Saci no Passeio

0
110

 

O café da família é preparado pelas habilidosas mãos da múltipla Zezé, mulata alegre, na cozinha desde o raiar do sol.
Coisa rara na cidade — o sol.
Zezé cantarola uma canção aprendida na trilha sonora da novela das oito, que a patroa lhe permite assistir.

Ensolarada manhã de domingo. Dona Cremilda Cirolla Cifuentes — apelidada pelas amigas de carteado de Dona Cecê — é viúva zelosa, mãe de cinco filhos, avó de doze netos e proprietária de uma das remanescentes mansões da Avenida João Gualberto, em Curitiba.
Delicia-se com seu ritual de café. Logo irá despertar os netos, filhos de sua caçula, para uma visita ao shopping próximo. Há tempos não frequenta a igreja católica.

Quase todos os dias vai ao shopping da Avenida Cândido de Abreu, comprando todas as bugigangas possíveis para o usufruto de sua idade. Ainda recebe a polpuda aposentadoria do falecido desembargador Cifuentes.
Ah, sim… sim… foi de uma de suas fazendas de café, no norte do estado, que arrestou a mulata Zezé para cuidar dos netos enquanto a filha e o genro estivessem nos cassinos.

Os repetidos jogos de tranca no clube levaram o casal à profissionalização. Depois de Camboriú e Puerto Iguazú, agora jogavam pôquer em Las Vegas.
É verdade que o afável genro já havia perdido grande parte da herança dos pais, mas, na jogatina, mantinham a esperança de reconquistar as posses perdidas.
A filha, formada em Direito, fizera até mestrado na PUC. Porém, agora era também jogadora em cassinos, acompanhando o marido crupiê.
Ainda bem que ela não bebe uísque… “Coisas da nossa época”, refletia Dona Cremilda.

— Dona Cremilda! — chama Zezé. — O Paulinho e a Silvinha já levantaram! Já já levo eles pro café. Tão no banheiro lavando a cara e escovando os dentes. Eita criançada preguiçosa… benza Deus! Lá na fazenda num é assim, não! Precisa levantá e trabaiá logo cedo!

— Zezé! — ralha Dona Cremilda. — Engula sua língua! Menos… menos… ninguém quer saber da sua vida lá na fazenda. E, diga-me: você não tá melhor aqui na cidade? Tem dia livre e ainda tá frequentando escola à tarde, que eu lhe pago.

Zezé abaixa a cabeça, passa a mão sobre a boca e responde:
— Sim, sim, a senhora tem razão.

— Olha, Dona Cremilda, as crianças tão limpinhas e arrumadinhas. Depois do café, vamos ao shopping, certo, crianças?

— Eeebbbaaaa! — festejam os irmãos em uníssono.

— Vamos ver o Ralouiim, vovó! — gritou Paulinho.
— É Halloween! — corrigiu Silvinha, que já estuda inglês na escola.

Seguem ao shopping.

Atravessam a rua entre o Passeio Público e o Colégio Estadual. O asfalto, ainda com piche quente, gruda nas solas dos tênis das crianças.
Zezé prepara-se para limpar o solado dos calçados. Adentram o Passeio Público para esfregar os solados num tufo de grama e raspar a sujeira na areia fina do piso, próximo às jaulas dos animais e pássaros.

Zezé apanha do chão um pedacinho de pau — um galho caído de alguma árvore — para limpar o solado de Paulinho e Silvinha, sob o olhar atento da vovó Cremilda.
Sentam-se em um banco. As crianças vislumbram, na copa das árvores, um macaco a balançar-se entre os galhos.

— É o mico! É o mico! — gritam, apontando com o indicador o símio.

Zezé também observa o mico e, enquanto pragueja tentando tirar o piche dos calçados, comenta:
— Esse piche grudento tá difícil de sair da sola do tênis! É preto, grudento, fedido… ixiii… inté parece coisa do Saci!
Valei-me, Saci!

Eis que surge um intenso redemoinho próximo a eles. As aves e animais do entorno se calam.
Um silêncio estarrecedor os envolve. Todos ficam cobertos de poeira. Nem mesmo o barulho dos ônibus expressos, que rugem nas canaletas próximas, pode ser ouvido.

O Saci emerge do redemoinho e pergunta:
— Zezé, você me chamou? Lá na fazenda você me chamava sempre que ia fazer xixi na moita, né? Pra eu te protegê dos bichos! Aqui na cidade, nunca mais! Sua ingrata! E essa família, tão indo onde? — perguntou, com o dedo em riste.

Estupefata, de olhos arregalados, Zezé balbuciou:
— Oi, Saci! Como vai? Tamo indo no shopping vê o Ralouiim co’as crianças!

— O quê?! Raloiíinnn?! Essa desgraça de gente estrangeira no Brasil?!
Óia aqui, essa senhora Dona Cremirda… se continua indo nesse Raloiíinn, te jogo uma praga: teu genro vai comê toda tua fortuna na jogatina! Tua artrite vai piorá, e tua fia vai perdê os peito de silicone!

— E ocê, menino! — apontando pra Paulinho. — Eu vô mandá furá todas as tuas bola de futebol! Num vai mais funcioná teu autorama, nem teu computador, nem vai tê celular, tomem!

— E ocê, menina! — olhando pra Silvinha. — Sem boneca, sem computador, sem celular, sem vestido nem sapato novo, sem perfume e nunca vai arranjá namorado!

— E ocê, Zezé! Se for em qualquer Raloíinn, num vai casá, nem vai mais estudá, nem cantá na televisão!

Ao ouvirem as palavras praguejadas pelo Saci, o mico desceu da árvore; Iara, a sereia, surgiu do lago entre as carpas do Passeio Público; e o Curupira, com seu estilingue, junto da Matinta Pererê voando, aproximaram-se do Mestre Saci para aplaudi-lo e festejar sua defesa intransigente do folclore brasileiro.

A vovó e os netinhos, trêmulos mas convencidos pelo Saci, nunca mais ririam de nenhum Halloween.
Zezé comprou uma ilustração que um designer fez do Saci, e, naquela residência, todos se tornaram devotos do Saci — felizes e promissores brasileiros.
Até a filha e o genro de Dona Cremilda deixaram os jogos de azar e tornaram-se excelentes profissionais aqui no Patropi.

“Tupi or not Tupi, that is the question.”
— Oswald de Andrade, também devoto do Saci.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here