
Fenômeno El Niño provoca o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico e pode alterar o regime de chuvas e temperaturas em diferentes regiõesCrédito: IA / Brasil 247
A primeira pergunta que temos a fazer é: o que cada ente que constitui os Poderes da República do Brasil fez para mitigar as tragédias previstas? O que foi feito em cada âmbito de ação — Prefeitos e Câmaras de Vereadores, Governadores e Assembleias Legislativas e Presidente e Congresso Nacional? Eu acho que fizeram muito pouco. Mas adianto que não tenho, como quase ninguém tem, informações concretas do que foi feito para evitar que se repitam as tragédias, como as enchentes no Rio Grande do Sul; a seca e a diminuição dos volumes de água para agricultura, produção de energia e consumo humano no Nordeste; as queimadas com redução das chuvas no Norte e Centro-Oeste; e a confusão climática em São Paulo, com períodos de seca combinados com chuvas torrenciais, ventos severos e incêndios. Tudo isso já assistimos recentemente no Brasil. O último Super El Niño ocorreu no biênio de 2015/2016, mas tivemos um Forte El Niño em 2023/2024, com consequências severas para uma parte da população brasileira. Quem não se lembra das queimadas nos seringais, pastagens, citricultura e canaviais em São Paulo?
O Boletim Mensal nº 2, “PAINEL EL NIÑO” (INMET, INPE, ANA e outros), faz um diagnóstico preciso do que poderá acontecer em nosso país com o Super El Niño que está começando. Infelizmente, os projetos de obras estruturantes de médio e longo prazos praticamente não existem, assim como os de curto prazo; resta-nos esperar pelas tragédias e que os órgãos competentes apareçam para prestar solidariedade e socorro.
Por convenção internacional consolidada, os fenômenos chamados de El Niño são divididos em quatro níveis, de acordo com a elevação da temperatura da água em uma zona na região equatorial do Oceano Pacífico: a Zona Niño 3.4, usada por cientistas e órgãos de meteorologia para definir a intensidade do El Niño e da La Niña. O El Niño é considerado fraco quando a temperatura sobe 0,5 ºC acima da média; moderado, com mais 1,0 ºC; forte, com 1,5 ºC; e muito forte (o Super El Niño), com mais de 2 ºC.
O fenômeno El Niño já acontece há milênios e tem relação apenas indireta com o aquecimento da Terra, que teve início há mais de 10 mil anos. Não tem relação direta com o que se convencionou chamar de “aquecimento global”, decorrente da elevação da quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera — este último motivado pelo significativo aumento da população humana e pelo desenvolvimento econômico dos últimos três séculos, o qual, até os nossos dias, não conseguimos controlar totalmente no tocante à subida das concentrações de gás carbônico. Veja meu artigo publicado em 21/09/2024 no Brasil 247, “O Brasil está ou não pegando fogo?”.
Uma coisa é o aquecimento global, outra são os fenômenos El Niño e La Niña que, cientificamente, só foram explicados e definidos em termos meteorológicos por Jacob Bjerknes, em 1960. Ao analisar os estudos e descrições geográficas registradas desde o século XIX, constatamos que o aquecimento oceânico tinha relação direta com as mudanças de direção das correntes de ventos equatoriais e da pressão atmosférica. Porém, o nome El Niño já era usado pelos pescadores da costa do Peru e do Equador havia muitos anos. Eles observaram que, quando apareciam correntes aquecidas no Pacífico, no final de dezembro, os peixes sumiam; então batizaram esse fenômeno de Niño de Navidad e aproveitavam para reformar as redes e os equipamentos de pesca.
No final da década de 70 do século XIX, o mundo enfrentou uma grande seca que atingiu o Nordeste do Brasil, a China e a Índia. Hoje, os cientistas definiram que esse fenômeno se tratou de um Super El Niño. À época, morreram mais de 30 milhões de pessoas no mundo e mais de 400 mil no Nordeste, em particular no Ceará, o que significava mais de 10% da população. É atribuída a Dom Pedro II a frase sobre a venda das joias da coroa, caso não houvesse dinheiro para resolver a crise com aquela assombrosa seca. Entretanto, até hoje, além de alguns açudes e barragens, a principal obra estruturante de combate à seca, que merece destaque — apesar da crítica dos ambientalistas fundamentalistas —, é a transposição do Rio São Francisco, iniciada em 2007, no segundo governo do presidente Lula, e que ainda não está totalmente concluída, pois ainda faltam ser construídos os trechos complementares.
A grande região apelidada de Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) não está preparada para enfrentar um Super El Niño, assim como os demais estados do nosso país. No Brasil, é comum vermos pessoas militarem contra o desenvolvimento, como se fosse possível parar o tempo. Gasta-se muita energia para conter essas ações antiprogresso, como foi o caso da própria transposição do São Francisco, ao mesmo tempo em que os Poderes constituídos menosprezam planejamentos estruturantes para o enfrentamento aos fenômenos climáticos.
É certo que temos de mitigar qualquer agressão ao meio ambiente ao efetuarmos obras de grande porte, mas, sem ações que modifiquem o curso natural, contando somente com a simples “vontade” da natureza, não criaremos condições de habitabilidade para mais de 200 milhões de pessoas em nosso país. A falta de água no Nordeste, as enchentes no Rio Grande do Sul, o abastecimento hídrico das megalópoles, entre outras situações de descompasso entre a natureza e a vida moderna do ser humano, somente serão equacionadas com grandes obras de engenharia e desenvolvimento tecnológico e científico para modificar o meio ambiente, mitigar as agressões à natureza e preservar a saúde ambiental.
Tudo isso depende dos Poderes municipais, estaduais e federal, do desenvolvimento social e científico, da pressão popular a favor do progresso, enfim, da política, na acepção da palavra. Aqui se agiganta o debate político que, infelizmente, está limitado a polarizações restritas às poucas linhas do X, do Instagram e a caras e bocas projetados pela internet. Nosso país precisa mudar essa situação e discutir um projeto nacional de longo prazo. No caso dos fenômenos climáticos, o imenso Pacífico é um dado da realidade; a natureza que o criou há milhões de anos irá modificá-lo no futuro, e nós temos, aqui no Brasil, de criar as condições para garantir vida em boas condições para a nossa população.
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança,
Todo mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.”
(Camões)

