Globo enfrenta dura realidade: não é mais hegemonia absoluta. Por César Fonseca

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Foto Terra
Desde 1964, quando os Estados Unidos apoiaram o golpe contra democracia brasileira e, com isso, influenciaram decisivamente os rumos da comunicação no Brasil, a Rede Globo tem reinado no campo midiático; inicialmente, afiliada/aliada ao grupo americano Grupo Time Life, seu poder se tornou incontrastável; o meio político brasileiro foi criando paulatinamente uma globodependência crônica; quem não se vergou a esse poder, durante esse período, foi, apenas, Brizola, herdeiro das tradições trabalhistas varguistas.
Agora, na disputa do seu quarto e último mandato, em 2026, o presidente Lula adota uma resistência à outrora toda poderosa emissora de viés imperialista neoliberal, abalada, atualmente, pelo avanço das redes sociais; a individualização comunicativa, impulsionada por elas, fortaleceu a independência da sociedade diante do poder da antiga vênus platinada; o indivíduo, como se fosse autônomo do processo histórico, à falsa moda da economia clássica, saiu beneficiado diante das políticas comunicativas impulsionadoras do individualismo, submetido à alienação comunicacional sob sistema capitalista etc.
A globodependência, nesse cenário, sofreu desgaste e o poder hegemônico da emissora, assim como, por exemplo, acontece com o poder americano, no mundo capitalista em crise, entrou numa espiral de baixa, de forma paulatina.
IR OU NÃO IR AO DEBATE: EIS A QUESTÃO
Os comentaristas de Globo forçam interpretação errada quanto a ausência do presidente ao debate, insistindo que ele está tomado de uma certa arrogância; para Lula, segundo Merval Pereira, porta-voz dos Irmãos Marinho, enfrentar um debate com Flávio Bolsonaro, seria rebaixar o seu currículo; o pai, Jair, ele, ainda, respeita, por dispor de popularidade autêntica junto à ultradireita nacional, saudosa dos tempos da escravidão, que deixou o racismo e o negacionismo medieval em seu rastro; mas, o filho, não; seria uma desmoralização tecer armas com o cara cuja ficha corrida é condenada pela lei da ficha limpa; porém, as pesquisas demonstram a realidade: empate técnico entre ambos, na reta final de campanha; Flávio, desse modo, carrega nas costas a herança bolsonarista.
O sinal que isso representa é simples: o país terá que decidir entre um potencial ladrão dos cofres públicos, aliado das milícias, algo que conferiria supremacia do crime organizado no poder, caso ele saia vitorioso, e um candidato probo; no meio do tiroteio eleitoral, a oposição bolsonarista não é capaz de sustentar, por falta de provas, qualquer acusação a Lula; se tivesse as provas, estaria fazendo carnaval.
Nesse sentido, o embate na Globo, nessa altura do campeonato eleitoral, é claro: de um lado, candidato imoral, destituído de credibilidade, que sequer se preocupa em responder às acusações graves que lhe afetam, como é o caso do financiamento do filme Dark Horse, sem falar do histórico das rachadinhas, de financiamentos obscuros que obteve do BRB, com Vorcaro, para comprar mansão subfaturada em Brasília, além das lavanderias de dinheiro, disfarçadas de lojas de chocolate, no Rio de Janeiro etc etc.
De outro, Lula, contra o qual não pesa nenhuma acusação, até agora; a tentativa de envolver seu filho, Fábio, na corrupção do INSS cai por terra por falta de prova e por excesso de suposições, à moda da Operação Lava Jato, quando foi comandada pelo juiz Sérgio Moro, sub-agente do departamento de justiça americano, para promover fragilização da Petrobrás e facilitar seu fatiamento etc.
REALIDADE NEOLIBERAL INESCAPÁVEL
Resta ver a realidade como ela verdadeira é, o que, aliás, Lula, nessa reta final de campanha, está expondo com honestidade e firmeza; nos seus últimos discursos eleitorais, lista seus feitos e desfeitos; feitos são sua política social que ninguém é capaz de contestar, como produto do seu compromisso histórico de classe, ao longo de todos os seus mandatos; autêntico representante dos trabalhadores na eterna luta de classes sob capitalismo; isso lhe garante percentual seguro de votos para ir ao segundo turno; os defeitos, por sua vez, não se relacionam à história que compromete sua honorabilidade e caráter de homem honesto e sincero, mas à impossibilidade real, durante este terceiro mandato, de exercitar governabilidade republicana presidencialista.
Ele admitiu, em Belém, no Pará, que foi vítima de um “presidencialismo sequestrado”; os golpistas neoliberais de 2016, com Michel Temer à frente – à moda Trump, poderia se dizer –, introduziram o semipresidencialismo, semiparlamentarista inconstitucional, para gerar protagonismo político destituído de legitimidade ao poder legislativo, agigantando-o, artificialmente, em relação ao poder executivo.
As classes conservadoras, maioria no Congresso, coordenadas pelo Centrão, articularam nova governabilidade artificial por meio de emendas parlamentares; o resultado foi o sequestro da execução do orçamento público, uma atribuição constitucional do executivo, bloqueada pela maioria parlamentar neoliberal golpista, apoiada pelo mercado financeiro especulativo; ao executivo ficou a missão de impor restrições orçamentárias aos gastos públicos sociais em nome de ajustes neoliberais, cujos efeitos são os juros altos que impediram o pleno funcionamento sustentável das atividades produtivas.
Tal distorção priorizou as despesas financeiras e afetou as despesas primárias(saúde, educação, infraestrutura etc), em prejuízo do crescimento socialmente equilibrado; a consciência crítica lulista veio à tona no discurso no Paraná, há duas semanas, quando considerou “babaquice” a prática de realizar superavit primário a qualquer custo, enquanto os socialmente excluídos passam fome.
Os economistas lúcidos da esquerda já vêm falando isso faz muito tempo.
Lula não teve força para romper essa barreira neoliberal, restando-lhe negociar espaço no orçamento para garantir, apenas, os programas sociais compensatórios indispensáveis à sobrevivência dos mais pobres, no capitalismo da desigualdade tupiniquim; nesse corredor econômico estrito, limitado de ação, no cenário da governabilidade, ainda, fez demais: baixa inflação, baixo desemprego, atração de investimentos externos, ancorados na força potencial da economia nacional, mesmo, em meio a um arcabouço fiscal restritivo pelas forças do financismo neoliberal; quase um santo milagroso antineoliberal.
GLOBO FOGE DO ESSENCIAL
Esse é o papo essencial que a sociedade deveria estar discutindo com vistas a um futuro que Lula aponta para o seu eventual quarto mandato; porém, no formato dos debates que a Globo arma para entrevistar os candidatos, em geral, sobra, apenas, a espetacularização, à força da manipulação midiática, com tentativa forçada de vincular Lula à direita e à ultradireita, atoladas até o pescoço nas fraudes do Banco Master, do gângster Daniel Vorcaro, amigo de Flávio Rachadinha, manchando o processo eleitoral, configurando escândalo nacional e internacional.
Sabendo que a Globo fugirá da verdade, na manipulação do debate, reservando-lhe, apenas, vulgaridades maldosas para tentar enredar-lhe, Lula, com segundo turno garantido – mas, também, podendo surpreender no primeiro turno –, preferiu o jogo de cálculo político.
Por isso, a Globo, diante do xeque-mate lulista, enfrenta teste decisivo: se revelar o que ainda pensa possuir, ou seja, a hegemonia da comunicação, tornando todos os partidos globodependentes, pode comprovar a sua força; se isso não acontecer, o resultado será uma vitória midiática de Lula.
Restará ao lulismo-petismo uma lição fundamental da qual fugiu até agora: a construção de um sistema de comunicação democrático no país, para dar vez e voz à maioria, preparando-a para reformas políticas essenciais, como estratégia de ampliação do poder popular, em previsível quarto mandato; jogaria pá de cal na espetacularização da informação como forma de alienação política popular.

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