Há momentos em que uma negociação internacional pode ser compreendida com uma simples conta de padaria. No pior cenário, suponha que 30% das exportações brasileiras para os Estados Unidos sejam atingidas pela tarifa de 25%. Como o Brasil exporta cerca de US$ 37,7 bilhões por ano para o mercado americano, o prejuízo seria de aproximadamente US$ 2,8 bilhões anuais (30% × 25% × US$ 37,7 bilhões).
Agora compare esse número com o que estaria em discussão. O Pix movimenta cerca de US$ 7 trilhões por ano. Se apenas 0,1% desse fluxo passasse a gerar renda para empresas privadas estrangeiras, isso representaria aproximadamente US$ 7,1 bilhões por ano — mais que o dobro do custo estimado da tarifa. E isso sem considerar outra exigência atribuída às negociações: restringir a liberdade do Brasil para ampliar relações econômicas com a China em setores estratégicos, como minerais críticos e terras raras.
Há um detalhe que torna essa comparação ainda mais curiosa. A China compra do Brasil várias vezes mais do que o prejuízo máximo estimado com a tarifa americana. Enquanto as exportações brasileiras para os Estados Unidos giram em torno de US$ 37,7 bilhões, as vendas para a China superam US$ 90 bilhões por ano. Em outras palavras, para evitar um custo potencial de até US$ 2,8 bilhões, cogita-se aceitar concessões que afetam uma infraestrutura financeira estratégica e ainda criar dificuldades na relação comercial com o maior comprador dos produtos brasileiros.
Os Estados Unidos têm todo o direito de impor tarifas sobre produtos brasileiros. Essa é uma decisão soberana de qualquer país. O problema não é esse. O problema é que Donald Trump recorre a esse instrumento pela terceira vez para pressionar parceiros comerciais, em particular o Brasil. Quando a revisão unilateral das regras passa a fazer parte do método de negociação, a consequência inevitável é a deterioração da confiança. Empresas e governos passam a incorporar um novo risco: o de que acordos comerciais possam ser reescritos sempre que houver conveniência política em Washington.
Também é preciso olhar para o outro lado da mesa. Uma proposta dessa natureza dificilmente se sustenta por critérios econômicos. Se o custo potencial das concessões supera o custo da própria tarifa, a negociação deixa de ser uma discussão sobre comércio exterior e passa a ser uma discussão sobre interesses. Somente alguém profundamente deslumbrado com o poder americano — ou disposto a fazer corretagem do Brasil em troca de migalhas — conseguiria apresentar um acordo desse tipo como uma vantagem para o país.
No fim, a discussão não deveria ser entre nacionalistas e antinacionalistas, nem entre direita e esquerda, cima ou baixo ou frente ou atrás. A questão é de sanidade econômica. Quando uma simples conta de padaria mostra que o preço das concessões supera em muito o custo da tarifa, insistir no acordo deixa de ser uma posição econômica defensável. Resta uma explicação racional: o interesse não está na prosperidade do Brasil, mas na corretagem de suas riquezas.


