O mundo conturbado atual certamente se beneficiaria em muito da análise percuciente do Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães. Ao completarem-se dois anos de sua partida física, gostaria de relembrar três contribuições dele que dizem muito sobre o cenário nacional e internacional hoje e sobre as perspectivas para o desenvolvimento brasileiro e mundial.
Primeiramente, a avaliação dele sobre o Acordo Mercosul-UE há tempos destaca elementos centrais dos debates contemporâneos da integração internacional e do desenvolvimento. Em entrevista à Carta Capital, publicada em 19 de maio de 2014, o Embaixador considerava a assinatura desse Acordo “algo gravíssimo” e uma “desgraça”, não apenas por configurar livre comércio em bens industriais que prejudicaria a indústria brasileira, mas também por abarcar falta de liberalização de fato em produtos agropecuários, cujas exportações não aumentariam significativamente, além de impor restrições à política econômica em diversos temas, como em compras públicas e políticas de conteúdo local.
As críticas de 12 anos atrás, à época em que ele era Alto Representante do Mercosul, poderiam ser reproduzidas integralmente agora, inclusive diante de novas informações, dos textos divulgados e de ações legislativas recentes. Conforme discuti em artigo em janeiro de 2026, as novas salvaguardas a produtos agropecuários e agroindustriais criadas pelos europeus deixam claro que podem suspender qualquer aumento significativo dessas importações. Ademais, indico que diversos estudos encontram poucos efeitos positivos sobre o total da economia brasileira, enquanto mostram queda relevante em setores industriais mais avançados. Novamente segundo a entrevista citada, projeta o Embaixador que o Brasil correria o risco de ceder muito, especialmente por abrir mão de tarifas mais elevadas em bens industriais, e não ganhar nada em troca, nem em commodities.
Adicionalmente, considero relevante outra contribuição, de poucos anos atrás, na qual diversas discussões feitas estão mais do que atuais, pois encontram-se na ordem do dia dos debates pelo mundo. Entre as suas últimas participações públicas em debates, talvez a última, o Embaixador compôs mesa sobre Geopolítica e Economia Internacional com o então Presidente do Cofecon, Antonio Corrêa de Lacerda, a qual tive a oportunidade de moderar, na Câmara dos Deputados em 16 de agosto de 2022.
No citado debate, como indica o título, o Embaixador destacou a disposição territorial do poder e da economia no mundo, o caráter imperial do sistema internacional, o papel dos Estados Unidos nesse sistema e a inserção do brasileira. Ter soberania, que se discute tanto hoje, significa ter capacidade, o que depende do fortalecimento de toda a economia nacional. Uma economia vulnerável e com classes dirigentes vulneráveis ideologicamente tem dificuldade de exercer sua soberania. Se a classe dirigente está convencida de que a nação imperial é superior, ela não exerce soberania e apenas segue as decisões que lhe são sugeridas, alertou.
Por fim, ressalto outro momento que considero especial, em que tive a honra de receber, para comentários, versões preliminares de capítulos do livro que ele estava escrevendo, mas cuja conclusão foi interrompida por seu falecimento. Uma Introdução que tratava sobre Estados Unidos, a China, a Rússia e o Brasil, escrita em 11 de outubro de 2022 e infelizmente ainda não publicada, trazia, entre outras discussões, contribuição com análise das disputas econômicas e políticas dentro do sistema internacional mencionado anteriormente. A busca dos EUA por manterem sua hegemonia poderia levar a uma guerra, em resposta à ascensão da China e do desafio da Rússia, em meio a uma violenta disputa permanente em todas as áreas e temas. Isso não poderia ser mais atual, conforme fica claro na política externa dos EUA com Trump, inclusive na área econômica por meio de guerras comerciais.
Essas contribuições e lembranças podem, assim, indicar análises mais concretas da realidade e outros caminhos para o desenvolvimento nacional e dos países periféricos, diante dos desafios atuais. Não será aprofundando uma estrutura assimétrica internacional e uma inserção periférica e dependente que alcançaremos o desenvolvimento. Samuel Pinheiro Guimarães faz falta, mas está presente, hoje e sempre, no pensamento crítico e nas ações práticas que defendem novos rumos para o nosso País e o nosso mundo.


