Carta às centrais sindicais. Por José Carlos de Assis

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Nesta segunda-feira, 24/08/2026, reúnem-se em S. Paulo, como fazem regularmente,  as 16 Centrais Sindicais que representam os trabalhadores brasileiros, dos quais 9,1 milhões de sindicalizados e 92,2 milhões não sindicalizados. Em pauta o tema mais provável são as eleições. Gostaria  que fosse mais do que isso. Para o País como um todo, as Centrais, por serem institucionalizadas e com uma ampla base organizacional, deveriam ser a efetiva vanguarda da sociedade diante das classes dominantes e das oligarquias  que, na base da corrupção, comandam efetivamente o Estado.

As eleições, obviamente, são importantíssimas. São a única oportunidade em que trabalhadores e o povo em geral podem competir com as classes dominantes e as oligarquias para a afirmação de seus interesses, através da política. No caso brasileiro, como tem sido notório – vide Daniel Vorcaro -, a corrupção da maioria do Congresso, que é a linha de transmissão entre as classes dominantes degeneradas e a tecnocracia estatal que assume suas demandas no Estado, afasta o Governo do povo e impõe suas próprias prioridades, como fazem os barões da Faria Lima e da Febraban.

Essa linha de transmissão tem que ser quebrada. É uma ilusão que isso pode acontecer apenas pelo compromisso do Executivo com os trabalhadores. O que tem que acontecer é justamente o contrário. Os trabalhadores têm que reunir todas as suas forças para tomar a maioria do Congresso Nacional e barrar a compra de parlamentares da Câmara e do Senado pelos magnatas, principalmente do setor financeiro – o setor da economia que ganha bilhões de reais sem fazer nada, apenas especulando (rentismo) na sombra de um poder público complacente.

Na realidade, o que é preciso fazer é submeter ao interesse público a tecnocracia estatal que, em geral, seja pela força da corrupção, seja pelo desvio ideológico, impõe ao País uma política econômica que o retira do caminho do desenvolvimento sustentável. Temos tido taxas de crescimento econômico ridículas, em torno de 2%, as menores entre os principais países do BRICS, inclusive a Rússia,  que está em guerra. Não obstante, somos uma das nações mais ricas do mundo em termos de recursos naturais e humanos, pronta para decolar, mas com uma decolagem sempre adiada.

É nesse contexto que deve ser avaliado o comportamento das Centrais Sindicais. Elas precisam colocar pressão  sobre a política econômica e outras políticas públicas numa relação direta com o Executivo, por cima das demandas das classes dominantes mediadas pela tecnocracia. Não adiantam conversas de bastidores, em especial nos períodos eleitorais, como agora. Elas têm que tomar consciência de que a tecnocracia governamental costuma ser sua inimiga, e não aliada. Para mudar esse quadro os trabalhadores só têm uma arma: a mobilização nas ruas e praças públicas, sinalizando o que irão fazer nas urnas.

Os três  grandes desafios que o Brasil enfrenta atualmente são o desemprego crescente e inevitável devido ao explosivo progresso tecnológico; os desastres climáticos extremos; e a indesculpável falta de moradias para milhões de brasileiros que vivem nas periferias urbanas. Para o desemprego em expansão só há um remédio, segundo penso: multiplicar o número de Arranjos Produtivos onde possam se abrigar os desempregados, subempregados e desalentados gerados pelas máquinas, tornando-se, eles mesmos, assistidos pelo Governo, donos de seus próprios negócios; quanto a moradias, trata-se de construir pelo menos 4 milhões por ano.

É claro que há outros graves problemas no País como segurança, educação, saúde, saneamento básico, transportes etc. Contudo, os que destaquei são desafios que exigem respostas estratégicas, com uma mudança fundamental na orientação política do Governo, apontando para uma mudança de Era.  É que, da escalada do desemprego, contraditoriamente, nascerá uma nova sociedade, que chamo de Social Trabalhista. Ela levará à transição do sistema capitalista para o sistema social trabalhista, onde o cidadão ou cidadã trabalharão para si mesmos, e não para um patrão.

As Centrais Sindicais, como entidades voltadas para a  defesa dos trabalhadores, devem se mobilizar para forçar a tecnocracia estatal a empunhar a bandeira dos Arranjos Produtivos Locais e Territoriais (rurais), e Vocacionais (urbanos). É nesses espaços que os desempregados e subempregados pelo progresso tecnológico encontrarão, no futuro (alguns já atualmente, mas em escala pequena), seus meios de trabalho e de sobrevivência, para si e suas famílias. Também nesses espaços será resolvido um dos mais angustiantes problemas do País, o financiamento da Previdência Pública.

Os trabalhadores atualmente na ativa, inclusive as Centrais, talvez não estejam percebendo que a Previdência Pública vai quebrar brevemente, enquanto os barões da Faria Lima e da Febraban, defendendo o equilíbrio fiscal neoliberal e a alta taxa de juros, heroicamente resistirão a pagar novos impostos para que o orçamento fiscal cubra os buracos previdenciários. Com isso, a maioria dos trabalhadores que vai se aposentar nos próximos anos estará condenada à indigência, tendo em vista os baixos valores das aposentadorias e pensões que lhes serão reservados.

O outro ponto que mencionei e para o qual quero chamar a atenção dos sindicalistas refere-se aos desastres climáticos extremos. Como o desemprego tecnológico, eles são inevitáveis. A COP30 reconheceu isso e recomendou, como alternativas, políticas de prevenção, resposta rápida e reconstrução. Entendo que, como o desafio do clima se aplica a todo mundo, as Centrais deveriam, também aqui, dar sua contribuição na condição de defensora dos interesses dos trabalhadores. Que exijam para isso, da tecnocracia pública, um protocolo de ações de prevenção aplicável em todo o País, até o nível municipal.

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