Além das Telas: Como o cinema e a filosofia ajudam a desnudar o senso de observador externo que por vezes nos acomete.
Em uma das cenas mais emblemáticas do cinema brasileiro contemporâneo, no filme Tropa de Elite (2007), um grupo de estudantes universitários reúne-se em uma sala de aula para debater a violência urbana e a estrutura social das periferias. A discussão se desenvolve a partir das ideias de pensadores como Michel Foucault, com interpretações teóricas sobre o poder, o Estado e a marginalidade.
O debate é interrompido por Mathias, um aluno que possui uma condição desconhecida pelos demais colegas: é, ao mesmo tempo, universitário e policial militar. Enquanto a turma analisa a dinâmica social a partir da teoria crítica, Mathias questiona a posição dos próprios estudantes diante da realidade que eles discutem.
Esse episódio oferece um bom ponto de partida para discutir um fenômeno recorrente na produção intelectual, seja ela clássica ou contemporânea: a latente desconexão entre o observador e o objeto de sua análise.
A crítica central que se extrai daquele debate universitário da ficção não se dirige ao uso da teoria em si, mas ao problema de o estudioso se colocar fora da sociedade que pretende analisar. Quando a reflexão parte de uma posição puramente hipotética, o analista passa a tratar a realidade como se não fizesse parte dela, assumindo uma suposta posição de neutralidade.
No filme, os estudantes, membros das classes média e alta do Rio de Janeiro, tentam interpretar a situação social das favelas à luz de Foucault, mas parecem pouco inclinados a meditar a partir de sua própria situação social concreta. É como se falassem na condição do filósofo que estudaram, e não das pessoas que efetivamente são.
E quem são eles, afinal? Na situação retratada, são os consumidores das drogas comercializadas nas favelas e, portanto, também fornecem os recursos que sustentam o funcionamento do narcotráfico. É precisamente essa condição que Mathias procura trazer à discussão. A contradição não está propriamente no que dizem sobre a favela, sobretudo na superfície do problema, mas naquilo que deixam de considerar sobre si mesmos.
A questão, naturalmente, ultrapassa o episódio cinematográfico. O analista não é um observador externo da sociedade, mas também um participante. Sem alguma consciência do próprio papel dentro desse espetáculo, corre-se o risco de compreender apenas parcialmente a totalidade do problema.
Há de se considerar, indubitavelmente, que a constatação da participação dos consumidores no financiamento do narcotráfico não esgota as explicações para a criminalidade, dadas suas causas históricas, sociais e institucionais. Todavia, sua ausência no debate é justamente o que torna a intervenção de Mathias tão significativa.
A tentativa de erudição por parte dos alunos, nesse caso, deixa de ser uma ferramenta de mediação com o mundo e passa a funcionar como um escudo contra ele. Talvez se encontre aí uma forma de antifilosofia no seu sentido mais contundente.
É bem provável que essa seja uma das razões pelas quais a cena, para não dizer a obra como um todo, tenha envelhecido tão bem. Um dos méritos de Tropa de Elite, lançado antes da era das redes sociais, reside justamente em desenvolver reflexões atemporais como essa de uma forma tão orgânica e delicada.
Ao final da cena, a turma permanece muda diante de Mathias. O silêncio, porém, admite duas interpretações: pode ser apenas a pausa que antecede uma réplica irrefletida, mais interessada em proteger o próprio ego do que em compreender o argumento alheio; ou pode representar o desconforto de quem, confrontado com as próprias contradições, começa a reconsiderar sua posição no mundo.
Mathias lança “a semente”. Se dela nascerá uma reflexão ou apenas uma nova justificativa, o filme deixa por conta de cada um, pois a cena é propositalmente cortada. E o que fica é a provocação: antes de julgar a posição dos outros na engrenagem social, o que realmente sabemos sobre a nossa?


