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O Barão do Serro Azul, Vicente Machado e Sérgio Moro

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Recentemente estive em Curitiba e fui convidado para realizar o passeio ferroviário pela Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá até Morretes, descendo Serra do Mar Paranaense, através de área contínua preservada de Mata Atlântica do Brasil. Fiquei impressionado com a paisagem, um dos trajetos de trem mais belos que já fiz.

A certa altura da jornada, o guia turístico relatou que o Barão do Serro Azul foi executado sumariamente naquele local, o quilômetro 65 da ferrovia, já nos limites do município de Morretes. Na madrugada de 20 de maio de 1894, durante a Revolução Federalista, o Barão e outros cinco companheiros foram levados no trem para Morretes sob o pretexto de que seriam levados para o Rio de Janeiro. O trem de carga parou propositalmente no meio do penhasco da Serra do Mar, onde todos foram assassinados e jogados no desfiladeiro.

Confesso que até aquele momento, para mim, o nome Barão do Serro Azul estava associado a alguma via, praça ou museu em Curitiba e até ao vagão no qual eu fazia o passeio. Chegando em Curitiba, fui pesquisar sobre a história de Ildefonso Pereira Correia e confrontando a minha ignorância, deparei-me com uma das mais belas biografias, que muito deve orgulhar aos paranaenses. Mas o que realmente me impressionou nas minhas pesquisas foi encontrar nesta trama que ceifou a vida do Barão, um personagem cujos sórdidos atos e modus operandi, encontra hoje na política paranaense seu semelhante: falo de Vicente Machado e Sérgio Moro.

As trajetórias jurídicas e políticas de Moro e Vicente Machado revelam paralelismos impressionantes, sobre como juristas paranaenses utilizam o sistema de Justiça como trampolim para reconfigurar o poder político nacional e estadual, guardadas as devidas proporções de suas respectivas eras históricas, a transição para a República Velha e o Brasil contemporâneo pós-Operação Lava Jato.

Ambos iniciaram suas vidas públicas amparados pelo prestígio técnico do Direito antes de migrarem para a política partidária eletiva; Vicente atuou como promotor público em Curitiba e juiz municipal em Ponta Grossa antes de ingressar no Legislativo; Moro tornou-se juiz federal antes de ganhar notoriedade global.

Os dois ganharam projeção ao se posicionarem no centro de terremotos políticos que mudaram os rumos do país: durante a Revolução Federalista, Vicente como vice-presidente em exercício do estado, enfrentou o cerco dos maragatos e o conflito sangrento contra as forças tradicionais, alinhando-se ao marechal Floriano Peixoto. Sérgio Moro foi o rosto da Operação Lava Jato, que em nome do combate à corrupção,  desestruturou o sistema político-partidário tradicional, culminando no impeachment de Dilma Rousseff e na prisão do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Nenhum dos dois se limitou aos palcos jurídicos, convertendo capital institucional direto em cargos eletivos de alto escalão: Vicente Machado transitou rapidamente para a política executiva e legislativa, tornando-se deputado, senador da República e presidente (governador) do Estado do Paraná. Sérgio Moro abandonou a magistratura de 22 anos para virar ministro da Justiça e Segurança Pública, posteriormente, elegeu-se senador da República pelo Paraná em 2022 e atualmente concorre ao cargo de governador do Paraná.

Sob a inspiração destes dois paranaenses, surgiram dois movimentos: o “Vicentismo”, que alguns viam como modernizador do Paraná, mas os seus opositores acusavam Vicente de ser um “coronel” implacável e autoritário que perseguia dissidentes pós-Revolução Federalista; já o “Lavajatismo”, é visto hoje por juristas como ação enviesada na política, de abuso judicial, utilizando métodos heterodoxos que mais tarde levaram o Supremo Tribunal Federal (STF) a anular suas sentenças.

Voltando ao Barão do Serro Azul, quando os maragatos avançavam em direção a Curitiba, Vicente Machado e seu governo abandonaram a capital e fugiram para Castro. O Barão do Serro Azul assumiu o controle civil da cidade vazia e criou a Junta Governativa para negociar a paz. Quando Vicente Machado retornou ao poder, com o recuo dos rebeldes, as negociações financeiras feitas pelo barão foram taxadas como um apoio financeiro deliberado aos maragatos. Historiadores da época acusam Vicente de usar a máquina estadual para eliminar opositores políticos sob o pretexto de punir traidores. E daí o assassinato do Barão do Serro Azul no quilômetro 65 da Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá.

A Baronesa do Serro Azul, Maria José Pereira Correia, viúva do Barão, a Nhá Cóca, enfrentou Vicente Machado de forma estratégica e corajosa em junho de 1895, pouco mais de um ano após o assassinato de seu marido. Em uma época de extrema repressão política e em que as mulheres não tinham voz no debate público, ela desferiu um golpe político devastador contra o governador paranaense usando o Congresso Nacional: uma carta-denúncia enviada senador carioca José da Costa Azevedo, o Barão de Ladário. Em junho de 1895, o Barão de Ladário leu a carta da Baronesa na íntegra no plenário do Senado Federal. A leitura provocou uma estrondosa repercussão nacional, pois Nhá Cóca quebrou o silêncio do medo e deu nome aos bois, acusando diretamente Vicente Machado como o verdadeiro mandante intelectual do crime. Na carta, a Baronesa desmascarou a narrativa oficial de “traição à pátria”. Ela argumentou publicamente que Vicente Machado agiu movido por ressentimento, vaidade e profundo ódio político. Segundo ela, o governador não suportou a humilhação pública de ter fugido de Curitiba covardemente, enquanto o Barão do Serro Azul permaneceu na cidade, foi aclamado pela população e salvou a capital de uma carnificina. Para Maria José, a execução foi uma vingança pessoal travestida de ato jurídico-militar.

O documento desestabilizou Vicente Machado. O impacto foi tão grande que, anos mais tarde, já na condição de senador, Vicente Machado foi obrigado a ir à tribuna do Senado por diversas vezes para se defender publicamente das acusações da viúva, tentando desesperadamente afastar de si a culpa pelo fuzilamento.

Com esse ato de resistência, a Baronesa do Serro Azul impediu que a versão dos assassinos prevalecesse e iniciou uma batalha de décadas para limpar o nome do marido, que culminou no reconhecimento dele como herói nacional.

Em 2026, às vésperas da decisão do povo paranaense na escolha de seu futuro governante, com a possibilidade de Moro ser o ungido, pergunto: onde estão as “Nhás Cocas” do Paraná para dizer ao senador: Eu acuso!

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