
Valmor Stédile — O início do ano 2000 trazia consigo o peso e as expectativas de um novo milênio, mas, nos bastidores da rádio em Curitiba — entre as sintonias da Clube e da Rádio Paraná —, o clima era de pura efervescência política e cultural. Eu estava ali, com o microfone aberto e o frio na barriga clássico de quem defende uma ideia, lançando o meu livro “Agenda 12 – Orientações ao processo eleitoral e político”. A obra era um raio-X das eleições municipais que se aproximavam e trazia uma análise ácida e realista sobre o cenário paranaense. O ponto central das minhas críticas mirava o conturbado período em que o então governador Jaime Lerner pertenceu ao PDT e as marcas que essa aliança — e sua posterior ruptura — haviam deixado no tabuleiro político. Do outro lado da mesa, o experiente e perspicaz âncora conduzia a entrevista com a maestria de quem conhece cada engrenagem do estado. Ao ouvir meus argumentos ponderados sobre os rumos partidários e os embates da época, ele não perdeu a chance. Com um sorriso de canto e o raciocínio veloz que só os grandes comunicadores possuem, disparou: “Trata-se, porquanto, de uma desventura!” A sala de controle e o estúdio explodiram em risos. O trocadilho, além de aliviar a tensão natural do debate político, carregava uma ironia fina e perfeitamente cronometrada. Afinal, sentado logo ali no banco dos entrevistados seguintes, aguardando pacientemente a sua vez de assumir o microfone, estava ninguém menos que o próprio mestre do jornalismo brasileiro: Zuenir Ventura. Ver Zuenir sorrir com a piada antes mesmo de começar a falar foi o prefácio de um momento inesquecível. Logo após a minha análise sobre as urgências da política local, o homem que traduziu o Brasil em obras-primas como “1968: O Ano que Não Terminou” assumiu o estúdio. Testemunhar a transição daquela crueza partidária do meu livro para a sensibilidade crônica e o olhar humanista de Zuenir foi uma das maiores lições de jornalismo e literatura que a vida me deu. Ele preenchia o ambiente com uma generosidade rara, típica dos gigantes que não precisam diminuir ninguém para parecerem grandes. A internet e os arquivos digitais de áudio podem não ter guardado o registro daquela manhã do ano 2000. Mas o eco daquela risada dividida, a agudeza da “desventura” lernerista e a honra de ter funcionado como a antessala para as palavras de Zuenir Ventura permanecem intactos na minha memória. Hoje, olhar para trás e lembrar desse dia é, acima de tudo, celebrar o privilégio de ter compartilhado o mesmo oxigênio e a mesma paixão pelas palavras com um dos maiores contadores de histórias que este país já teve.
Nota de falecimento/O Globo https://www.facebook.com/share/p/1K5939Ue4e/

