
A privatização de grande parte do setor público brasileiro responsável pela infraestrutura econômica do País foi um projeto de pilhagem do Estado em favor de oligarquias financeiras que se aproveitaram da confusão ideológica que se seguiu à Constituinte de 1988. Vindo de um regime militar, o povo acreditou que a democratização resolveria todos os seus problemas. Ledo engano. Ela os agravou. O País havia se unido em favor da liberdade política e se fragmentou na medida em se dividiu entre múltiplos grupos identitários, sem um projeto comum.
A classe dominante se aproveitou dessa situação para promover ao máximo seus próprios interesses em detrimento do interesse público. Do lado da sociedade, era cada um por si e Deus por todos. A unidade popular demonstrada nas campanhas das Diretas Já serviu principalmente para amainar a luta de classes e deixar o trabalhador sem instrumentos de poder político, na medida em que o único a seu alcance era a própria mobilização de massas. Sem ela, os oligarcas da República não tiveram barreiras concretas contra suas ambições de tomar conta do Estado.
Foi nesse contexto que se deu a luta ideológica pela privatização. Nem foi uma luta propriamente dita porque, na prática, o domínio absoluto dos meios de comunicação de massa ficou em mãos da classe dominante, como sempre. Empurrados para uma posição secundária, os trabalhadores, que poderiam resistir ao projeto conservador mediante a defesa das estatais onde trabalhavam, jogaram a toalha e não quiseram ou puderam colocar obstáculos eficazes à venda de empresas públicas, inclusive aquelas mais rentáveis como Vale do Rio Doce, a segunda maior do País depois da Petrobrás.
Os argumentos privatizantes eram ridículos. As empresas estatais, como regra, seriam ineficientes e um peso para o Estado, como a citada Vale, a Eletrobrás, a CSN e o filé do setor petrolífero – a Petrobrás Distribuidora, que vende derivados diretamente ao público. Coisas absurdas aconteceram. Na venda da Vale por Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, não foi considerado o valor de suas reservas conhecidas de minério de ferro, estimadas em 18 bilhões de toneladas, com um teor médio de pureza superior a 65%. Isso permitiria, ou permitirá, sua exploração por cerca de 400 anos!
Entretanto, a questão não é de valor, mas de estratégia. Os governos seguiram privatizando e mentindo para o povo anos seguidos, com resistência mínima. Foi virtualmente destruído o legado de Getúlio Vargas nas áreas estratégicas do aço (CSN), do minério de ferro (Vale) e do petróleo (a Petrobrás foi obrigada a se desfazer de sua parte mais lucrativa e do contato direto com a população – Petrobrás Distribuidora). E não houve acompanhamento oficial sobre o que aconteceu ou está acontecendo depois da venda. A CSN, nas mãos privadas de Steinbruch, tornou-se um inferno de poluição para o município onde está instalada, Volta Redonda.
A febre privatizante atingiu progressivamente um dos setores mais importantes para a população, o da água. Aí a iniciativa não foi apenas do Governo Federal, mas também dos estaduais. No Rio, como aconteceu também com outros ativos federais, estaduais e municipais, a privatização da Cedae foi uma fonte de corrupção bilionária em favor, entre outros, do governador Cláudio Castro, aliado de milicianos e íntimo do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro – segundo o Estadão também aliado ao crime organizado. Além disso, houve casos em que banqueiros compraram empresas industriais apenas para especular.
Tudo isso foi aprovado pelo Congresso, em geral na base da corrupção. O momento, portanto, tendo em vista as eleições, é de reverter esse processo. E isso não é para recuperar dinheiro escoado para os corruptos – isso não tem volta -, mas para rever o que é estratégico para o País e para o povo e que, portanto, deve voltar às mãos do Estado. O campeão dessa proposta é Roberto Requião, ex-Governador e ex-Senador pelo Paraná, agora candidato a Deputado Federal. Em um de seus três governos, Requião pegou uma empresa desorganizada e quase falida, a Copel, e a transformou na mais eficiente do País na área de distribuição elétrica.
Para demonstrar que empresa pública, ao contrário do que propala a ideologia neoliberal, pode perfeitamente ser enxuta, honesta e próspera, a Copel, depois de reestruturada por Requião, vendia a energia elétrica mais barata no Brasil. Hoje essa situação se inverteu. Outra privatização que levou o ex-Governador a se candidatar, agora a Deputado Federal, foi a entrega do Porto de Paranaguá a multinacionais estrangeiras, que tiram espaço de exportação dos pequenos e médios produtores paranaenses. Ele se indigna também com a privatização de rodovias no Estado do Paraná. Enfim, se você quiser se juntar a ele nessa luta, vote nele.
Uma vez eleito deputado, Requião será o líder certo e experiente para comandar a ala antiprivatizante da Câmara. Os critérios para a venda das estatais seriam revistos à luz do interesse estratégico nacional, e não de ideologias manipuladas por oportunistas e vigaristas. Eu começaria pela CSN, criada por Getúlio, símbolo do nacional desenvolvimentismo. Ela está matando o povo de Volta Redonda com poluição. Caso se queira, além disso, botar a cereja em cima do bolo, que o Estado tome a empresa de volta por razões ambientais e a entregue a um Estra, ou Empreendimento Social Trabalhista, dirigido por seus próprios empregados.

