Há intelectuais que interpretam o Brasil; há outros que o administram; e há um grupo raríssimo que, ao mesmo tempo, pensa o país, age sobre ele e paga o preço de não se render ao consenso fácil. Samuel Pinheiro Guimarães pertence, sem exagero algum, a essa última estirpe. Sua trajetória não pode ser lida apenas como a de um diplomata brilhante ou de um formulador de política externa; ela deve ser compreendida como a de um intelectual orgânico do Estado brasileiro, no melhor sentido gramsciano do termo, que fez da crítica à dependência estrutural um compromisso ético e não apenas acadêmico.
Formado no Itamaraty, onde chegou ao posto máximo de Secretário-Geral, Samuel jamais foi um burocrata acomodado. Ao contrário, usou cada espaço institucional para tensionar os limites do possível, insistindo que o Brasil não estava condenado à periferia — mas que só sairia dela se rompesse, conscientemente, com a lógica da subordinação. Sua atuação decisiva na consolidação do Mercosul e sua oposição firme à ALCA não foram movimentos circunstanciais; foram desdobramentos coerentes de uma visão de mundo estruturada, profundamente informada pela história longa do sistema internacional.
Em Quinhentos anos de periferia, obra que se tornou leitura obrigatória para quem leva a sério a questão nacional, Samuel desmonta com precisão cirúrgica a ilusão de que o subdesenvolvimento brasileiro seria fruto de falhas morais, administrativas ou culturais. Sua tese é mais dura — e mais verdadeira: a periferia é produzida, reproduzida e naturalizada por um sistema internacional hierárquico, no qual a desigualdade não é acidente, mas método. O mérito maior de sua obra está em combinar erudição histórica, rigor analítico e clareza política, algo cada vez mais raro em tempos de especialização estéril.
Mas reduzir Samuel Pinheiro Guimarães ao autor ou ao diplomata seria cometer uma injustiça. Ele foi, sobretudo, um pensador público, alguém que acreditava que ideias importam — e que ideias mal formuladas custam caro a um país. Seu nacionalismo jamais foi retórico ou chauvinista; era um nacionalismo estratégico, fundado na defesa da soberania, da integração regional e da autonomia decisória. Para Samuel, soberania não era palavra de palanque, mas condição material: capacidade produtiva, domínio tecnológico, controle sobre recursos naturais e independência financeira.
Nesse sentido, sua crítica ao neoliberalismo nunca foi meramente ideológica. Ele compreendia, com a lucidez de quem conhecia os bastidores da diplomacia e das finanças internacionais, que a abertura indiscriminada, a desindustrialização e a financeirização corroem silenciosamente a capacidade de um Estado planejar o futuro. Sua recusa à ALCA foi, portanto, um ato de responsabilidade histórica: ao negar um acordo assimétrico, Samuel defendia não apenas o Brasil do presente, mas o direito das gerações futuras a escolherem seus próprios caminhos.
Há, contudo, um aspecto menos comentado — e talvez o mais revelador — de sua grandeza: o caráter. Entre colegas, alunos e amigos, Samuel era conhecido como alguém acessível, generoso no diálogo e firme nas convicções, sem jamais resvalar para a arrogância. O intelectual rigoroso convivia harmoniosamente com o homem simples, capaz de ouvir, de aconselhar e de rir. Era um bom amigo, no sentido pleno da palavra: leal, presente, confiável. Um pai dedicado, cuja vida pública jamais eclipsou a responsabilidadeprivada. E, como muitos o descrevem com carinho, um bom camarada — expressão que, nele, não tinha nada de folclórica, mas tudo de ética.
Ser “camarada”, em Samuel Pinheiro Guimarães, significava compartilhar princípios, não vantagens; significava discordar sem hostilidade e resistir sem ressentimento. Em um ambiente frequentemente marcado por vaidades e oportunismos, ele manteve uma rara coerência entre pensamento e ação. Nunca foi seduzido pelo aplauso fácil nem pelo conforto da neutralidade. Escolheu, conscientemente, o caminho mais difícil: o da crítica fundamentada e do compromisso com um projeto nacional de longo prazo.
Talvez por isso sua obra e sua atuação incomodem tanto quanto iluminam. Samuel não oferecia atalhos, nem promessas mágicas. Sua mensagem era exigente: sem Estado forte, sem integração regional sólida, sem enfrentamento das assimetrias globais, não há desenvolvimento sustentável nem democracia substantiva. É uma lição que permanece atual — talvez mais atual do que nunca.
No balanço final, Samuel Pinheiro Guimarães deixa ao Brasil algo mais valioso do que cargos ocupados ou livros publicados. Deixa um modo de pensar: estrutural, histórico, soberano. Deixa também um exemplo de vida intelectual comprometida com o interesse público, sem cinismo e sem concessões fundamentais. Em tempos de pensamento raso e memória curta, sua ausência pesa — mas sua obra permanece como bússola.
E é assim que ele deve ser lembrado: como um dos grandes pensadores brasileiros de seu tempo, um diplomata que honrou o país, um intelectual que não se afastou do povo e, acima de tudo, um homem íntegro — bom amigo, bom pai, bom marido e bom camarada.
28.01.2026,
Fortaleza.
Fernando Escocio.


