A Possibilidade de Reestatização da CSN e o Futuro da Soberania Industrial Brasileira. Por Ricardo Guerra

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O mundo encontra-se diante de um embate entre a hegemonia unipolar – exercida pelos EUA – e países emergentes em busca da multipolaridade.

Em meio a disputas geopolíticas, guerras comerciais, guerras quentes e reorganização das cadeias produtivas, os países que desejam crescer com autonomia têm buscado fortalecer seus setores estratégicos.

Nesse contexto, a discussão sobre o papel do Estado na economia precisa voltar ao centro do debate nacional e trazer à pauta a importância do investimento em empresas fundamentais para a infraestrutura industrial do país, como é o caso da Companhia Siderúrgica Nacional – que, mal administrada (após privatização em 1993), passa atualmente por momento bastante delicado.

A siderurgia é a base de praticamente toda a estrutura produtiva moderna:

  • Aço é insumo essencial para construção civil, indústria automobilística, máquinas, infraestrutura, energia e defesa;
  • Sem uma indústria siderúrgica forte e integrada a um projeto nacional de desenvolvimento, nenhum país alcança verdadeira soberania econômica.

Durante décadas, a CSN foi exatamente isso – símbolo da nossa soberania, da capacidade do Estado brasileiro de planejar o desenvolvimento e estruturar setores industriais estratégicos:

  • Criada em 1941, durante o governo de Getúlio Vargas, a CSN foi um dos pilares do processo de industrialização brasileira. E teve papel decisivo na expansão da indústria pesada e na consolidação da infraestrutura produtiva do país;
  • No entanto, em 1993, no contexto das políticas de privatização que marcaram o período de hegemonia do ideário neoliberal no Brasil, a companhia foi vendida (a preço de banana) ao setor privado.

Desde então, a lógica que orienta a empresa deixou de ser o planejamento estratégico nacional:

  • Passando a responder prioritariamente às dinâmicas de mercado – em busca apenas pela maximização de resultados financeiros;
  • Acumulando agora dívida bilionária.

Esse processo não é exclusivo do Brasil: em diversos países, setores considerados estratégicos passaram por privatizações semelhantes nas últimas décadas.

Contudo, o cenário internacional mudou profundamente:

  • Hoje, grandes economias voltam a discutir o controle público de ativos estratégicos;
  • Países desenvolvidos têm retomado instrumentos de política industrial e, em alguns casos, reestatizado empresas ou ampliado a participação do Estado em áreas consideradas vitais para a segurança econômica;
  • Um debate que não gira apenas em torno de “Estado ou mercado”, e inclui também  a possibilidade de combinar ambos em busca de garantir desenvolvimento, estabilidade e autonomia produtiva.

Debate que se torna ainda mais relevante em um cenário internacional cada vez mais tenso. E, como é de conhecimento geral, em momentos como esse, os países que não possuem base industrial sólida e autonomia produtiva tornam-se mais vulneráveis a pressões externas, sanções, dependências tecnológicas e restrições comerciais.

A siderurgia continua sendo um dos setores centrais para qualquer projeto de reindustrialização. Mas, em oposto a isso, no Brasil, país que possui vastas reservas de minério de ferro, energia relativamente abundante e um grande mercado interno, grande parte dessa riqueza é exportada como commodity, sem agregar o valor industrial – o que poderia gerar empregos qualificados, inovação tecnológica e maior densidade econômica.

Dessa forma, a eventual reestatização da Companhia Siderúrgica Nacional — ou ao menos a retomada de um forte controle público sobre sua estratégia — deve ser analisada sob essa perspectiva: não se trata aqui de nostalgia estatizante, mas de reconhecer que certos ativos são estruturais para o desenvolvimento nacional.

Uma siderúrgica estratégica integrada a uma política industrial poderia apoiar programas de infraestrutura, estimular cadeias produtivas, reduzir dependências externas e fortalecer setores industriais de maior valor agregado:

  • Em vez de apenas exportar minério ou aço semi acabado;
  • O Brasil poderia ampliar sua capacidade de produzir bens industriais complexos, fortalecendo sua economia real.

Tudo isso ganha ainda mais relevância em um momento em que o país busca retomar políticas de desenvolvimento produtivo, ampliar investimentos em infraestrutura e promover a reindustrialização:

  • Sem base material — sem aço, máquinas e tecnologia;
  • Nenhum projeto de crescimento sustentável é possível de ser mantido.

O Brasil possui escala econômica, recursos naturais e capacidade técnica para ocupar posição muito mais relevante na indústria global. O que nos falta não são recursos, mas decisão estratégica.

Recolocar a siderurgia no centro de um projeto nacional de desenvolvimento — inclusive discutindo a reestatização ou novas formas de controle público de empresas estratégicas — não é olhar para trás: é compreender que as nações que desejam autonomia no século XXI precisam proteger seus setores fundamentais.

Mais do que uma empresa, a CSN representa um símbolo da capacidade do Brasil de decidir o próprio destino econômico:

  • Sua criação, ainda durante o governo de Getúlio Vargas, foi parte de um projeto nacional que buscava transformar um país essencialmente agrário em uma nação industrializada;
  • Uma Nação capaz de produzir riqueza, tecnologia e empregos qualificados.

Enfim, discutir a eventual reestatização da CSN, ou ao menos novas formas de controle público sobre sua estratégia, trata-se de refletir sobre qual papel o Brasil deseja ocupar na economia mundial nas próximas décadas: ser um grande exportador de matérias-primas, (dependente das decisões de mercados externos) ou buscar consolidar uma base industrial robusta, capaz de gerar inovação, valor agregado e autonomia produtiva.

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