminaram.
Quando as felicitações institucionais se concentraram em um determinado dia midiático.
Porque é justamente nesse momento que permanece aquilo que realmente importa: o compromisso cotidiano com a dignidade, a liberdade, a autonomia e os direitos das pessoas.
É esse compromisso — e não uma data no calendário — que merece ser celebrado todos os dias.
Nosso trabalho é constante para levar a você conhecimento e exercício de direitos. Quem sabe daqui a alguns anos também comemoremos os avanços no dia 17 de julho, Dia Nacional da Proteção de Dados no Brasil.

