Garotinho ressurge como ameaça a paes. Por José Carlos de Assis

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Diante da decisão da Justiça que tornou inelegíveis mais de uma vez o ex- governador Garotinho e sua mulher, Rosinha, o falecido ministro da Previdência, Raphael de Almeida Magalhães – de quem fui assessor e confidente por anos – me surpreendeu com um comentário inesperado por parte do filho de Dario de Almeida Magalhães, um destacado membro da elite jurídica carioca: “As classes dominantes brasileiras não aceitam que um político popular, como Garotinho, usem o poder a favor do povo pobre. Sempre inventam um pretexto para persegui-lo como populista.”

Fiquei espantado porque também eu não tinha me dado conta de que a perseguição a Garotinho fazia parte de uma tradição política brasileira que vinha desde o tempo em que Getúlio Vargas foi levado ao suicídio pelas classes dominantes, aliadas a militares instigados por Carlos Lacerda, que o acusavam de corrupção e populismo.  Isso aconteceria também quando Jango foi derrubado pelo golpe militar de 1964, a pretexto de defender o País do comunismo, e Garotinho e sua mulher Rosinha tornados inelegíveis por suposta compra de votos, anos depois.

Se o político no poder tenta fazer algo em benefício do povo, mesmo que seja pouco, recusando-se a garantir os favores econômicos tradicionais às classes dominantes, sempre apare um pretexto para afastá-lo do cargo. No caso de Garotinho, criador do Restaurante Popular na Central do Brasil, depois expandido para  Bonsucesso, Bangu e Campo Grande, no Rio,  houve protestos porque garantiu a milhares de pessoas pobres terem acesso a um ou dois pratos de comida e lanche por dia e por um real, medida classificada como populista.

Com a mulher de Garotinho, Rosinha, houve várias prisões e condenações, algumas dos dois juntos, no Governo estadual ou em Campos. Mesmo que houvesse razões para esses atos judiciais, os motivos fundamentais eram os interesses de classe contrariados por trás delas. É claro que ninguém derruba um governador do poder sem provas de que tenha feito algo de errado. A discriminação está no fato de que o governador protegido pelo poder do dinheiro escapa facilmente da Justiça, e o desprotegido não.  Isso, finalmente, parece estar começando a mudar em relação aos congressistas, a partir do momento em que o ministro Flávio Dino decidiu atacar as emendas parlamentares viciadas pela corrupção.

Voltando a Raphael, agrada-me que o TSE esteja reexaminando a decisão judicial anterior a fim de restaurar o direito de Garotinho de disputar as eleições deste ano. Principalmente porque estávamos correndo o risco de ter que entregar o Governo estadual a Eduardo Paes, um candidato que se considerava imbatível, a despeito de toda a incompetência que demonstrou em sua administração da cidade do Rio. O fato é que as instituições municipais de saúde estão sem remédio, nas de educação faltam professores e até merenda para os alunos, e os transportes públicos submetem cidadãs e cidadãos a um sacrifício diário quando tem que sair de casa ou voltar do trabalho.

Enquanto isso, Paes promove festas em Copacabana, com artistas estrangeiros e nacionais, reunindo na praia uma assistência de milhões de pessoas com as quais ele imagina poder obter votos do povo. Por cima disso, transformou o Rio numa espécie de carnaval permanente.  É muito bem protegido pelas classes dominantes, principalmente por O Globo, embora nesse caso pelo menos alguns jornalistas mais independentes, como Edmilson, do G1 e G2, o criticam duramente por deixar a cidade às baratas, dominada por buracos nas ruas e uma extrema sujeira que jamais poderia ser tolerada numa cidade turística.

Para surpresa de muita gente que acredita que Garotinho está morto politicamente, ele pode ressurgir das cinzas, a partir de suas bases no interior do Estado, e ganhar a eleição de Paes. Será uma derrota das oligarquias que, na fusão da antiga Guanabara com o velho Estado do Rio, trouxeram para o Estado remendado os vícios que militares aliados com oligarcas do antigo PSD, que traiu Vargas, trouxeram do interior fluminense para o pequeno Estado melhor governado da história do País, a Guanabara de Carlos Lacerda.

O almirante Faria Lima,  a quem foi dada pelos militares a condução do novo Estado, não teve qualquer consideração com os pobres, e só se interessou por agradar os ricos. O preconceito contra as camadas mais baixas da população surgiu espontaneamente numa conversa informal que tive com o secretário do Planejamento, Ronaldo Costa Couto, a quem eu assessorava no terceiro escalão do Governo.  Para meu espanto, ele justificou a decisão de não construir o metrô ligando a Zona Norte à Zona Sul, por um túnel, porque isso entupiria as melhores praias  do Rio com a leva dos miseráveis que viriam dos subúrbios e da Baixada.

A corrupção que grassou no Estado nos anos mais recentes teve suas raízes numa espécie de vingança contra as classes dominantes. Os que estavam chegando, sustentados pelo voto limpo ou sujo, pareciam determinados a partilhar com as oligarquias antigas dos privilégios que até então eram só delas. Garotinho e Rosinha estiveram nessa trilha, mas não deixaram de tomar iniciativas a favor do povo pobre. Isso, para as classes dominantes e as elites, era intolerável. Portanto, tinham que ser cassados ou tornados inelegíveis por longo tempo.

A volta de Garotinho às urnas é importante para o Estado do Rio, embora sua candidatura definitiva ainda esteja pendente de decisão judicial. De qualquer forma, valem os exemplos recorrentes que vem desde Getúlio: se o governante trabalhar pelo povo e der as costas para as oligarquias econômicas, deve ser afastado do poder ou levado ao suicídio. A situação só voltaria  ao caminho normal do equilíbrio de forças entre classes dominantes e classes dominadas se os pobres, que não têm dinheiro para comprar o Congresso e a Justiça, transformassem seu número num instrumento de poder político, através de manifestações em massa nas ruas ou pelo voto nas épocas de eleições.

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